*** Atenção: o texto pode estar obsoleto. Para verificar a última versão disponível, visite o site Era das Conseqüências ***

A Era das Conseqüências

Capítulo 8

Foundations

Naquela noite tão bonita e agradável, muitas pessoas passeavam na Praça da Torre Tripla, que ficava em frente ao monumento símbolo da Cidade 2. A “TT” era um grande triângulo formado por três triângulos – cada um formando uma ponta, deixando no meio da formação um espaço vazio na forma de triângulo. Uma das pontas apontava para o norte, e nas faces expostas desse pequeno triângulo que compunha a ponta havia um grande relógio universal e do outro lado um calendário. Do outro lado, na face reta que apontava para o sul, um grande relógio de horário local – adaptado para o planeta. Z-20, por exemplo, possuía um dia inteiro mais curto com uma noite mais curta – um dia tinha 7:37 horas terrestres (o padrão aplicado no universo inteiro; mostrado no relógio que aponta pro norte) e a noite tinha 3 dessas horas.

Embaixo, na Torre Tripla, A Avenida Torre Tripla, ou a TT, como os moradores a chamavam. Era a avenida principal da cidade, cheia de hotéis e restaurantes do lado da torre e no outro a larga praça. Era parte da “cultura de nomes” de uma cidade, de forma que um turista diria “pra chegar até tal lugar, vai pela Avenida Torre Tripla e etc”, mas um local diria “Pega a TT até o ponto 15 e vai pra direita, etc”.

Meia-hora depois, as pessoas já tinham desaparecido, ido dormir a pouca noite que tinham, deixando as ruas às moscas.

Mas naquela noite em especial, e nas duas últimas, a Praça TT nunca ficava totalmente vazia. Quem a visitasse no riff mais vazio da noite veria um homem, com uma suja roupa branca e uma considerável barba, deitado num dos bancos da praça.

Nessa noite, houve dois visitantes, na verdade os piores visitantes que este homem poderia ter pra seus propósitos, porque não eram visitantes comuns; os cavaleiros discordianos Paulo e Kafot faziam uma ronda noturna no centro da cidade, quando viram exatamente o que qualquer um viria: um homem deitado no banco com uma roupa branca muito suja e barba por fazer.

- Ei! EI! – berrou Paulo ao se aproximar dele – Qual é o seu nome, homem?

- Meu nome… – falou Ariadno, meio desorientado – O que vocês querem comigo? …Hein? …

- Queremos conversar, saber por que você está aqui. – disse Kafot.

- Eu não quero conversa! – Resmungou Ariadno.

- Senhor, podemos dar um jeito em você – Kafot tentou aproximar-se.

- SAI DAQUI! – Gritou Ariadno, assustado, indo para a beira do banco.

- Calma senhor, não vamos machucá-lo! – continuou o cavaleiro, se aproximando mais lentamente dele.

Ariadno lançou um último olhar amedrontado para Paulo, sério, e Kafot, parecendo solícito, e fugiu correndo pela praça.

Kafot sentou-se no banco, e Paulo permaneceu de pé.

- Que será que ele tem?

- Não sei. Pode ser aquele doido que fugiu da casa faz uns… Dois dias.

- Hum. Coitado, né? – completou Kafot, olhando para uma sombra difusa desaparecer por entre os caminhos e descaminhos do grande parque.

Ariadno, depois de andar por alguns minutos, sentiu-se cansado e aturdido. Não estava bêbado, mas talvez a fome tivesse um efeito alucinógeno ainda pior. Estava fraco, sua cabeça estourava em dor, e pra todo lugar pra onde olhava via casas ameaçadoras ao invés de acolhedoras. As janelas pareciam grandes olhos, ora tristes, ora nervosos; as portas, bocas abertas em desespero, ou em fome – simpatizou com as casas desconhecidas, ainda que por um momento, companheiras no sentimento tão diverso e imperioso que é a fome.

Ariadno caiu. Encostou-se a uma das casas. Olhou para o nada, sentiu um aperto no coração. A noite fria tornava tudo tão duro, sua vida tão miserável. Sentiu vontade de se matar, ou uma vontade de fugir, uma vontade de acabar com aquilo tudo. Era tudo tão surreal. Por um momento olhou tudo a sua volta e ele de alguma forma não se encaixava ali. Era estranho, era algo que ele jamais havia sentido. Uma tristeza profunda, sem dúvida, mas havia algo a mais.

Ele não tinha saudades. Não tinha imagens pra comparar. Não podia dizer “como a cidade havia mudado”. Ele não tinha crescido naquela cidade. Não tinha morado ali. Não tinha vivido ali. Todas as lembranças de sua vida; todos os seus planos, todas as suas alegrias. Elas pareciam tão distantes agora.

Por que ele fugira? Foi pra que isso que saiu da clínica? Pra se tornar um miserável, pra se tornar um desgraçado, um cachorro? Percebeu-se sem sentimento algum. Apenas um vazio considerável, um puxa-empurra na sua barriga (Antes fome do que um “vazio” filosófico), mas algo inexplicável. Não, não fora pra isso que fugiu de lá. Ele sabia que tinha uma missão. Algo a mais estava reservado para ele, isso ele podia sentir também. Mas sentia-se triste pela falta de objetividade… O que era que ele devia fazer? O que significava aquele pentágono, o símbolo que lhe assaltava a mente todas as noites e muitas vezes todos os dias?

Então ele olhou para o lado e, trazido pelo vento, um pedaço considerável de um papel eletrônico brilhava na rua. O vento trouxe o papel para perto dele.

Ariadno pegou-o na mão antes que ele escapasse novamente. Analisou o papel, um pouco amassado, é verdade, mas vazio, branco, sem senhas. Por que esse papel chegou até ele? O que aquilo significava? Por que isso aconteceu justamente quando ele pedia por um sinal, por algo que lhe mostrasse um caminho? Isso só podia significar uma coisa.

Aquela era sua missão.

Ele deveria fazer algo com aquele papel, mas o quê? O que Éris queria dele, afinal? Éris não queria nada dele. Em nome de Éris ele e seus antigos colegas de profissão viajaram até Z-15 e viveram os piores dias de suas vidas. Éris odiava Ariadno. Isso era FATO!

Não, não, essa Deusa maluca não devia existir. Não. Todos estavam enganados. Sim. Todos estavam errados. Sim. Sim. Há sim algo acima de todos os humanos, mais poderoso que todas as forças do universo, e essa força não poderia ser uma mulher louca. Não, ela não poderia ser a dona do universo, a força por detrás das forças, aquilo que promove tudo, não…

O pentágono, é isso que ele significa, Ariadno. Sim, é claro. O verdadeiro Deus se cansou do mundo se mostrar tão ingrato a ele! Ele, Ariadno, deveria ser o mensageiro de Deus. É claro! Um Deus homem, que iria pôr ordem na bagunça, já que a mulher se mostrou tão incompetente!

Tudo estava límpido como água. Deus é amor, Deus é poder, Deus é infinito poder, sim, é claro, sim, sim… E Deus havia o escolhido para purificar o universo, para mudar a ordem destruída das coisas, para restaurar a fé no verdadeiro senhor que merece cada segundo da vida de cada humano insignificante…

Calma.

Carinho.

Tudo estava branco.

Tudo estava brando.

Uma luz vermelha entrando pela janela.

Ele se levanta e vai ver o que é, não viu nada.

Ele se vira e sangue vaza pelo teto.

Sangue em cima do sofá, sangue em si.

Ele sobe as escadas correndo.

Sobe as escadas correndo, desesperado.

Desespero, medo, frio.

Ele voa, não anda mais.

Um tiro.

Ele sente dor.

