Bom, então, o que é que eu sou?

Apesar das belas palavras de Nietzsche, não gostava muito do jogo de sombras apolíneo e do “aniquilamento” do indivíduo dionisíacos – não entendia como a liberdade se inseria nesse contexto. No apolíneo, a questão do autoconhecimento… E da moderação… Poderiam até indicar de que certa forma sempre fui muito mais apolíneo do que dionisíaco.

Bom, no quesito artístico, entretanto, eu sempre fui mais dionisíaco. Apesar de belas imagens, não sou atraído tão facilmente por bonitas imagens – apesar de ter particular apreço por ilusões de ótica – e o que mais me atrai são as músicas. Ah, as músicas. Eu sempre achei, e nada nunca me tirou certa razão, que a partir do momento em que você compreende uma música, estuda sua letra, enfim, a partir do momento em que você mapeia ideologicamente a música… Ela perde a graça. Eu sempre pensei dessa forma; meu pai sempre disse: “como é que tu consegues cantar essas coisas se tu nem sabe o que significa?”. Pois é, pra mim, saber o que significa pouco importa. O que importa é o sentimento que a música produz, toda essa grande energia que me faz delirar. Eu amo música; e essa foi, de certa forma, uma coisa que me fez simpatizar por Schopenhauer e, agora mais ainda, por Nietzsche.

Mas, voltando à vida… Sem ser a música, eu sempre fui mais teórico. Procuro compreender o funcionamento do mundo ao nosso redor, isso de maneira não só científica como filosófica também: procuro as provas e as evidências que se separam do puro testemunho para conferir validade a uma suposição, e me orgulho de ser uma das poucas pessoas hoje em dia a procurar pela verdade com a razão limpa dos dejetos religiosos que entulham as mentes dos outros homens teóricos…

Voltando à questão da liberdade, aceito hoje a razão como instrumento da liberdade; mas, no mesmo texto em que afirmo isso, digo que a razão é só um termo guarda-chuva.

Dissecando esse termo guarda-chuva, eu chego a dois conceitos de razão distintos, (conquanto juntos durante a maior parte do tempo), para elogiar um e descartar o outro, inclusive para validar de certa forma as críticas de Nietzsche à racionalidade socrática.

Uma das razões é a capacidade de raciocínio pura: uma que permanece imaculada e que, de certa forma, pode ser reprimida por muito tempo, mas ainda funciona de algum modo, e um dia ela pode vir a aparecer. É uma visão um pouco romântica; essa razão seria justamente a razão que nega tudo o que se chama “realidade” para um indivíduo (o que é realmente pouquíssima coisa), pra ver alguma coisa do ponto de vista mais universal possível, considerando na maioria das vezes a veracidade de tal fato.

Por exemplo, mesmo depois de anos de cristianismo, alguém que de repente tem um insight e se torna agnóstico – eu. Como é que eu, cercado de um cristianismo não exatamente praticante, mas ainda assim bem fundamentado (tinha feito eucaristia) poderia assimilar essa nova visão de mundo? Como um pequeno estímulo, alguma coisa lida aqui ou ali, possa ter despertado toda essa verdade dentro de mim? Essa razão que é ativada de vez em quando foi justamente a arma que combateu a própria outra razão, destruindo minhas noções de realidade e me libertando, como que destruindo minha cela da prisão… Ainda que, no momento, fosse cair em uma apenas um pouquinho maior.

Hoje que sou discordiano, tendo a chamar mitologicamente essa “ativação da razão” como… A Glândula Pineal. O modo como alguém se conecta com Éris e ela debocha de uma dúvida ridícula de tão fácil de ser respondida, e um bom tapa na cara responde afinal qual é a verdade óbvia que estava ali o tempo todo.

Já o segundo tipo de razão é justamente o tipo que forma nossos conceitos, nossas barras e paredes da prisão, nossa visão de mundo ínfima e insignificante que chamamos de “realidade”. Essa razão, como dizem os discordianos estrangeiros, existe de tal forma porque não pode lidar com toda a informação que agora não recebe, ou que já recebeu e teve que descartar… Essa razão não pode prestar atenção em tudo ao mesmo tempo, então faz algumas seleções. E essas seleções incluem também justamente nossos julgamentos morais, estéticos, sociais… Nossos enganos, nossas ilusões, feitos para saciar alguns instintos psicológicos e mesmo nossa imaginação.

Essa razão que tende a unificar a realidade sob uma única verdade (o que Nietzsche detesta), é aquela que ele ataca com todo fervor. E essa razão é justamente a negativa; mesmo porque a análise de tudo o que nos cerca é feito com base nessa realidade e então a estreiteza de mente se mostra uma coisa de fato terrível.

A primeira razão, inclusive, é chamada por Nietzsche, de modo cifrado, de sabedoria intuitiva: no fundo, nós já sabemos de algumas coisas sobre o modo como as coisas funcionam… Nós é que queremos nos enganar. Queremos enganar essa sabedoria natural que fez dos gregos os mestres da tragédia grega, para ele, a melhor das artes.

Agora, portanto, absolvo o discordianismo de qualquer ataque que o bigodudo alemão venha a fazer contra nossa Deusa: o discordianismo é justamente o erisclarecimento da primeira razão! O uso dessa simples ferramenta, a glândula pineal, para explodir a nossa própria mente – e dessa forma, se jogar no dionisíaco e no apolíneo… Porque, afinal de contas, nos dias dominadores de hoje, se jogar no apolíneo e no dionisíaco é um processo ativo, não é nada natural. Segundo ele, aliás, nunca foi um processo natural; pra mim ele quis dizer que uma mistureba generalizada desses três estados domina o homem, quando em sua forma natural. Apenas uma ação intencional transfere o homem para uma esfera, definitivamente.

Mas tem mais…