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A Era das Conseqüências

Capítulo 2

Ciências Sociais (parte 1)

As malas já estavam prontas, e tudo que podia ser considerado havia sido considerado, visto, revisto, empacotado, embalado, dobrado, desdobrado, redobrado, guardado, conferido, limpo, lacrado e trancado. Mas mesmo assim Carolina não podia evitar a sensação de que estava esquecendo-se de alguma coisa. Sensação comum, mas, para Romualdo e Lorde, que acompanharam a jornada dela pelo pequeno território que eram seus guarda-roupas, totalmente infundada.

Carolina era uma mulher jovial, apesar de estar já no início de seus “quarenta”. Loira de olhos castanhos, ela morava junto com Romualdo, e haviam tido apenas um filho. Seu nome era Lorde, um garoto de 12 anos de cabelos e olhos escuros, apesar da pele mais clara do que escura.

Andando de um lado pra outro, Carolina fazia Romualdo perder a paciência. Enquanto eles discutiam, pateticamente, se ela deveria ou não andar pra lá e pra cá e se deveria ou não repassar todos os objetos que deveriam estar na mala, Lorde ouvia música. Alheio aos barulhos externos, ele apenas aproveitava os últimos momentos do seu quarto.

Logo eles viajariam num trem-bala para o Rio de Janeiro, cidade no litoral do continente sul-americano no qual moravam. Eles moravam, desde antes de Lorde, em Rio Claro, cidade que tem um passado desconhecido antes da Guerra da Luz; sabe-se apenas que durante e depois do conflito a cidade foi fortaleza dos discordianos na região. Por causa de seu destaque, o lugar foi um dos primeiros a ser reconstruídos após a Guerra, e abriga hoje a sede da SDU do continente americano – embora vários outros prédios da Sociedade Discordiana Universal existam espalhados pelo continente.

- Vamos, filho! – berrou o pai dele, pra que ele pudesse ouvir mesmo com o dispositivo musical ligado.

- Já tô indo! – disse ele, com um toque de animação na voz, embora o que predominasse mesmo era o receio de deixar sua cidade.

Quando ele chegou à estação, avistou Berto, seu amigo, a alguns metros dali. Ele estava de costas, esperando o embarque no trem que iria para Buenos Aires, cidade no sul do continente.

- Berto! – disse Lorde, correndo à frente dos pais.

- Lorde? Ah, você ia viajar hoje também! – disse Berto quando Lorde chegou.

Berto era amigo de Lorde desde há muito tempo, quando se encontraram na biblioteca da escola. Os dois queriam fazer um trabalho sobre carros de velocidade, e então o instrutor apresentou os garotos um ao outro. Desde então eram inseparáveis, e eram também parecidos fisicamente. Algumas pessoas até perguntavam se eram irmãos. Quando diziam que não, insistiam ainda: “São primos, então?”

- Pra onde você vai?

- Rio de Janeiro… – disse Lorde com uma voz estranha – eu ouvi dizer que não tem nada de bom lá… Tirando as praias, e os restaurantes. E os monumentos, mas esses não devem ser tão bons assim.

- Ah, mas praia deve ser legal… Não deve ser tão ruim assim, se não como é que tantas pessoas vão pra lá o tempo inteiro nas férias? Praia é o sonho de consumo de uma tia minha, ela vive falando de como é bom.

- É. Mas é a primeira vez que eu vou ficar longe de Rio Claro. Não sei se vai ser muito… Bom… Sabe… Só vai ser eu e meus pais, visitando monumentos e, e praias e… Restaurantes. Assim o tempo todo.

- Viajar é legal, conhecer lugares novos. Eu viajo todas as férias.

- É, eu sei

- E… Sei lá. Vai ser legal, qual é o problema de visitar restaurantes? Eu sei que lá no Rio todo mundo fala muito bem da comida.

- É, sim, eu vou gostar da comida de lá, eu gosto de frutos do mar, e dizem que por lá tem bastante. Alguma coisa que eu não posso esquecer, amigo-que-viaja-muito?

- Ah… Não sei, acho que nada – Berto olhou pra cima tentando lembrar-se de alguma coisa – Ah! Lembra onde você coloca a toalha. Não perde a toalha.

- Que toalha?

- A tua.

- Toalha de banho?