Sua mãe e seu pai, sem cabeça, saem do quarto, como zumbis.

Dor de cabeça.

Dor, muita dor.

Ele fecha os olhos, se joga da escada, mas cai.

Não para de cair nunca.

E acorda.

Lorde acorda berrando. Olha, assustado, para o pouco que pode ver no seu quarto escuro. Ele vai se lembrando dos detalhes de seu sonho, e se levanta. Logo vai percebendo outras coisas; sem camisa, estava todo suado. Vai até o banheiro, acende a luz, olha para o rosto assustado, branco como cera, mas nem presta atenção. Automaticamente, passa uma água no rosto e sente uma dor na barriga, que acaba ignorada.

Ele se joga na cama com a cabeça doendo. Um piano toca na sua cabeça algum solo que ele tinha ouvido em algum lugar. Ele não conseguia tirar algumas imagens da sua cabeça; agora as primeiras que vinham era as reais, daquele dia terrível que o fazia ter pesadelos todos os dias. Depois as imaginárias, as terríveis imagens de sonho que ele ainda podia ver ao fechar os olhos.

No começo ele chorava, mas agora só deixava-se sentir o peso no coração. Já tinha chorado tudo que tinha pra chorar.

Ariadno olhava em êxtase para o papel eletrônico, mais amassado do que antes, contendo aquilo que ele chamou de “O Poder de Deus”. Ali ele escrevera, com o dedo, tentando manter a letra mais regular e menos grossa possível, o seguinte:

“Deus é amor. Todos que escolhem Deus escolhem amor. Todos que escolhem Deus recebem amor. Deus é poder. Todos que escolhem Deus são protegidos. Deus é o caminho. Todos que escolhem Deus têm um caminho pra seguir”.

E assim, contemplando o trabalho que tirou seu deturpado sono a noite inteira, dormiu quando o sol já ia subindo no horizonte à sua frente.

Lorde lia alguma coisa quando um barulho conhecido de qualquer cavaleiro discordiano invadiu o grande salão de refeições da SDU. Ele olhou para o nada por alguns instantes; parecia querer lembrar-se de alguma coisa. Então ele deixou o papel na mesa e saiu correndo.

Ao chegar no portão de desembarque da SDU, ele viu apenas o largo corredor com a porta fechada no final.

Lorde esperou, esperou, e esperou mais um pouco. Loucamente impaciente, roendo as unhas – ou quase – ele andava de um lado pro outro, olhando sempre para a porta, aquela maldita porta. Por que será que ele tinha essa idéia implícita de que quanto mais ele olhasse para ela, mais cedo ela abriria?

Até que ele pôde ouvir algo muito parecido com vozes em algum lugar. Ele parou. Apurou os ouvidos. Estava ficando maior, ainda que ele não pudesse reconhecer nada direito…

Então a porta deu um estalo e começou a se abrir, uma parte pra cima e outra pra baixo. Enquanto isso ele se endireitou bem no meio do corredor, uma mão apertando a outra. Nervosamente, ele assistiu Berto e Andreah entrarem no corredor gargalhando, Andreah quase caindo no chão de tanto rir.

Berto, também cambaleante e com dor de barriga de tanto rir, ajudou como pôde Andreah, ajoelhada, a se levantar. Aos poucos a risada foi sumindo, e Berto e Andreah pararam quando viram Lorde, a um metro deles.

Eles pararam de rir aos poucos. Berto, que havia ajudado Andreah a se levantar, ainda segurava a mão dela. Lorde olhou para cada um dos dois alternadamente; ele não sabia o que pensar. Alguns segundos pareciam horas; Lorde consumia-se num ciúme que só fazia crescer, e o fazia assustadoramente. Ele não olhou diretamente, mas viu pela região periférica do seu olhar que Berto ainda segurava a mão dela. Como ele podia? Como ele se atrevia?

A cara fechada de Lorde era misteriosa, mas não o suficiente para ser qualquer outra coisa que não uma cara fechada.

