Conteúdo A Fornalha

  1. A Fornalha

Rev. Peterson Cekemp se aproximou do lugar com certo receio. No início era apenas uma desconfiança, mas aquele lugar o chamava cada vez mais, e foi impossível resistir aos avisos de sua razão para não ir até lá. Mas ele foi.

A trilha que passava por uma floresta muito densa estava acabando. Já estava escuro e era possível ver a fogueira crepitando logo depois da curva.

O Reverendo, de meias, calça moleton e um largo agasalho, aproximou-se do que parecia ser um tipo de pequena reunião - na qual ele era peça importante.

- O Reverendo então chegou - disse solenemente um índio todo pintado de braços cruzados, olhando seriamente para o menino que entrara no lugar. A clareira era pequena, mas não do tipo que causava claustrofobia. No centro, uma pequena fogueira. No lado oposto ao de Cekemp, um tipo de forno industrial grande o suficiente pra colocar uma pessoa dentro. O calor do ambiente vinha muito mais da presença da fornalha do que da fogueira.

Junto ao índio “chefe” haviam outros dois, também mal-encarados, guardando a Fornalha. Parados como soldados reais britânicos, davam ao lugar um tom de ritual indígena que fazia o arrependimento de Cekemp por ter entrado no lugar crescer.

- Cekemp arrependido ter vindo aqui? - Perguntou relativamente amigável o índio.

- Quem é você? Por que é que você perguntou isso bem quando eu tava pensando nisso?

- Cekemp saber. Mim saber o que Cekemp pensa.

- Pensei que os índios hoje em dia tivessem uma compreensão melhor da gramática, tem índio até de celular hoje em dia.

- Cala a boca. Cekemp ser babaca.

Cekemp fitou o índio que continuava num tom, ainda que pejorativo, sereno. Ora ora, acabou de ser ofendido por um nativo do século XXI que desconhece até a conjugação dos verbos da língua portuguesa. Mas, afinal, não podia julgá-lo. Estava num lugar desconhecido e portanto o índio podia nem ser brasileiro!

- O que que é isso tudo? Por que eu vim pra cá?

- Cekemp veio com própria perna.

- Ha, não dá uma de espertinho não…

- Cekemp veio com própria perna. Cekemp arrependido?

Cekemp olhou ao redor. A escuridão estava quase o sufocando. O barulho das chamas chicoteando a atmosfera à frente da Fornalha começava a fazer seus ouvidos coçarem. Algo não estava bem, algo estava deixando-o bem desconfortável. Desejou estar longe dali. Desejou estar em casa, com seu computador e seu dia-a-dia tranquilo.

- Sim.

- Cekemp ser babaca.

- Eu já entendi essa parte.

- Ainda não.

O índio deu um passo. Cekemp deu dois na direção oposta. O índio prosseguiu e o Reverendo discordiano se viu encurralado na clareira, que não parecia tão pequena antes. Ele e seu inimigo em potencial dançavam uma valsa de distância, sem nenhuma música em particular, mas com acordes sem dúvida muito tensos.

- Cekemp… Nome de bosta.

- Eu sei, eu sei…

- Cekemp… Começa hoje transformação.

- Quê?

- Cekemp querer transformação?

- Sim, quer dizer, não. Mudar é bom, mas que tipo de mudança é essa?

- Cekemp precisar transformar. Cekemp transformar hoje.

- Não, não, não precisa ser hoje não, que isso…

- Cekemp, ousado se chamar super-homem discordiano!

Cekemp parou. Estava na frente da Fornalha. Olhou atônito para o índio. Abriu a boca querendo dizer algo, mas não sabia bem como responder à crítica.

- Não foi isso que eu quis dizer, porra! Eu não tava me chamando de super-homem, é que eu tenho um conceito diferente de super-homem que, que… - O Índio estalou os dedos - Não é muito simples de fazer entrar na cabeça porque… Que isso… - Os dois índios se posicionaram atrás, um de cado lado, de Cekemp - Mas é fácil… Não é que… Ei… - Os índios agarraram os braços de Cekemp e tentavam arrastá-lo - EI! ME LARGA! PORRA! SAAAAII!!! - Ele tentou se desvencilhar, mas eles eram muito mais fortes. Ele caiu no chão, se debateu e podia ver o índio olhando-o, superior, o calor apenas deixando o discordiano mais aflito - ME… LAR… ME LAR… - Um dos índios deixou de lado o braço e pegou as pernas de Peterson. Elevaram-no e carregaram-no, à revelia de todo o esforço que Cekemp conseguiu fazer, até a frente da Fornalha.

Cekemp ofegava, o calor insuportável fazendo-o suar como nunca, as lágrimas dos seus olhos manchando o que ele podia ver. Viu uma imagem borrada do índio sem nome chegando perto dele. O barulho e a instantânea maior temperatura denunciavam a abertura da porta da Fornalha. “Não… Isso não…” Pensou Cekemp.

- Cekemp aprender ser super - disse o índio.

- Não… Não… Não foi nada disso, porra… Não… - Os índios preparavam-no para jogá-lo à fornalha - NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOO - E a porta se fechou com força, deixando um malogrado Cekemp aparecer no visor da Fornalha.

O índio chefe olhou uma última vez para a máquina e disse:

- Adeus Cekemp.

(Parte 2)

Tags: , ,

Posts relacionados: