Conteúdo A Era das Conseqüências
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A Era das Conseqüências
Capítulo 3
Ciências Sociais (Parte 2)
Lorde, jogado no fofo sofá branco de sua casa, assistia ao televisor. Um desenho animado mostra um gato burro e um cachorro inteligente que tinham que salvar o mundo resolvendo complexos desafios de lógica. Lorde achava que os desafios tinham ficado muito fáceis; eram melhores quando ele era menor.
Ou será que ele que havia crescido? Fizera, no último dia 66, 13 anos. Dali a nove dias faria um ano que não via Andreah, a menina que dominou seus pensamentos durante quase um ano inteiro, desde que ele deixou o Rio de Janeiro.
Eles conversavam pelo comunicador, mas era só assim que se viam, pois o pai dela nunca mais viajou para Rio Claro. Apenas uma vez, mas foi porque ele começou a viajar para missões a outros planetas – veio pra embarcar em uma nave. Eles nunca optaram pela opção de contato sensorial, apesar dos pedidos de Andreah. Lorde dizia que seu modelo de comunicador estava estragado, embora não estivesse; ele apenas tinha medo. Seu coração batia aceleradamente quando o comunicador mostrava que era ela quem estava chamando, e ele sempre dizia a si mesmo: “eu quero vê-la de verdade… Não quero usar essas sensações artificiais!”. O que, ele mesmo confessava de vez em quando, era uma desculpa pra adiar cada vez mais qualquer tipo de contato mais direto entre ele e ela.
Do que exatamente ele tinha medo? Ele não sabia. Mas era mais medo de decepcioná-la, ou medo de decepcionar a si mesmo? Ele não sabia sequer por que estava preocupado com decepções.
Resolveu trocar de canal. O canal de notícias apareceu na tela por uns instantes, mas logo desapareceu pra dar lugar a um canal de filmes. Lorde já havia assistido ao filme que estava passando, mas gostou tanto na primeira vez que quis vê-lo de novo. Antes mesmo que pudesse prestar atenção ao fato de que estava quase dormindo, ele caiu no sono.
Confortavelmente deitado na cama, Berto lia um papel eletrônico que tinha à sua frente; o terminal digital colocava num arquivo de texto tudo o que Berto lia, ainda que ele não ditasse nada – apenas “lesse em voz alta na cabeça”. O comunicador dele tocou uma música e Berto reconheceu pelo toque que era Lorde. Atendeu a chamada.
- Fala Lorde.
- Berto você não vai acreditar! – disse Lorde, rapidamente.
- Fala.
- A minha mãe acabou de voltar do trabalho e adivinha o que aconteceu!
- Eu não acabei de falar pra você falar? – disse Berto, rindo.
- Então. Tem uma amiga da minha mãe que, não sei, acho que deu umas drogas lá e, bem, nem sei o que aconteceu, mas ela pôde trocar de período de férias compensadas com a minha mãe, e elas trocaram!
- Trocaram? Já?
- Sim, sim, alguns telefonemas e pronto!
- E quando são os novos dias?
- Amanhã já!
- Amanhã?
- Sim, amanhã sim! SIM! EEEEU VOU PRO RIO DE JANEIROOOOO!!!!! – Berrou Lorde, fazendo os ouvidos de Berto doerem até. Lorde ria e pulava cenicamente na frente da câmera do comunicador.
- Tá, tá, calma! EU NÃO SOU SURDO! – disse ele, mais ou menos na mesma altura.
- Desculpa, não foi a minha in… … Ah, você sabe pô, eu tô muito empolgado, você consegue imaginar?
- Ah, não, não consigo.
- Eu já pensava…
- Tá, mas e aí, vocês já vão amanhã?
- Uhum, estamos arrumando a mala agora. Meu pai chega daqui a pouco e vai receber a notícia.
- Daqui a pouco? Mas e o seu pai, já não tá de férias?
- Sim, mas ele saiu pra praticar jogo.
- Ele vai ficar surpreso pra caramba.
- Sim, bastante! Berto… – Lorde olhou pro lado. Berto ouve um barulho - Tenho que sair agora, minha mãe tá me chamando.
- Tudo bem. Boa sorte no Rio!
- Ooooobrigado, amigo! – A tela ficou preta.
Berto voltou a se deitar e recomeçou a ler o papel digital. Perdeu-se, acabou lendo algum trecho que já tinha lido, e mais outro que não tinha lido ainda… Só de passar os olhos por cima das letras e reconhecê-las o terminal ficava cheio de letras desconexas, palavras estranhas.“Droga”, pensou, “Vou ter que arrumar isso depois”. Ele parou, fechou os olhos e se lembrou onde estava quando parou. Localizou o lugar da página e recomeçou a ler. Então o comunicador tocou de novo, e era Lorde mais uma vez.
“Ai minha senhora…”, murmurou Berto, enquanto apertava, rindo, o comunicador, pra atender a chamada.
- Oi Berto.
- O que é que você quer?
- Está ocupado?
- Sim.
- Poxa amigo, desculpa. Eu não quis atrapalhar você.
- Não quis? Ainda bem! – Berto revirou os olhos, sarcástico.
