Se vocês não escutaram a música “A Festa”, de Ultraje a Rigor, escutem. Principalmente a versão do Acústico MTV, se tiverem a oportunidade, porque é uma música excelente.
Mas o que há de filosófico em sua letra? Justamente a questão da edificação humana. Na música, o personagem central se prepara exaustivamente e cuidadosamente para uma festa… Ele relata que na festa tudo correu bem, mas ele se depara com o desespero ao final dela – e agora? a festa acabou!!!
Essa é, guardadas as proporções, a mesma sensação da morte – há tanta preparação e tanta expectativa para fazer da vida uma vida ideal, mas mesmo assim ela acaba.
Na vida socrática e racional que nossa civilização leva, esperamos pelos resultados de nossas ações, pautadas moralmente e pragmaticamente na edificação absoluta, e temos assim uma continuidade – mas, de qualquer forma, como todos os acontecimentos valiosos, eles acabam, assim como a vida também acaba.
Entretanto, existem diversas conseqüências de uma atitude liberalizada e projetada no aqui e no agora – principalmente na diversão e na emoção dionisíacas. Entre elas, o medo das conseqüências da liberdade (a responsabilidade inerente a ela), e é claro, a perda do poder-sobre.
Quem controla acaba controlado; o medo de controlar a si mesmo e a vontade de controlar aos outros se torna evidente porque, afinal de contas, decidir coisas para a própria vida pode tornar-se agonizante (responsabilidade, alguém…?), e também porque já que o outro é justamente o outro, nós não estamos em seu lugar, e, portanto é aos nossos olhares de máquina de sobrevivência uma peça num tabuleiro – uma visão mecanicista do outro ser humano. Mandar nele torna-se fácil – tudo em nome de um bem maior, de um ideal.
Outra coisa que quero dizer é que toda essa “facilidade” de se viver a vida de forma reta, racional, socrática, etc, etc, etc, se reflete na crença de outra vida. Além de ela ter que existir para justificar logicamente todas as ações racionais de uma vida inteira, ela também serve como esperança, alívio, consolo – uma irrealidade, uma ilusão perigosa.
Não quero cair no mesmo tipo de pensamento marxista, ou seja, não quero dizer que o discordianismo mais dionisíaco só daria certo depois de uma época de profunda conscientização racional, mas penso que antes um bom racional do que um mau racional – não falo sobre o conteúdo do túnel-realidade, mas falo antes de ser um selecionador; abrindo brechas assim em sua própria edificação pra roubar sentimentos, que julga puritanamente serem ruins, indignos, baixos.
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Now playing: Paralamas do Sucesso - Depois da Queda o Coice
via FoxyTunes




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