- Oi Lorde! Tudo bem? - disse Berto, ainda com o rosto risonho, deixando de lado a mão de Andreah. “Isso, tira essa sua mão nojenta daí”, pensava ele. Imediatamente depois sentiu-se terrível por pensar assim de seu melhor amigo.

- Tudo sim. - Respirou e tentou sorrir um pouco. - Tudo bem, Andreah?

- Aham, tudo bem. - Falou ela, meio sem graça. Ela se desvencilhou do olhar de Lorde e começou a sair do corredor.

- Como foi a missão? - perguntou Lorde, começando a caminhar lentamente com Berto na mesma direção que ela.

- Difícil, até. O pessoal nesse plateta do inferno não é fácil não.

- Desculpa, que planeta que era?

- P-71. Lorde, você ficou irritado comigo?

- Eu? Imagina, por que ficaria…

- Não mente, cara.

- Sim, fiquei.

- Ô amigo, a gente só tava rindo de umas situações lá no planeta! Não foi nada aquilo, cara!

- Eu sei, eu sei, desculpa.

- Precisava ver a sua cara…

- Droga, eu sei… Devo ter sido um ridículo, né?

- Foi mesmo.

Lorde ficou pensando em quão facilmente ele podia simplesmente agir dessa forma em relação à Berto. Não era ele seu amigo de infância? Ele agiu como um idiota, um grande idiota. Mas não sabia como tinha feito aquilo; de repente o ciúme lhe acometeu e lhe tirou a razão. Mas será que o fato de que ele podia assim simplesmente sentir esse ódio todo quando estava sem vigilância não fazia dele um péssimo amigo?

Lorde, Berto e Andreah sentaram-se no grande refeitório dali a alguns minutos. Lorde tentava se concentrar no texto que estava lendo antes, mas não conseguia tirar os olhos de Andreah, que ia cumprimentar outros amigos de mesa em mesa e contar as novidades da viagem. Teve medo de que no fim ia acabar ficando na mesa de algumas amazonas; ela demorou lá. Mas assim que Berto sentou-se na mesa de Lorde ela veio ao encontro deles.

- Não dá pra ficar 60 dias fora que as coisas mudam totalmente! - disse Andreah, enquanto sentava.

- Ué, você que não quis mandar mensagem pra ninguém.

- Não estou reclamando, eu sei o que eu fiz, Berto – disse ela, reprimindo o modo como a culpa lhe foi afixada – se eu tivesse continuado aqui as coisas teriam mudado em 60 dias do mesmo jeito, só que… Eu não teria percebido tão bruscamente.

Lorde pensou em dizer que a única coisa que não mudou é que ele continuava pensando nela. O tempo todo. Mas ele não teria coragem de ser tão direto. Enquanto Berto e ela começaram uma conversa rápida, ele pensava que em vez disso diria “só eu é que não deixo de pensar em uma certa pessoa…”. Ele demoraria alguns segundos pra dizer isso; se conhecia e sabia que ia tremer de ansiedade e indecisão, e diria isso com a voz mais decidida que poderia simular. Mas, pensou ele, ela provavelmente responderia secamente dizendo que ele só poderia estar pensando na mãe ou no pai dele…

- Só se ele quiser.

- Hã?

- Acorda, Lorde – riu Berto – tá com fome?

- Eu… Ah, não.

- Tá, então esquece Andreah.

- Nah, a gente pede um menor então. Não tem tamanho menor?

- Não sei, eu vou lá perguntar. - e Berto se levantou.

Lorde deixou o texto de lado e ficou olhando um pouco pra Andreah, que retribuiu o olhar. Não era um olhar irritado, nervoso, raivoso; tampouco era um olhar amoroso. Ela se mostrava um pouco impaciente; mas sua alma é que estava irrequieta, seu corpo estava tranqüilo, sereno. Ela aprendeu a conviver com Lorde; embora sentisse que ele queria muito mais do que ela queria lhe oferecer, ela aprendeu a dar a ele apenas a amizade que, julgava, ele merecia. E assim ela controlava o seu olhar, regulava bem a cortina da sua janela, pra deixar passar apenas o que ela queria.