- Mas é que… Amigo! – ele disse, fazendo uma cara patética, algo muito parecido com um determinado alívio – eu vou ver a Andreah! Você consegue…
- Imaginar? Não, não consigo. Lorde, eu tenho que terminar esse trabalho, eu marquei com o instrutor pra amanhã!
- Ah, é trabalho, é? Desculpa, desculpa… – disse Lorde, sentindo uma ponta de culpa marcada em um rosto sinceramente arrependido – Olha, eu vou sair então.
Berto riu e desligou.
Antes até mesmo de encostar a mão no papel digital, ele pensou no lugar exato da página onde tinha parado a leitura. Droga, onde era? No canto esquerdo inferior… Ou não? Ele esqueceu. Ia ter que ler palavras aleatórias até achar o fio da meada de novo. “Droga, droga, droga!”, pensou. Aproximou lentamente sua mão do papel, com a face do visor voltada pra baixo no lençol da cama, e foi chegando mais perto, e mais perto… Até que tocou de novo.
- Aaaahhh! DROGA! – Berrou Berto com o susto que levou.
Era ele. De novo.
- FALA, Lorde!
- Por que você desligou na minha cara?
Na viagem de Rio Claro até São Paulo, o clima não colaborava com o humor de Lorde. Ele havia acordado maravilhosamente bem com a perspectiva de rever Andreah, mas as nuvens negras estavam por todos os lados, e não tinha razão pra acreditar que haveria sol no Rio de Janeiro.
- Pai, acha que vai ter sol no Rio?
- Não sei filho. Deixa eu conferir…
Lorde se esqueceu que o comunicador possui serviço de previsão de tempo.
- Humm… Chovendo o dia todo. Amanhã vai ser nublado. Sol só após amanhã.
- Ah… Droga. – disse ele, recostando-se no banco e olhando pra frente, inexpressivo.
- Filho, isso não impede a gente de passar na casa da Andreah assim que a gente chegar lá, se você quiser.
- É, é uma boa idéia… – disse Lorde. Nada tirava de sua mente o fato de que ia chover, e pela chuva Lorde reconhecia o único dia de suas férias anteriores em que não viu Andreah. A chuva minava seu humor, pela primeira vez. Ele nunca tinha se importado muito com ela, na maioria das vezes ele até dispensava o contrachuva pra sentir os pingos de água fria caírem nele enquanto corria pelas avenidas, tentando ser mais rápido que as nuvens… Mas daquela vez…
No Rio de Janeiro, a chuva que o trem bala pegou no caminho, a um riff da estação, se mostrou pior e muito violenta; uma tempestade fortíssima fez com que os moradores ativassem os contrachuvas coletivos, que gastavam muita energia elétrica, mas protegiam as casas e pontos importantes da cidade de grandes estragos. Dessa forma, Carolina, Romualdo e Lorde puderam caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro até a casa de Andreah, que ficava a mais ou menos dez minutos da estação, a pé.
Chegando lá, Lorde se identificou para a máquina de recepção, e ela avisou que ninguém estava em casa.
- Viu? Eu disse que deveríamos ter ligado antes – disse Romualdo
- Liga pra eles, meu filho. Veja onde eles estão. – disse Carolina. Depois ela respondeu ao olhar reprovador de Romualdo, sussurrando ludicamente – era pra fazer surpresa, homem!
Lorde acionou o número de Andreah, mas o comunicador disse que ela havia cancelado qualquer chamada.
- O que aconteceu? – perguntou Lorde.
- Bom, parece que ela não quer ser encontrada – observou Carolina.
- Filho, você tem o número dos pais dela?
- Tenho sim, vou ligar pra eles.
Primeiro para a mãe dela.
- A mesma mensagem – disse Lorde, depois de alguns segundos – ela cancelou as chamadas.
- Tenta o pai dela agora.
- Tudo certo… – disse ele, selecionando o contato do pai de Andreah.
Dessa vez, entretanto, a mensagem foi ainda mais estranha.
“O comunicador não existe ou está fisicamente danificado”.
Lorde olhou para os pais, que apenas devolveram a incompreensão.
- Vamos embora filho, amanhã você tenta falar com ela. Não tem mais nada pra fazer, pelo jeito.
Ao som de raios e trovões e muita chuva, embora nenhum desses conseguisse chegar perto deles três, Lorde e os pais foram embora. Lorde ainda deu uma última olhada para a casa de janelas fechadas ao lado de uma casa de bolos, e foi embora ruminando a mensagem eletrônica que começava a deixar Lorde tão curioso quanto receoso. O que aconteceu com Andreah? Por que ela não queria receber chamadas de ninguém? E o comunicador do pai dela, o Antônio, o que houve com ele?
O relógio anelar deixou Lorde preocupado consigo mesmo: já eram oitenta e três minutos e ele não conseguia dormir. Estava muito inquieto; não conseguia imaginar o que estaria havendo com Andreah. Parecia grave, fosse o que fosse. Ainda chovia na cidade, mas o contrachuva coletivo continuava ativado, fazendo o barulho parecer distante. Isso, na verdade, não contribuía para o sono dele; era um barulho irritante.
Alguns minutos mais tarde, o comunicador tocou com estrondo; ainda bem que seus pais dormiam no quarto enquanto ele e seu comunicador estavam na sala; nenhum barulho passa através das paredes bem construídas, e o hotel foi bem construído, afinal. Depois do susto momentâneo, ele nutria as esperanças de que fosse Andreah, embora conhecesse bem aquele toque e uma confusão digital fosse muito difícil de acontecer.
