Conteúdo A Fornalha (2)
- A Fornalha - Capítulo 2
- A Fornalha - Capítulo 3
- A Fornalha - Capítulo 4
- A Fornalha - Capítulo 5
- A Fornalha - Capítulo 6
Então é assim que acontecia? Que coisa sem graça.
Até o não-ser parecia ser mais interessante que aquilo. Talvez não, mas se a existência pós-morte fosse aquilo, então era chato demais, por Éris.
Cekemp virou cinzas. Completamente. Entretanto, ele continuava… Enxergando. A consciência permanecia, seus pensamentos, mais claros do que nunca. Entretanto, ele ainda conseguia ouvir o estalar do fogo, e conseguia ver o interior da fornalha mais ou menos como em uma cena cinematográfica em que a câmera era largada em algum lugar e o ponto de vista permanecesse ali, imóvel. Era assim que Cekemp pensava ser sua abstrata cabeça: uma câmera largada dentro da velha fornalha.
Antes que sua mente pudesse ser assaltada por dúvidas quanto à veracidade desse estado impossível de ser (e principalmente quanto à sua duração), coisas começaram a surgir das cinzas. O Reverendo não se sentia uma alma, um fantasma ou qualquer coisa do gênero - ele não sentia nada corpóreo, era apenas uma partícula pensante fixa a um ponto qualquer dentro daquele inferno.
Contudo, a sua visão começou a se modificar. Ele sentiu uma coceira - como sentir coceira quando não se possui nada como corpo? Ele sentiu uma coceira no que parecia ser o espaço vazio à sua frente, e não tinha mãos pra coçar - aquilo era ainda mais irritante. A coceira passeria uma bolha surgindo no que poderia ser considerado sua “constituição física” - que agora parecia também tomar forma. Cekemp podia sentir “coisas” aqui e ali, coisas indecifráveis, sensações indescritíveis, coisas que ele jamais tinha sentido antes, coisas únicas que, ele tinha certeza, jamais sentiria novamente. Não é muito comum sobreviver à falta de um corpo, afinal…
Repentinamente ouviu um “flop”. Sua visão mudou: agora estava tudo escuro. “Puta merda, é agora… Não… Não…”. Peterson gostava de viver. Ele via (digo, interpretava…) aquilo como o prelúdio, aquilo que antecede a morte. Afinal, antes ele podia ver, e de repente, chega a escuridão. “Tava bom demais pra ser verdade mesmo”, pensou.
Logo depois um outro “flop”, mais demorado, que se assemelhou a um “floooooooooo’p”, e que fez peterson sentir-se confuso, desnorteado, como se estivesse de cabeiça pra baixo. Agora ele via o “teto” da fornalha e sentia-se corpóreo novamente. Com sua força de vontade instintiva olhou para o chão; uma massa amarelada cobria todo o chão da fornalha, um tipo de gosma esquisita e suja que era imune ao fogo. Cekemp tentou ver de onde aquilo vinha e percebeu que era seu corpo, que aquilo era ele. Sentia-se mesmo formando tudo aquilo. A sensação, apesar do fogaréu todo, era gelada.
Logo sua cabeça (se ele tivesse uma, pensou) encheu-se de coisas. Será que ele teria órgãos? Será que esse era um tipo moderno de decomposição por parte das bactérias, que conseguiriam conservar a consicência (uma hipótese que o fez rir. Por dentro, porque boca ele não parecia ter). Descobriu que a escuridão que ele tinha visto era o seu próprio interior - seus olhos, formados provavelmente a partir daquela coceira inicial, eram duas bolas saltadas de dentro da massa que podiam girar livremente. Peterson podia fazer um loop com os próprios olhos.
Depois de se divertir mais algum tempo com isso, coisas começaram a surgir das cinzas e atravessar a massa, passando por dentro dela. Não como fantasmas, mas como um objeto furando um plástico fino. Cekemp olhou para as “coisas” que, a despeito da lei da gravidade, subiam, e reconheceu algumas.




Reconheceu? Reconheceu o quê? Maldito seja o “continua no próximo post”.
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