- E pra você, que ficou aqui. Mudou muita coisa?

Nesta hora Lorde pensou em como aquilo tudo era irônico.

- Não mudou nada… - respondeu, enigmático.

E assim eles ficaram, num jogo de olhares que dizia, mas não dizia nada. Se ele era capaz de olhar pra ela sem timidez nem vergonha, era porque já tinha se acostumado a dizer “Eu te amo” pelo olhar, sem precisar dizer nada. Será que ela entendia? Se o fazia, a reposta era sempre “Esquece, Lorde”. De um jeito seco, que fazia o coração de Lorde de alguma forma afundar…

- É, tem sim Andreah – disse Berto, sentando-se de novo à mesa – daqui a pouco fica pronto.

Na Praça da Torre Tripla havia um certo ponto de convergência, em que não haviam pequenas trilhas por entre gigantescas árvores, mas sim um grande lugar a céu aberto, com uma estátua no meio.

Nesse lugar cabiam centenas de pessoas; a estátua foi usada no passado como púlpito para discursos, na época em que ainda se discutia como a cidade seria construída. O povo se juntava no lugar e as deliberações prosseguiam.

Ariadno surgiu, maltrapilho, aos poucos e foi observando algumas dezenas de pessoas que se juntavam ao redor da estátua. O monumento pétreo era um grande retângulo reto, onde as pessoas podiam ficar em pé, só que todas as pontas eram ornadas com figuras humanas que queriam de alguma forma escapar da pedra; os pés estavam fundidos ao retângulo, e o corpo saía da pedra, com os braços apontando para o infinito, as feições tristes, melancólicas. Apenas um parecia alegre e decidido.

Ariadno subiu na estátua. Trazia em sua mão o papel digital e na cara a coragem. Ficou parado, olhando para as pessoas ao seu redor. Aos poucos, alguns começaram a perceber que havia alguém lá em cima. Ele parecia angustiado, amedrontado; alguns segundos depois quase todo mundo estava olhando pra ele, esperando que o discurso começasse.

- Amigos, e amigas, de Z-20! - começou Ariadno – meu nome não interessa! - é costume retórico apresentar-se antes de fazer qualquer discurso, mesmo em uma situação onde o nome da pessoa está implícito – Porque hoje venho até vocês como um mero mensageiro!

Aquilo tudo era novidade para os habitantes, que começaram a se interessar pelo estranho que se “apresentava como mensageiro”. Mas mensageiro de quem?

- Vocês, meus amigos, correm perigo, todos vocês! Correm um perigo eterno!

Não percebendo reação da platéia que não reagiria até receber informação completa, ele prosseguiu.

- Vocês, todos vocês, acreditam num Deus falso!

Uma pequena onda de pequenos comentários começaram a correr pela multidão.

- Essa Deusa que vocês aprenderam a adorar é uma falsidade! Eu recebi uma mensagem divina, e Deus! Sim, meus amigos, ele é um Deus que quer se mostrar para nós! Vocês querem saber qual é a mensagem que ele nos enviou?

A essa altura já havia um grande barulho na praça, mas não era positivo. Ariadno, do alto do palanque de pedra, podia ver muitas cabeças balançando negativamente, muita gente rindo, outras comentando com a testa franzida coisas com pessoas ao lado. Alguns começavam a abandonar a praça.

- Ele! Ele! - Tentava chamar a atenção Ariadno – Ele nos disse! - E com o dedo em riste a multidão se calou para ouvi-lo – Que tudo que ele é e quer de nós é amor! Precisamos amá-lo, e só assim receberemos amor de volta!