- Oi Berto.
- Oi amigo… Te acordei? – disse Berto, com um sorriso um tanto quanto diabólico e proposital no rosto.
- Não, eu não tava conseguindo dormir.
- Ah! – disse Berto, desfazendo o sorriso e adotando uma incredulidade irritada – Não acredito que eu fiquei acordado até as duas da manhã, esperando encontrar a tua cara toda sonolenta, e você ficou acordado! Droga! Me diz, acordado? Por que, o que é que você tem?
- Insônia. Tá chovendo em Rio Claro?
- Sim, bastante… E aí no Rio?
- Também, mas chovia mais quando a gente chegou.
- Insônia por causa de que?
- Preocupação. Eu e meus pais fomos assim que chegamos na casa da Andreah, mas não tinha ninguém em casa.
- Normal, devem ter saído.
- Naquela chuva? Mesmo com o contrachuva coletivo funcionando era difícil encontrar alguém andando na rua. Mas tem mais. Eu tentei ligar pro comunicador dela e pro da mãe dela, e elas cancelaram as chamadas.
- Vai ver foram fazer alguma coisa importante fora de casa.
- Sim, mas aí vem a parte mais estranha: eu liguei pro comunicador do pai dela e a mensagem eletrônica disse que o comunicador não existia ou estava “fisicamente danificado”.
- Fisicamente danificado?
- Foi o que disseram.
- E o que significa?
- Significa que… Bem, é óbvio, não é, Berto? Tem estragos na parte física do aparelho, dã!
- Tá, essa parte eu entendi, mas o que isso significa com o pai dela, o que aconteceu?
- Sim, eu deveria saber disso? O comunicador está fisicamente danificado, então não consegui falar com ele, dã!
- Tá, tá, chega de dã – disse Berto um pouco chateado - Deve ter quebrado e eles saíram pra arrumar.
- Naquela chuva? E cancelaram as chamadas?
- Foram fazer outras coisas.
- Berto, você considera chances demais.
- E você só vê o lado ruim das coisas.
- Não há lados muito bons pra se olhar!
- Então faça que nem eu, crie alguns! Crie os melhores possíveis!
Lorde respirou fundo e virou os olhos, enquanto Berto sorriu com pretensa confiança pra tornar a cena irritante pra Lorde.
- Pra que eu faria isso, não iria aliviar minha insônia.
- Ficar criando possibilidades me faz dormir mais rápido, sabia? Você devia tentar.
- É o que você vai fazer agora?
- Agora quando?
- Quando sair e for dormir?
- Aham.
- Então tudo certo. Boa noite.
- Boa… - Lorde desligou a comunicação.
Ele foi deitar-se novamente e ficou pensando no que Berto disse. O que de bom poderia ter acontecido a eles? Era a chuva que havia afetado a cabeça de Lorde, sim, devia ser isso. A chuva o deixou irritado com a possibilidade de, logo no primeiro dia da chegada dele ao Rio, não ver Andreah.
Então o comunicador tocou novamente. Dessa vez o coração de Lorde disparou. Ele também conhecia esse toque.
Ele se aproximou correndo do comunicador, mas esperou tocar mais uma vez; sim, sim, aquele nome era um doce nome para ele…
Ele apertou o comunicador e a imagem de Andreah apareceu na tela. O fundo cinzento não lembrava em nada a casa dela; ela estava com o comunicador estranhamente perpendicular em relação ao rosto – o que indicava que ele estava em uma espécie de mesa. O seu rosto estava por entre as mãos, abaixado, e ela parecia tremer de quando em quando… Estava chorando.
- Deah? – é como Lorde se acostumou a chamá-la – O que aconteceu, Deah?
Ela levantou o rosto; seus olhos estavam inchados, provavelmente ficaram assim à base de muito choro; ela olhou em alguma direção abstrata, meio que evitando a câmera do comunicador, e, passando a mão no rosto, começou a falar, com uma voz chorosa, porém controlada.
- Loro… – é por esse apelido pouco aplicável a Lorde, de cabelos castanhos bem escuros, que Andreah o chamava. Se bem que ela o pronunciava com o “o” aberto, não fazendo menção alguma à cor do cabelo – Eu… Eu preciso falar com você…
- Deah… Caramba, por Éris quieta, Onde é que você tá, o que foi que aconteceu?
- Eu tô no crematório… – disse ela, antes de dar uma inspirada profunda e uma expirada complicada, meio que princípio de pranto – Meu pai… Ele… Ele morreu…
Lorde, que já vinha sentindo seu estômago complicado, sentiu agora uma verdadeira pancada. Por um instante achou que ia se desequilibrar; se apoiou na mesa de madeira e apressou-se em sentar na cama. Não reparou, mas manteve o rosto inexpressivo, a boca aberta pelo choque, o tempo todo enquanto movia-se por segurança.
- Mas… Como foi isso Deah, por quê? – disse ele, não muito certo de que essas seriam as palavras certas. Na verdade, momentos depois ele teve a sensação de que foram bem erradas, ainda que o resultado não tivesse sido desastroso.