- Sim.

- O que tem ela?

- Não é legal perder a toalha.

- Hã?

- Olha, não perde a toalha. Uma vez eu peguei uma de um hotel, e ouvi depois o meu instrutor em um trabalho de química falar de higiene pessoal e tal… Não é legal usar toalhas que outros já usaram, não é legal mesmo.

- Tá, mas o que… Não entendi.

- Olha, por exemplo, tem células mortas numa toalha depois de um banho!

- Sério? Mas e quando lava, não sai?

- Aí sai.

Lorde ficou sem entender o que ele quis dizer. Fez uma cara de incompreensão pra Berto, esperando que ele explicasse. Berto finalmente falou:

- Imagina saber que teve células mortas ali! Blargh! – Berto fez cara de nojo.

- Ah… Tá bom, eu não vou esquecer disso – disse Lorde, achando tudo aquilo muito estranho. Afinal, se lavavam, não ficavam mais células mortas ali. Ou ficavam?

- Berto? Vem, a porta abriu. Oi Lorde. – disse a mãe de Berto.

- Oi Tia – disse ele, sorrindo meio que forçado por uma fração de segundo, fazendo aquele barulhinho estranho. Ele gostava de fazer isso. Achava engraçado. – Tchau!

- Tchau querido, boa viagem. Diga pros seus pais que demos um oi. Entra lá, Berto.

- Tchau Lorde! – disse Berto, antes de desaparecer dentro do trem.

- Tchau Berto!

Eles entraram no trem e Lorde ficou olhando o corredor vazio do trem. Os pais dele o chamaram e ele foi embora quando a porta nem tinha se fechado ainda.

Eles embarcaram no trem dele numa cadeira tripla, ficando ele na janela e os pais dele ao lado. A viagem foi tranqüila e rápida, além de gostosa, pois ele acabou comprando uma barra de chocolate com avelãs pra viagem. Depois de pouco mais de uma hora eles estavam no Rio de Janeiro.

Assim que saíram pegaram um tarro pra ir até o Hotel. Desfizeram as malas, arrumaram tudo em alguns minutos e saíram de novo, dessa vez para o ponto turístico que os pais de Lorde mais gostariam de conhecer: o memorial da Batalha do Rio de Janeiro, uma das mais importantes da América do Sul nos treze anos de Guerra da Luz. O memorial é simples: uma pedra do que um dia foi o Cristo Redentor, uma estátua gigantesca, destruída por uma bomba. A estátua foi praticamente pulverizada; o maior pedaço está lá até hoje, centenas e centenas de anos depois.

Nessa batalha, depois de várias conquistas e reconquistas, a cidade foi arrasada. Mas através dos tempos ela foi bem reconstruída. Em pouco tempo, já que estavam num hotel no centro da cidade, chegaram à Alameda Floriano Peixoto, onde subiram até o Memorial BRJ.

A vista era incrível. Lorde nunca tinha visto algo parecido em Rio Claro. Um horizonte que acalmou Lorde e deu a ele uma sensação incrível, definitivamente.

Enquanto os pais tiravam fotos na frente do memorial, ele apreciava a vista e a agradável brisa. Pensava no quanto a natureza era bonita, e que talvez não fosse tão ruim assim visitar esses ligares bonitos do Rio de Janeiro.

Lorde virou o rosto para as escadas de acesso até o memorial e viu um homem de meia-idade (que deveria ter a mesma idade de seu pai), uma mulher de idade semelhante, aparentando ser mais velha que o homem, e uma menina que deveria ter mais ou menos sua idade também. Ela era loira e tinha olhos azuis muito claros. Seu cabelo tinha uma franja reta, desarranjada pelo vento.

Alguma coisa naquela menina chamou a atenção de Lorde. Um súbito interesse por ela foi despertado. Lorde olhou para o trio e os seguiu com o olhar até onde o pescoço permitia. Ela vestia calça jeans, uma blusa branca e uma sandália também branca. Eles pararam em frente à pedra e esperaram a máquina ajustar-se, à frente de Carolina e Romualdo. Foto tirada, a máquina continuou planando no ar até que ele foi buscá-la. Depois que os pais de Lorde saíram da frente do memorial, foi a vez da garota e da família dela.

- Vamos embora, filho?