Mais uma vez, silêncio. As pessoas esperavam por mais pra criticar.

- Deus é PODER! - E nesta palavra ele berrou. Começou a andar freneticamente de um lado para o outro – Se nós o amarmos, receberemos a proteção total e última em nossa vida! E mais, mais! Todos nós temos um plano! Ele nos faz para seguirmos o nosso caminho! - Novamente os sinais de reprovação – TUDO o que vocês fazem é se divertir e trabalhar, tudo! Vocês saíram do caminho de Deus!

- Vai pro céu com o teu Deus, então! - berrou alguém da multidão, que depois de aprovar a frase começou a gritar em reprovação à manifestação de Ariadno.

Na mesma hora em que Ariadno ia começar a esbravejar contra o povo, Paulo e Kafot, os dois cavaleiros discordianos que haviam tentado falar com ele na noite anterior, reconheceram-no no monumento de pedra e começaram a ir em direção a ele. Ariadno viu os dois e foi para o chão. Começou a abrir caminho por entre a multidão para fugir dos seus dois algozes…

Ele entrou pela janela, a cortina estava aberta e parecia ser a única nessa situação. O sol que raiava não entrava por aquela janela, o que dava à casa pouquíssima luminosidade.

A casa era conservadora. De inspiração triangulista, corrente artística de décadas atrás, os móveis eram monocromáticos.

Ariadno começou a avançar na exploração da área. Olhou dentro do conservador de alimentos, viu alguns quadros na parede.

Os filmes exibidos na parede à primeira vista eram todos de pessoas diferentes, mas não eram. Era a mesma pessoa, mas em várias idades… Uma criança, uma adolescente, uma mulher de uns 25 anos que se parecia bastante com uma que parecia ter 30, e assim por diante. Já que na última foto ela, idosa, observava algum oceano verde-escuro, era de se esperar que a mulher ou estava morta ou estava bem velhinha.

Ele se virou e tomou um pequeno susto ao ver que a velha da foto estava ali, na sua frente.

Ela estava bem pior do que na foto. Andava apoiada num exoesqueleto robótico. Parecia fraca, debilitada, terrivelmente magra; usava roupas que, ainda grossas, não conseguiam dissimular seu corpo esquálido.

Ela levantou o rosto vagarosamente. Seus olhos exprimiam uma tristeza sobrehumana que despertou pena e enfraqueceu os músculos de Ariadno. Ela focalizou suas pupilas no desconhecido, tentando reconhecê-lo, mas não lembrou-se dele, obviamente.

- Quem… Quem é você? - perguntou, com uma voz arrastada, baixa e toda junta, ao mesmo tempo, esforçada, a senhora.

- Meu nome é Ariadno – disse ele, calmamente – desculpe por entrar na sua casa assim, senhora…

- Não, meu filho, imagina… - disse ela, interrompendo-o. Cada palavra dela despertava pena em Ariadno – Você… Pode me ajudar?

Ariadno não pode dizer não.

Saiu cuidadosamente da casa onde ficou escondido e foi até a outra quadra buscar um remédio para a senhora.

Voltou e ajudou-a a tomá-lo.

- Eu tenho um monte de doenças – dizia ela, daquele seu jeito. Ariadno se acomodou em uma poltrona ao lado da cama dela, no quarto escuro e empoeirado. - Esse remédio é um coquetel pra controlar todas elas…

- É triste, minha senhora, é muito triste…

- Não tenha pena de mim – disse ela, um pouco severamente – não gosto nada disso… Aaah, sabe, Arino – ela provavelmente não queria pronunciar Ariadno, era meio complicado pra ela – o que eu queria mesmo era me curar… Completamente, pra poder viajar de novo… Se tem, alguma coisa nessa vida, que eu amo, é viajar… Conhecer lugares novos…

- Minha senhora… - disse Ariadno, aproximando-se dela e falando mais baixo – Eu posso curar a senhora.