- Ele… Ele morreu num combate em outro planeta… Morreu há quase um mês… Mas por causa de um… – ela passou a mão no nariz, esperou um pouco… - De um erro de comunicação não conseguimos ser avisadas, mas todo mundo achou que alguém avisou… Então ele chegou ontem e nós… Nós nem sabíamos de nada… – Deah recomeçou a chorar, ela tampou seu rosto com a mão. Ela olhou depois pra câmera do comunicador, com os olhos tristes dela atingindo fundo a alma de Lorde, que não conseguiu dizer mais nada enquanto contemplava um rosto cheio de sofrimento. Ele era capaz de sentir o quanto Andreah estava mal. – Loro, eu… Eu preciso de você, Lorde… Eu sei que você está longe… E me desculpa por ligar assim tarde… Me desculpa, me desculpa Loro, eu não…
- Deah, eu… – ele fazia um esforço pra interrompê-la, mas era necessário. Sua garganta travada, soltando cada palavra com medo de machucá-la, por algum motivo qualquer – Eu estou no Rio. Cheguei hoje.
O rosto dela esboçou um sorriso, mas foi acompanhado de uma lágrima. Ela desviou os olhos do comunicador, a visão do comunicador balançou muito, foi possível identificar um teto igualmente cinza e então a conexão foi desligada…
Lorde ficou olhando para o comunicador, a tela preta em suas mãos, e ele sem saber o que pensar, sem saber o que sentir. Antônio, pai dela, morto? Morto em combate? Isso é muito triste. Lorde lembrou-se de Antônio; ele parecia ser boa pessoa, bom pai. Ele era meio “calado”, mas foi muito amável com Andreah, pelo menos foi o que ele percebeu quando estavam juntos.
Logo depois chegou uma mensagem. Andreah perguntava que hotel era e em qual apartamento estavam hospedados. Lorde respondeu a mensagem, que logo foi replicada - ela estava vindo.
- Mãe, Pai… Mãe…
Carolina foi a primeira a acordar. Com os olhos ainda fechados devido à sonolência de quem acorda às duas e meia da manhã, Carolina tomou um susto com Lorde.
- Meu filho, o que foi?
- Andreah me ligou. Acho que ela está vindo pra cá.
- A essa hora? Essa menina não dorme não é… – inquiriu Romualdo, ainda com o rosto no travesseiro, e as palavras saindo sem muita força.
- O pai dela, ele…
- O que houve?
- Ele…
Lorde não conseguiu fazer soar respeitoso sem que usasse a palavra “faleceu”.
Sempre gostou de brincar com palavras, é verdade, mas nunca gostou de esconder-lhes o significado; mesmo assim, dizer a palavra “morreu”, mesmo sendo tão normal, tão natural, não parecia nada gentil. Andreah não estava ali, nem sua mãe, nem ninguém que realmente sentisse pelo Antônio algo próximo do que as duas sentiam agora, mas mesmo assim Lorde sentia necessidade de demonstrar seu respeito de alguma forma. De qualquer forma que fosse.
Meia-hora depois, passadas as três horas da manhã, os pais de Lorde esperavam junto do filho por Andreah e sua mãe, Aline. Um tarro estava vindo, ao longe, pelos trilhos de supercondutor. Ele parou à frente do hotel, e Andreah saiu. Assim que ele a viu, seu coração não bateu mais forte; isso não mais tomava a dianteira da situação. Agora ele se preocupava em abraçá-la forte e dizer que ele estava ali, pra tudo o que ela precisasse, a qualquer hora, pois veio de tão longe pra vê-la e agora eles estavam juntos de novo… O nervosismo cedeu a um tipo de autodomínio, ainda que danificado pelas emoções de rever Andreah, que durante tanto tempo povoou seus sonhos e suas utopias… Ela, quando o viu se levantando nas escadas, correu para abraçá-lo.
Lorde desceu andando e segurou Andreah quando ela se atirou nos braços dele, chorando desesperadamente. Os punhos dela estavam fechados, cerrados; amarrados firmes ao redor do pescoço dele, ele sentia que dentro dela não havia só tristeza, havia de alguma forma raiva, algum tipo de força por detrás da fragilidade com a qual ela foi acometida. Apesar dessa sensação, o que ficava evidente era mesmo sua fragilidade e sua tristeza.
Lorde apertou-a, e ficou ali eternizando aquele momento… Era bom aquilo, e cuidou de sentir como aquilo era bom… Sentiu-se praticamente um adulto, não importava sua idade, mas servir de apoio para ela numa hora tão difícil fazia-o cheio de si, orgulhoso, dava-o algum tipo de determinação e conforto… Ele sentia-se um verdadeiro ídolo ali, naquele momento, e tudo o mais estava abaixo de si… Abaixo dele e de Andreah, por mais que ela sentisse mais no chão do que ninguém…
Aline passou ao lado dos dois e foi cumprimentar os pais de Lorde, se desculpar pelo incômodo de acordá-los de madrugada… Eles a convidaram para subir ao apartamento deles no hotel, mas ela rejeitou a proposta dizendo que elas dormiriam em casa esta noite.
Andreah se afastou de Lorde, mais controlada, mas ficou segurando as duas mãos dele. Aline disse que já era tarde e precisavam ir; ela assentiu sem reclamações.