- Ah, não… Vamos ficar mais um pouquinho.

- Hum, tá bom. Gostou da vista daqui?

- Aham – respondeu ele. Como ele ia conseguir ficar ali por mais tempo? Eles não iam ficar admirando a vista a manhã inteira; e logo aquela menina também ia embora. Na verdade, o que ele queria, o que ele pretendia com isso? Que besteira, que bobagem, que tolice. Falar com ela, era o que queria? Ele nem a conhecia! Por que queria demorar mais um pouco, então?

- Olha aquela ilha, que legal – disse a mãe dele. Ela e o pai dele se beijaram e admiravam, abraçados, uma ilha próxima ao memorial.

- Ei, menino! – disse uma voz atrás de Lorde.

Ele se virou, surpreso. A voz era dela, da menina loira desconhecida. Ela chamava por Lorde, mas, por quê?

- Tira uma foto da gente, favor? – Pediu ela, comprimindo os olhos por causa do sol.

Lorde não soube o que responder e uma onda de calor subiu pelo seu corpo. Sentiu-se um pouco envergonhado, mas não conseguiu nem se mexer. Paralisado ele estava, mas por quê? Era o que ele queria, a chance dele!

- A câmera não é… Automática? – perguntou Lorde.

O pai dele jogou os olhos pra cima, a mãe dele riu. “Que coisa mais idiota pra dizer”, pensava o pai…

A menina ria com a pergunta, e os pais dela também.

- Não, menino, não é. Você não é daqui, né? – perguntou ela, com ar de sabida.

- Aham – respondeu ele, nervoso, olhando nos olhos dela não por coragem, apenas por falta da mesma.

- Então. Aqui no Rio a gente não gosta de câmeras automáticas. É uma tradição daqui da cidade tirar fotos pela gente mesma – respondeu ela e deu um sorrisinho alegre pra ele.

- Ah tá… Então tudo bem! – Ele deu aquele sorrisinho dele, quase um cacoete. Mas a menina achou engraçado, até deu uma risadinha antes de voltar correndo pra perto de seus pais. Ele se desprendeu das cercas do memorial e foi tirar a foto.

Depois que ele tirou a menina veio ver como ficou. Ela disse pra ele, enquanto olhava para a foto:

- Meu nome é Andreah.

- Meu nome é Lorde – disse ele, ainda mais nervoso com a proximidade da menina.

- Lorde? Nome legal.

- Obrigado! – disse ele, sorrindo. Não daquele jeito, um sorriso normal.

- De onde você veio?

- De Rio Claro.

- Rio Claro? Meu pai vai pra lá direto! – disse ela mostrando um pouco de surpresa.

- E o que ele faz?

- Ele é um cavaleiro discordiano! Ele cuida de um Centro de Treinamento no Rio.

- Legal!

- É! – confirmou ela – Conhece alguém aqui?

- Não… Só você.

- Tá, mas você não me conhece – disse ela, rindo.

- É, então, tirando você, que eu acabei de conhecer, ninguém.

- E o que vocês vieram fazer, vieram pra praia?

- É, também… O que mais a gente faz aqui?

- Aqui no Rio?

- Aham. Ouvi dizer que só tem praia por aqui!

- Não! – disse Andreah, rindo quando negou enfaticamente – não é só isso que tem aqui não!

Lorde e Andreah conversavam mais e mais sobre coisas famosas do Rio de Janeiro e lugares divertidos pra ir. Desceram as escadas do memorial na hora de ir embora e trocaram números de comunicador. Aos poucos ele ia se acostumando com ela e não se sentia tão nervoso.

Durante aquelas férias, eles saíram várias e várias vezes, ficando bem próximos. Foram até uma longa avenida na praia, visitaram um parque de diversões, derrotaram dragões no jogo de universo virtual na casa dela, entre outras coisas. Houve um só dia em que não saíram; havia uma chuva muito intensa e os pais de Lorde quiseram viajar até uma cidade vizinha pra conhecer um restaurante.

