O que caracteriza a ilusão otimista científica é o fato de que eles procuram saber a “verdadeira verdade” através da razão. Eles não aceitam a sabedoria intuitiva de Apolo e Dioniso; querem de alguma forma explicar tudo o que existe, até mesmo essa sabedoria intuitiva… E se esquecem de entender que entenderiam essa sabedoria se a vivessem.

A grande alegria e felicidade do homem socrático é procurar a verdade; inclusive, o ato de procurar pela verdade é mais recompensante do que a verdade em si; saber que de alguma forma pode confiar no que sabe, seria um tipo de fraqueza do estilo teórico.

Vivendo na verdade, na realidade, o homem poderia ser livre, pois ele poderia, ao entender a realidade, manipulá-la. Pelo menos é assim que funciona na ciência – não significa que o poder da razão se estenda ao metafísico.

Nietzsche, que começa a desenvolver seu amor fati e seu eterno retorno, reclama da vontade manipuladora teórica: ele diz que aceitar a realidade é o importante para a felicidade, pois a razão não pode de forma alguma alcançar o completo controle. Isso, para Nietzsche, é ilusório, e portanto temos de nos contentar com nossa realidade de sentimentos intempestivos e instintivos – e vivê-los… O que nos faria felizes, ainda que diante do medo e da depressão mais profundos.

Para Nietzsche, aliás, a arte era o ato criativo por excelência: enquanto a ciência e o entendimento se preocupavam em manipular e transformar, a arte, no seu instinto apolíneo e dionisíaco, eram responsáveis pela criação. Toda essa profundidade que possui esses dois instintos, ela os salvaguarda da compreensão; se não podemos entendê-los, ficamos à sombra de seus desígnios e podemos agir em direção a eles. Para Nietzsche, a ação pertence justamente ao reino das sombras; quando alguém possui conhecimento, é desencorajado a agir.

Esses últimos parágrafos são de fato terríveis. A liberdade apolínea e dionisíaca seria a liberdade criativa; o verdadeiramente livre artista. Que cria, como alguém que cria uma obra de arte, a sua própria vida. Que a inventa. Isso faz certo sentido; alguém que manipula tem que antes aceitar o material a ser manipulado. A vida apolínea é feita da constante criação de novas escolhas, ao invés de fazer escolhas pré-determinadas.

Valorizando a razão primária; a grande glândula pineal da sabedoria intuitiva, temos ainda uma análise muito mais segura de qualquer proposição. Em primeiro lugar, há a impossibilidade de fazer com que nossos julgamentos acabem fadados a restrições de nossa mentalidade. Com uma maior mentalidade, sem preconceitos, nossos conceitos sobre tudo aquilo que vivenciamos ficam mais ricos por aceitar a verdade discordiana de que toda sentença é (…) em algum sentido (Sri Syadasti).

Eis a liberdade, para o nietzscheano.

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