- A gente pode se ver amanhã? – perguntou Lorde
- Eu não sei… Minha mãe vai receber amanhã os parentes de meu pai, de Santo Mojo, lá em casa. Acho que vou ter que ficar lá e…
- Aline, se você quiser, ela pode passar o dia com a gente, não tem problema algum – ofereceu Carolina.
- Não, fico agradecida Carolina, mas as irmãs de Antônio virão amanhã como disse Andreah, e iremos até o crematório novamente para um último adeus… Penso que, não sei, se Andreah não quiser ir… Eu apenas pensei que… – e ela se virou para a filha.
- Não mãe, eu vou sim.
- Então eu posso ir com vocês? – perguntou Lorde, voltando-se para a mãe de Andreah e para os próprios pais, sem saber ao certo de que lado a aprovação ou a desaprovação viria.
- Por mim não há problemas querido. Mas temos que verificar se seus pais concor…
- Ah, sim, claro, sem problema algum Aline – disse Romualdo.
- Tudo bem então. Se vocês quiserem poderemos levá-lo em, em nosso tarro ou… Vocês querem levá-lo, há algum problema?
- O que está havendo entre vocês dois, meu filho?
Lorde tomava o café da manhã com extrema sonolência; mal conseguia se concentrar em passar margarina no pão, quanto mais em responder pergunta de tal ordem de complexidade.
- Filho?
- Oi?
- Não ouviu?
- O que é que há entre eu e a Deah?
- Sim, o que é que há? Você gosta dela?
Com os olhos inchados (de sono, diferentemente de Andreah), ele olhou para o seu pão.
- Eu… Eu acho que sim.
O pai dele deu uma risadinha satisfeita. A mãe sorriu enigmaticamente. Tudo bem, nem tão enigmaticamente - possivelmente seu sorriso exibiu satisfação também.
Uma e meia da tarde um tarro mais comprido do que os comuns passou em frente ao hotel. Lorde já estava embaixo, esperando, sentado nas escadas.
O dia nublado não melhorava o humor de Lorde; humor este que nem podia ser melhorado, dadas as circunstâncias. Lorde entrou no tarro e sentou-se em um lugar no banco de frente pra Andreah. Deu boa tarde a todos, onde “todos” incluem Andreah, Aline (administrando o tarro), e prováveis tios e tias dela, 4 destes, ao todo 7 no veículo. Lorde pensou em manter a seriedade, mas ao olhar pro olhar mais sereno e equilibrado de Andreah, pensou que um sorriso não mostraria negligência e desafeto, e sim uma tentativa de dizer “Ei, estou aqui, quero te ver sorrindo mais uma vez…”. Ele sorriu pra ela e ela lhe devolveu um sorriso. Um sorriso tímido, pequeno, é verdade; mas provavelmente é o máximo de felicidade que ela pôde pôr em contraste com sua dor.
Chegaram ao crematório; Um prédio branco mais largo do que alto, com portões de madeira aparentando suntuosidade, guardava os restos mortais do pai de Andreah, e de muitos outros homens e de muitas outras mulheres.
Entraram todos e em alguns minutos estavam todos em uma câmara que possuía apenas uma caixa prateada bem detalhada; ali estavam as cinzas de Antônio.
Andreah estava controlada, mas não parecia se esforçar pra isso. O susto já havia passado e só o que ficou no lugar foi a tristeza que jamais sairia de tal lugar. Os parentes de Antônio deixavam nas imediações da caixa cartas, flores e um dos tios “conversava” com a caixa, e chorava.
Andreah saiu da sala, bruscamente, porém não violentamente. Saiu como se fosse dar um passeio, tomar um ar. Lorde a seguiu.
Ele não sabia aonde ela iria, mas ela não quis ficar sozinha porque viu que Lorde a seguia e esperou por ele pra que andassem juntos, de mãos dadas. Pra onde quer que fossem, estariam sujeitos à predominante escuridão dos corredores do crematório, mas Andreah caminhava para o interior do prédio.
Depois de descerem um nível de escada e andarem por mais alguns corredores, Lorde enfim viu que saíam para um lugar iluminado. Eles saíram do prédio por trás, em um grande bosque murado. O chão do local estava cheio de placas, e por entre elas caminhos de grama artificial e bancos confortáveis. Andreah, sem dizer uma palavra, puxou Lorde pela mão até uma grande árvore que havia ali perto, mais para a ala direita do bosque, que Lorde estava reconhecendo como um cemitério.
- Eu não sabia que esse crematório também era cemitério.
- É, algumas pessoas preferem enterros à moda antiga – respondeu Andreah, parecendo restabelecida, com a sua calma usual pra responder a perguntas simples como estas – Quando estive aqui ontem fiquei bastante tempo aqui… Bem… Chorando. Embaixo daquela árvore.
- É pra lá que a gente vai…? – sutilmente indagou Lorde.
- Estamos indo.
Eles chegaram e se sentaram na sombra da árvore. A grama ao redor dela era natural, mas não havia placa alguma pra indicar qualquer cadáver abaixo deles. Lorde se lembrou de Berto falando sobre células mortas. Sentiu um pouco de repulsa pela grama ao seu redor, mas logo passou.
