Conteúdo A Fornalha (2)
- A Fornalha - Capítulo 2
- A Fornalha - Capítulo 3
- A Fornalha - Capítulo 4
- A Fornalha - Capítulo 5
- A Fornalha - Capítulo 6
Cekemp ardia de uma forma desumana dentro da fornalha. A chama que causava dor excruciante explodia arrasadoramente milhares de suas células por segundo, invadindo órgãos e fazendo as dores se tornarem mais e mais agudas ao atingirem cada parte do seu corpo. Em pouco tempo o dentro estava se tornando fora, o fora sequer existia agora.
Seu cérebro ardia e tudo o que passava pela sua mente era uma linha de pensamentos, imagens e alguns raros sons, todos desconexos, etéreos, distantes, fugazes. Nenhuma sensação podia substituir a destruição do seu próprio corpo em plena atividade.
Ao olhar para o céu estrelado através do pequeno visor da sua prisão, conseguiu se concentrar por um instante e uma música começou a tocar… Como seu cérebro não teve tempo pra se acostumar à ausência de membros ele ainda sentia a todos - todos com uma dor terrível - e lembrou-se então que estava morrendo. Era o fim.
Era definitivamente o fim. Assim ele morria, de forma dolorosa, indigna, esquisita até. Era assim que ele ia passar para o estágio de não-ser. Na verdade, ele não ia efetivamente “passar”, ele ia ficar pelo caminho. Afinal, “ele” é um conceito que desaparece no não-ser pois se “ele” não existe ele jamais poderia ter a sensação de não-ser. Não poderia ter a sensação de nada. Mesmo aqueles que olham nos olhos da morte sem criancices costumam pensar na morte como um estado infinitamente chato em que não se ouve nada, não se vê nada, não se fala nada… As pessoas esquecem que não existe consciência. É um fim de um jeito que não vai haver retrospectiva, não vai haver reprise no fim de semana, não vai ter do que reclamar, não vai ter como revisar a vida. A não-existência é o cessar absoluto de tudo. Ninguém sequer vai ver os frutos do seu trabalho, tudo aquilo que lutou pra conseguir, tudo vai cair, tudo vai prosseguir, mas de nada poderemos tirar real proveito. Como será que os idosos vivem com isso, com essa realidade dura chegando tão perto?
Cekemp se perguntou o que ele faria se fosse possível prolongar a morte. Será? Será que não a tornaria ainda mais dolorosa quando ela chegasse, ainda que a saúde se mantivesse num corpo de 200 anos? Seria tudo ainda mais sombrio e depressivo. Seria tudo ainda pior.
Cekemp planava em seus devaneios pela última vez, preparando-se para chegar o momento em que os olhos começariam a queimar e ele…
Mas como Cekemp ainda conseguia pensar naquele momento? As labaredas já consumiam quase se pescoço, seu corpo já era cinzas, tudo se tornava cada vez mais um borrão, mas sua consciência se tornava cada vez mais lúcida.
“Se a morte é assim, tô feito!” pensou Cekemp.
Tags: Blog, Ficção, Fornalha




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