O tempo voou; Lorde visitou as escolas do Rio, uma delas com exemplares originais de trabalhos científicos. Sempre que os dias terminavam, Lorde ia dormir e começava a pensar como foi o dia e como seria aquele que viria… Algumas vezes ele ficava planejando indiretas, e em suas ficções eles sempre ficavam juntos no final de algo como mais um dos jogos onde deveriam matar dragões ou então depois de grandes e exageradas declarações de amor…

Um dia Lorde se pegou pensando nessa palavra e naquilo que sentia. Será que era amor? Ele pensava nela o tempo todo, e se sentia maravilhoso quando estava perto dela… Mesmo assim, será que isso era amor? Será que não faltava alguma coisa, ou era só medo de experimentar o sentimento tão distante dele… Sentimento que ele só ouviu falar da boca dos outros, mas nunca da boca do próprio inexperiente coração…

No outro dia e no outro e no outro aquela vontade de dizer alguma coisa só crescia dentro de si. Ele adorava estar perto dela, e tudo indicava que ela também. O que ele tinha a perder? Os olhares que eles trocavam eram tão intensos! Eles diziam alguma coisa que Lorde não entendia com a cabeça, só com o coração. Cada olhar de Andreah conquistava seus sentidos, ele se arrepiava e um enternecimento dominava sua atenção. O último dia da viagem de Lorde foi marcado pela visita que ele e Andreah fizeram ao Centro de Treinamento da SDU no Rio de Janeiro, onde o pai dela trabalhava. Era um centro preparatório; uma estrutura grande, onde pequenas aulas práticas e grande parte das aulas teóricas eram feitas naqueles que moravam no Rio. Depois de um número limitado de aulas, eles deveriam então ir pra Rio Claro ou pra outra sede continental da SDU, onde outras aulas eram ministradas e os testes finais eram aplicados.

Passaram pela recepção do CT, onde o pai de Andreah registrava sua presença e a das crianças. Enquanto esperava, Andreah sentou-se; Lorde ficou andando pela sala. Passou por um jornal. A Manchete era “Grupo de cientistas faz missão de reconhecimento no planeta Z-15”. Ele parou sua atenção um pouco sobre o jornal, mas logo Andreah o chamou. Eles passaram por uma porta, atravessaram mais alguns corredores, e chegou então a uma enorme cúpula de vidro; dentro dela, a entrada para aquilo que parecia ser um labirinto.

- É um labirinto?

- Isso – respondeu Andreah – mas há mais do que corredores dentro dele. Tem armadilhas e um lugar pra batalhas com espada.

- E a gente vai entrar?

- Não! A gente vai voltar e ir pra cima da cúpula. Vamos ver tudo de cima.

- Humm… Legal.

- Vem – Andreah puxou Lorde pela mão de volta ao corredor. O pai dela estava se vestindo para entrar no labirinto.

Eles entraram em um corredor lateral e subiram através de um elevador até um caminho metálico que levava até a ponta plana da cúpula, onde era possível ver todo o labirinto. Quando chegaram lá, soltaram as mãos pra poderem se deitar no chão de vidro e verem tudo o que acontecia lá em baixo. Lorde detestou a idéia de soltar a mão, ainda que Andreah não fizesse isso intencionalmente – foi mais porque deitar é uma atividade que requer mãos livres, preferencialmente.

Na parte central havia um grande espaço livre; ali, provavelmente, seria o lugar onde as habilidades de batalha com a espada seriam testadas. Alguém já aguardava ali, em um dos quatro cantos – provavelmente era um instrutor. Andreah contou a Lorde que o conhecia. Na outra ponta do labirinto, alguém entrava.

- É o Tamanduá – disse Andreah.

- Tamanduá?

- É o apelido dele. Um cavaleiro em treinamento que meu pai conhece. Ele já foi lá em casa um dia.

- Humm…

O pai de Andreah também entrou no labirinto.

- Qual é a graça de ser cavaleiro discordiano? – perguntou Lorde, externalizando uma questão dos seus pensamentos.

- Ah, eu não sei – respondeu Andreah, sinceramente – Eu não sei. Mas eu acho legal. Não só as batalhas, as roupas, a espada e tudo o mais. Eu acho legal a atitude deles.

- Por quê?

- Levar a paz aos cantos do universo! - disse ela com uma voz um pouco mais grossa - Isso é muito nobre!

- É. Parece.

- Parece não. É… – ela falava despreocupadamente, estava de olho em seu pai. Ele tinha parado subitamente em um dos corredores. Ele desembainhou sua espada e passou-a por cima do chão, na horizontal. Ela começou a brilhar; era como se o metal estivesse exalando algum tipo de gás denso que ficava envolto no próprio metal, e esse gás parecia refletir uma luz vermelha.

O pai de Andreah então voltou a guardar a espada, deu três passos pra trás e pulou por cima de uma parte do chão.

- Há! Meu pai sabia que ali ia ter um alçapão! Meu pai é demais! – dizia Andreah, orgulhosa.

- Mas se ele já sabia, qual é a graça?

- Não, ele não sabia antes, ele descobriu agora, ali. Você tá tão estranho hoje! Tá achando tudo sem graça.

- É que eu vou embora amanhã.

- Então aproveita.

- Como ele fez aquilo?

- Aquilo o que? – disse Andreah, voltando sua atenção pro seu pai, que aparentemente estava andando pelos corredores, sem fazer nada de anormal.

- O negócio de descobrir o alçapão.

- Segredos… De cavaleiro discordiano!

Lorde e Andreah riram.

Enquanto ela olhava para o labirinto debruçada no chão, com a cabeça encima dos braços cruzados, Lorde pensou em segurar a mão dela. Como? Ela estava de punhos cerrados! Ela então desfez a formação de seus braços e esticou o braço direito pra frente, meio que se espreguiçando com a mão. Depois que parou de esticar os dedos, deixou a mão relaxada, ali, livre, solta… Reunindo coragem, Lorde esticou sua mão e encostou a sua à dela.

Como a mão de Andreah estava quente! A sensação que ele teve foi… Ótima, ainda que seu estômago desse voltas naquele momento, e apesar de seu silencioso desespero; como será que ela reagiria? O que ela faria? Por que não fazia logo qualquer coisa?! Ela então mexeu sua mão… Tudo se revirou em sua mente, uma gota de suor escorregou pelo seu rosto… As sensações se manifestavam através do calor que perpassava o seu corpo. Ela mexeu sua mão e a acomodou entre a dele, entrelaçando os dedos. Ele nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida; tinha feito poucas coisas como essas em seus poucos 12 anos; mas dessa vez era muito, muito especial, de alguma forma! Todos os momentos que passava com ela, ele sentia algo que não conseguia descrever… Uma coragem e uma vulnerabilidade tão grandes… Como aquilo era possível?

Aquelas haviam sido as melhores férias dele, e não fosse a saudade que sentia de Berto, ele nem iria querer voltar pra Rio Claro…

Mas ele teria que voltar, e acabou.

Tamanduá perdeu na batalha de espadas para o pai de Andreah. Eles foram embora e na mesma noite Lorde arrumou as malas. No outro dia partiram do Rio de Janeiro. No caminho de volta, uma das últimas coisas que disse a Andreah ecoavam em sua cabeça; formava-se uma idéia legal em sua mente, pra, quem sabe, conquistar seu coração.

No alto da cúpula de vidro ele tinha dito a ela:

- Andreah, por que nós dois não viramos cavaleiros discordianos?

- Mas… Não era você que não via graça nisso?

- É, mas eu me empolguei com esse negócio de batalhas de espadas e tal.

- Humm…

- E aí, o que você acha?

- Não sei Lorde. Você tem certeza disso que você tá dizendo? – disse Andreah, solenemente.

- Claro!

- Então tá!

- Então tá! Nós dois em Rio Claro, daqui a nove anos, passando no teste pra sermos eu um cavaleiro discordiano…

-… E eu amazona! – Eles riram e sorriram. Estavam eles de mãos dadas ainda; poucos minutos depois tiveram que se separar.

Será que ele cumpriria com essa promessa? Longe da coragem que tinha quando estava junto dela, ele pensava melhor naquilo que disse. Será? E se ele não fosse bom o suficiente? E se ele não cumprisse a promessa? Ou pior, e se ela não cumprisse a promessa? Quando foram embora, ele quis falar “Eu te amo” pra ela. Não conseguiu, ele não teve coragem. E agora, voltando pra casa, ele sentia-se mal por não ter falado. Mas isso acaso muda alguma coisa? Ele continuava a sentir o que sentia – mas ele queria que ela soubesse… As férias terminaram dessa maneira confusa pra ele, logo no dia 23 de Confusão de 7231 de Nossa Senhora.

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