Lorde encostou suas costas na árvore e colocou as pernas pra frente, posição repetida por Andreah, ao seu lado. Ela encostou-se ao peito dele, ele a abraçou. Ela não dava sinais de que iria chorar novamente, ela parecia calma, apenas com sono. E ele também estava com sono.
Mantendo algum estado de consciência alternativo, Lorde cochilou tendo quase certeza de que ela havia dormido. Mas ela estava acordada.
- Lorde.
Ele não se assustou, mas ele despertou um pouco repentinamente.
- Oi?
- Lembra-se daquilo que a gente prometeu?
Lorde vasculhou sua mente. Ele achou que sabia do que ela estava falando, mas não tinha certeza.
- Sobre… Os cavaleiros discordianos? – perguntou ele. Como não obteve resposta rápida, continuou, cauteloso – quando a gente estava… No CT do Rio, olhando pro…
- Sim, isso – interrompeu-o ela - essa promessa. De a gente se tornar cavaleiros discordianos.
Agora ele estava sendo confrontado com uma coisa que ele tentou evitar pensar, mas sabia que não podia.
- Você sabe que pelo menos por aqui 13 anos é a idade mínima pra um estudo dirigido começar, e se a gente demorar pra se decidir, a carreira de cavaleiro discordiano fica cada vez mais distante. É bom que a gente se decida agora.
Lorde sentiu uma onda de calor novamente. Esse momento era decisivo, mas não menos do que o dia 1 de Burocracia.
Nesse dia, os pré-adolescentes de 13 anos entrariam na idade mínima para o estudo dirigido. Até aquela idade eles visitavam a escola facultativamente, estudando o que quisessem, sob a forma de trabalhos. Escolhiam um assunto que lhes interessava, pesquisavam sobre isso e faziam ou um texto ou algum tipo de apresentação sobre o assunto, sob a tutela de um instrutor especialista no assunto. Geralmente eles tinham idéias para seus trabalhos através dos livros que liam ou de conversas que tinham com outras crianças ou com os pais, parentes, etc; além da curiosidade, que era grande motivadora de estudos.
Entretanto, agora eles já poderiam escolher qual seria a carreira que gostariam de seguir – eles não eram obrigados a continuar com a mesma escolha, mas se já fizessem algum tipo de idéia de que profissão gostariam de exercer, poderiam começar a estudar os requisitos para tal profissão.
No caso dos cavaleiros discordianos, alguém de 21 anos – idade mínima para entrar na SDU (Sociedade Discordiana Universal) – que não tivesse nenhum dos requisitos para a profissão levaria em torno de quinze anos estudando – mas essa conta, tão divulgada pela própria SDU, é uma piada, pois leva em conta todos os requisitos, inclusive operações matemáticas básicas e ler e escrever – o que, obviamente, a gigantesca maioria das pessoas de 21 anos já sabe fazer.
De qualquer modo, decidir-se pela carreira com 13 anos é um passo à frente; em geral, gastava-se nove anos estudando com relativa folga e então com 21 anos o cavaleiro já estaria pronto para fazer os testes e entrar para a SDU.
E agora Lorde se perguntava se gostaria ou não de entrar pra SDU. Mas o problema agora era outro: cumprir sua palavra. Se ele sentisse vocação pela medicina, pela física, até pela culinária, especialidade de seu pai, por exemplo, ele poderia quebrar a promessa mais tranquilamente… Na verdade não, pois o que importa pra Lorde é a quem a promessa foi feita. Isso faz da balança da vontade um instrumento muito escasso em recursos pra pesar direito os dois lados da decisão.
- E então, Lorde, você vai cumprir a promessa?
- E você vai?
- Eu não sei.
Lorde caiu de um abismo, em sua imaginação. Foi a sensação que teve. Ele tentando ganhar tempo, e descobre que logo ela está insegura quanto à promessa que fez.
- Mas você prometeu, Andreah, e eu também!
- Loro, não precisa fazer assim, se sentir obrigado a alguma coisa por mim. Isso foi há um ano. Foi pouco tempo, mas a gente, de algum jeito, cresceu. A gente não precisa cumprir aquela promessa, não dá, não precisa…
- Tudo bem Andreah, desculpa. – Lorde esperou, puxou o ar e disse, resoluto: Mas eu estou disposto a fazer isso!
Ela se virou, séria, sentando-se de frente pra ele.
- Essa frase pede um complemento que não é bom.
- Oi?
- “Estou disposto”… Isso significa que está disposto por… Quem?
- Por você.
- Loro, não! – disse ela, de forma semelhante que disse aquele “não”, no alto da montanha do memorial, da primeira vez que se viram. – Você quer ou não quer ser cavaleiro discordiano, responda por você!
- Sim, mas eu também quero por mim, mas…
- Não quer, Loro, não quer…
- Quer saber, eu quero sim!
Um pouco de silêncio. Lorde quase gritou as palavras, mas não explodiu de raiva nem estava descontrolado. Ele continuou:
- Andreah, ontem, quando eu vi você chorando, eu vi no seu rosto sofrimento, tristeza, raiva, e quando você me abraçou… Eu senti que eu te ajudei, que eu te melhorei, que eu… Eu fiz o melhor que eu pude pra te ver melhor, e eu quero fazer o que estiver ao meu alcance pra acabar com as tristezas.