Os olhos suplicantes da velhinha, que tinha um cabelo muito branco e ralo, se arregalaram e piscaram algumas vezes; a boca estava semi-aberta e a incredulidade estava evidente em sua expressão facial.

- Você só precisa acreditar no que eu vou te dizer… Éris… Não… Existe…

Os olhos da velha piscaram mais devagar e ela falou, enfim:

- Mas disso, meu filho, eu já sei há muito tempo…

- Não, mas você não entende… Há outro Deus, existe…

- Não, meu filho, não existe nenhum…

- Minha senhora, me escute! Eu prometo a senhora que se a senhora fizer o que eu digo, vai se curar completamente. Eu prometo. Mas a senhora precisa acreditar em mim.

A velhinha olhou com um misto de incredulidade e esperança para Ariadno. Ele, firme em suas convicções; era o desafio, a hora em que Deus se mostraria. Ela arqueava suas sobrancelhas, estava prestes a chorar.

- Não brinque com um velho coração, meu filho. Isso não é direito…

Ariadno tirava o pó do quarto de Uruana enquanto ela tomava banho.

No quarto dela haviam várias imagens de Éris, algumas fotos e algumas filmagens engraçadinhas sobre ela. Ariadno ia tirando uma por uma pra jogar no lixo mais tarde. Ela não precisaria mais dessas nulidades nojentas.

Então um estalo pôde ser ouvido, oriundo da sala. Ariadno largou o dispersador e caminhou até a sala.

Ele deu de cara com uma mulher de uns 40 anos, ruiva, alta e completamente atônita por vê-lo.

- Quem é você? - disse ela, totalmente e abertamente desconfiada.

- Eu estou cuidando da senhora Uruana – disse ele, seríssimo.

- E quem te deixou fazer isso?

- Até onde eu sei, ela própria.

- Ela não precisa dos seus cuidados.

- Não é o que ela acha. E quem é você pra ficar falando isso, posso saber?

- Sou a filha dela – disse ela com ar de autoridade, justificando a preocupação e calando qualquer continuação da parte dele – quero ver minha mãe agora.

- Está tomando banho.

Ariadno e a filha de Uruana ficaram se olhando, solidificando uma relação estranhíssima. Uma mistura de desconfiança, medo, desprezo.

Ela passou ao lado dele e foi ver o quarto de sua mãe. Passou os olhos e viu muita mudança; a roupa de cama trocada; há anos a mãe usava apenas duas, revezando-as, mas sempre aquelas duas, que eram suas preferidas. De repente ela usa uma terceira… A janela aberta; o quarto com cheiro de limpo. Nada de pó fotos e vídeos dos retratos em cima da estante. Aliás, ela notou a ausência das imagens de Éris. Quando Ariadno entrou no quarto e encostou-se à parede, em silêncio, ela perguntou:

- Cadê as fotos de Éris?

- Ela não precisa mais delas.

- Como é que é? - Perguntou ela, com um olhar de incompreensão absoluta.

Entretanto, não houve tempo para responder. Os dois ouviram um gemido vindo do banheiro; de repente o som de alguma coisa batendo no box do banheiro e então caindo alguma outra coisa caindo no chão. Os dois se olharam e compreenderam que alguma coisa grave estava acontecendo.

Ariadno ia abrir a porta mas ela correu e deu um tapa na mão dele; olhou com reprovação para ele por uma fração de segundo e abriu a porta. Soltou um grito ao ver sangue escorrendo pelo ralo do banheiro. Ariadno pôde ver o magérrimo corpo de Uruana caído ao chão. Ela estava morta, disse a filha, depois de verificar pulsação e batimento cardíaco.

Ariadno não sabia o que fazer. Uruana estava morta.

*** Atenção: o texto pode estar obsoleto. Para verificar a última versão disponível, visite o site Era das Conseqüências ***

Tags: , , , ,

Posts relacionados: