Conteúdo A Fornalha (2)
- A Fornalha - Capítulo 2
- A Fornalha - Capítulo 3
- A Fornalha - Capítulo 4
- A Fornalha - Capítulo 5
- A Fornalha - Capítulo 6
A gosma cekempiana estava lá, acuada pelo medo e pela desistência de tudo, num profundo esperar pela noite sem esperança que não havia ainda chegado. Na verdade, a perspectiva desta noite assustava mais do que sua concretização, do que o fato de que ela estava perto ou longe. Ela existia. E isso bastava.
Contudo, outros conceitos voadores começaram a brotar das cinzas. Ele foi os reconhecendo aos poucos.
Quanto mais via aquelas figuras que o convidavam a memórias tão belas, mas seu coração (simbolicamente, já que não vira dentro de seu corpo esquisito nenhum coração) enchia-se de uma emoção, de uma saudade, que faziam sua alma corar e estremecer. Contra os sentimentos despertados por essas lembranças não havia um pingo de remorso, arrependimento, ou dúvida quanto à delícia de estar vivo.
O que foi que pensara? Por que fora pescar lamúrias no mar negro de seus medos? Não havia necessidade; mesmo que ele estivesse preso por tempo indeterminado, ele não mais passaria o resto de seu tempo lamentando-se, amaldiçoando toda sorte de improbabilidades que trouxe o seu eu à vida.
Ao olhar para um dos pensamentos translúcidos, o Reverendo se deparou com uma chave no alto da fornalha. Olhou para toda a extensão da porta e percebeu que ela tinha um buraco por onde era possível colocar uma chave apropriada e… Abrir a porta!
Peterson começou a fazer um esforço: aos poucos conseguiu mobilizar pseudópodes pra sair um pouco do lugar.
Ficou horas tentando. A massa inconsistente que ele havia se tornado demorou até conseguir derrubar a chave no chão da fornalha. Ao tentar formar alguma coisa que pudesse manusear a chave com seu corpo, Peterson acabou encostando em um dos pensamentos voadores, que foi absorvido.
Imediatamente seu “corpo” se encheu de deleite, sentiu um arrepio que o fez sorrir por dentro - simbolicamente, já que não tinha boca nem dentro nem fora… Ou será que tinha.
- Bu - fez esforço para pronunciar. Sentiu algo se mexer - e pôde ouvir o som. - Bu bu bu - tentou novamente. E novamente percebeu que criara uma boca.
Peterson decidiu escapar. Mas primeiro, tinha que decidir o que levaria consigo dali.





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