- Mas Lorde, não é sobre mim…
- Eu sei que não, eu sei que não, ouça! – disse ele, e a partir daqui já estava atirando palavras que surgiam mais do seu impulso do que da sua razão – Tristezas, raivas, são coisas ruins e eu sinto que todos os trabalhos do universo são feitos pra isso, pra tirar as tristezas do mundo. Olha: um médico alivia as pessoas com remédios, cirurgias, com curas… Alguém que cuida da organização de uma cidade quer que ela fique organizada pra que as pessoas sofram menos. Pra todo o lugar onde eu for é isso que eu vou fazer, em qualquer lugar que eu trabalhar, vou fazer as pessoas terem menos sofrimento! Todas as profissões são só “remédios pra gente”, em todo o lugar.
Andreah olhava pra Lorde, compreendendo o que ele queria dizer.
- E eu acho que o que os cavaleiros discordianos fazem é isso. Não é? – Andreah, concordava com ele balançando a cabeça, deixando que ele continuasse - Eles lutam porque o sofrimento existe, mas têm alguns que podiam ser evitados e por causa de idiotice e… E descontrole e… E “fraquezas humanas”… Eles existem, e… O que eles têm a fazer é… Ajudar. E acho isso bom. Não sei de mais nada que eu queira fazer na minha vida, Deah. Juro.
Quando ele terminou de falar, eles aproximaram seus rostos e se beijaram. Lorde estava tremendo de inspiração; ele jamais sonhou com aquela teoria toda, tinha acabado de perceber aquilo, e nem teve tempo de sentir orgulhoso por tudo, pois a felicidade e a sensação do beijo e Andreah lhe subiram a cabeça. Eles se beijaram e continuaram se beijando durante um longo tempo e quando pararam Andreah deitou sua cabeça sobre as pernas de Lorde, e ele ficou lhe acariciando os cabelos durante algum tempo.
- Lorde, se você quiser ser um cavaleiro discordiano…
-… E eu quero…
- Então… Eu quero também.
Eles se olharam e mais uma vez se beijaram… Lorde então se lembrou dos momentos do ano passado e da sua dúvida. Fechou os olhos, sentiu o vento passar por ele e naquele momento ele queria que o tempo parasse… Seria ele capaz de agarrar as barbas do tempo e puxá-lo, amarrá-lo aqui e agora ao chão e impedi-lo de voar? Essa vontade de parar o tempo e ficar ali pra sempre era o que faltava… Agora ele se sentia seguro, e sem medo algum pôde dizer pra Andreah:
- Deah…
- Hum…
- Eu te amo.
Deah beijou-o mais uma vez e disse, passando a mão nos cabelos dele:
- Eu também te amo, Loro.
Alguns minutos depois saíram do cemitério e se encontraram com Aline e os parentes de Antônio. Saíram do Prédio branco e voltaram para o centro do Rio, onde Lorde foi deixado em casa – à porta do Hotel.
Quando Lorde subiu ao apartamento, ele estava vazio; eram três e meia da tarde e seus pais disseram que estariam esperando por ele. Estranho… De qualquer forma, Lorde lembrou-se que esteve num cemitério. Num cemitério e num crematório. Lembrou-se das células mortas… Foi tomar um banho.
Quando Lorde saiu do banheiro, seu comunicador estava tocando. Ele apertou o aparelho e Berto apareceu na tela.
- Oi Lorde, por que você não atendeu o comunicador?
- Eu o deixei em casa.
- Esquecido, você? Onde é que você foi?
- No crematório.
- Onde?
- Crematório.
- Fazer o que lá?
- Acompanhar a Andreah.
- Ih, amigo, acompanhar? Isso está estranho… Fala.
Lorde contou a Berto o que aconteceu, incluindo a parte dos beijos; conversaram mais um pouco e depois desligaram a conexão.
“Quatro e vinte da tarde, onde meus pais foram?”, pensou Lorde. Ele pesquisou em seu comunicador. Chover, não ia. Ia continuar nublado. No outro dia, sol. Se Andreah estivesse disposta, eles poderiam sair… Bom, talvez não fosse bom sair com ela assim, um dia depois de terem ido pela última vez ao crematório, ela podia estar mal. Mas daquela vez ele sorriu e ela… Ela pareceu gostar. Talvez ela esteja esperando pra que ele a ajude a esquecer a história. Talvez estivesse esperando que ele a estimule a não se sentir mal… Não parece óbvio? Mas ele se preocupava com ela e com a dor dela, não queria fazer parecer que tudo já passou e que eles deveriam esquecer a história toda. Mas não deveriam? Ele agora estava confuso.
Então Carolina e Romualdo entraram na porta violentamente, fechando com estrondo e trancando com a senha e com o cartão de segurança.
- Pai? Mãe? Que foi que houve com vocês dois?
- Meu filho, quase fomos seqüestrados! – disse a mãe dele, enquanto o pai, ofegante, iniciava um semblante reprovativo.
- Não exagera Cacá, não é pra tanto, vai as…
- Não exagera? Como assim, não exagera? Você viu…
- Alguém quer me dizer o que foi que aconteceu, de verdade?
Eles contaram a história pra Lorde. Eles foram até o armazém mais próximo, a duas quadras de distância no sentido do interior, buscar algum suco. Então viram que um homem muito jovem, deveria ter vinte, vinte e um anos, os olhava com certa atenção. Logo alguns jovens de idade semelhante se juntaram a ele e, da saída do Armazém e durante uns 20 metros, os seguiam com a mesma atenção.
- E então, o que aconteceu?
- Saímos correndo. Eles vieram correndo atrás, suspeito que um deles tinha uma arma.
- Arma?! – perguntou Lorde, espantando com a história – Mas armas são raríssimas!
- Sim, sabemos, mas ele tinha algo que era muito parecido com uma.
- Podia ser uma réplica falsa Cacá, admita.
- Podia, mas a gente não ia parar pra perguntar, não é, amor? – disse ela, sarcástica – sendo ou não uma arma ela aparentava ser e nós não apostaríamos contra as evidências, sejam elas fortes ou nem tão fortes…
- O que vocês acham que queriam fazer com vocês?
- Seqüestrar, é claro. Já ouvi uma história dessas acontecer em algum lugar da Europa, não me lembro onde. Esses homens jovens assim queriam ser cavaleiros discordianos mas foram rejeitados nos testes. Então acabaram se tornando mercenários, assassinos que vivem fazendo trabalhos menos importantes, mas recebem benefícios em troca de assassinatos.
- Mas o que queriam com vocês?
- Chegar até algum cavaleiro, talvez, porque este viria logo atrás de alguém em seqüestro. Seríamos um meio… Para um fim.
A mãe de Lorde passou a mão pela cabeça, e segurou os cabelos na nuca. Fechou os olhos e respirou fundo. Lorde pensava na situação desses homens e se colocava no lugar deles, não pra ver a situação por outro ângulo, mas por medo de seu futuro: e se ele não entrasse pra SDU, como seria?
- E como foi lá no crematório, filho?
- Nós vamos embora. – falou, subitamente, Carolina.
- Como?
- Nós vamos embora, Romualdo.
Ela se levantou e foi para o quarto. Pôs-se a arrumar as malas rapidamente, contando com o sistema de organização de roupas do próprio hotel, que a ajudou bastante. Dois minutos depois, estava tudo guardado, inclusive as roupas de Lorde.
- Mas mãe, não podemos ir embora!
- Podemos, e vamos! Aqui é muito perigoso filho, devemos voltar agora.
- Carolina, está sendo intransigente.
- E você está perdendo o juízo. Quase fomos seqüestrados, Romualdo, e não vamos perder mais um minuto nessa cidade que não nos quer.
- Existe alguém nessa cidade que quer um de nós, amor.
Carolina olhou fundo nos olhos de Romualdo. O medo em seus olhos encontrou um inimigo à altura: o seu filho.
- Lorde… Você entende, não entende?
- Não, não entendo não, mãe!
- Filho, não se trata de vontade, esse lugar se tornou perigoso!
- Então vamos mudar de Hotel! – berrou Lorde, desesperado – Por favor mãe, não podemos ir embora daqui logo agora!
- É uma solução inteligente, Cacá.
- Vocês dois, parem, agora! – disse Carolina, fazendo-se ouvir pelo ofegante Lorde e pelo controlado Romualdo. – O Rio se tornou perigoso pra nós. Passar por uma situação dessas é um tanto quanto traumático, se querem saber e…
- Traumático? – disse Romualdo, com um tom de voz acentuadamente indignado – O que é que você sabe de traumas? Isso não foi nada Carolina, pára de jogar bomba em tropa de espantalho, mulher!
- Escuta, você não está sentindo o que eu estou sentido! ouviu bem? – Berrou Carolina.
- Por isso mesmo sou exatamente o mais indicado pra dizer o que devemos fazer, e nós vamos FICAR! – Respondeu Romualdo.
Um momento de silêncio e olhares entre Carolina e Romualdo.
- Nós vamos trocar de hotel. Vamos pra Zona Norte da cidade, mais afastada do centro e….
- Nós… Vamos… Embora…
- Carolina…
- Nem tente, Romualdo. Se não vamos nós, vou eu.
E dessa forma, o impasse termina. Com alguns minutos de silêncio e, além disso, palavras caladas, a guerra fria pareceu desenhar como vitoriosa a mãe de Lorde. Sem os melhores argumentos, com o melhor dos trunfos. E no meio da birra por dominação justificada pela última aventura do casal, estava o filho, cujas vontades eram ignoradas, pelo menos pelo medo cego de sua mãe. Ele tentou ligar pra Andreah, mas ela não atendia o comunicador. Ele começou a chorar.
Duas horas depois, na noite do dia 15 de Confusão de 7232, Lorde, Carolina e Romualdo desembarcavam em Rio Claro no último trem do dia. Cansados fisicamente, exaustos psicologicamente, Lorde dormiu como uma pedra, e sonhou com imagens confusas, mas de duas ele se lembrava bem na manhã seguinte: um era uma luz verde a outra uma luz vermelha. As duas dançavam ao redor do memorial BRJ. Símbolo, talvez, dos melhores e dos piores momentos que já viveu em sua vida. Os dois dias que ele jamais esqueceria.
*** Atenção: o texto pode estar obsoleto. Para verificar a última versão disponível, visite o site Era das Conseqüências ***
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Que Éris o tenha Antônio…