O que nos faz melhores? É uma pergunta um tanto quanto complexa porque ela imediatamente suscita a questão básica sobre o bem e o mal (O que é o bem e, conseqüentemente, o que significa ser melhor).

Pra todos os efeitos (ou pelo menos para os meus efeitos) bom é tudo aquilo que torna possível a liberdade individual. Ser melhor significaria coisas como sede de saber (sabe como é, saber-é-poder kind of thing), buscar a independência, ter mais consciência acerca de como as pessoas ao redor são afetadas pelos seus atos, ter senso crítico, responsabilidade (faltando esta, liberdade individual não é possível), etc. Olha, não sei se isso resume bem ou sequer resume direito o que eu entendo por “melhor”, mas já é alguma coisa. Você pode concordar comigo ou não; o objetivo deste post não é discutir isso, e talvez ao longo dele você me entenda melhor.

Há um tempo eu levantei um questionamento. Que ler é bom muita gente concorda, e o hábito geralmente é associado a uma melhoria do que se tem por “inteligência” (um conceito por (muitas) vezes errôneo). Mas e se ele for conseqüência dessa inteligência, e não causa?

Me sustento pelo seguinte: todos sabem que arte não é pedra. Eu vejo em uma obra algo que o outro pode não ver. Em muitos casos, as interpretações vão além de detalhes e mudam todo o sentido da coisa. Tem gente que vê machismo e outros tipos de discriminação em Nárnia. Tem gente que vê americanismo no Batman. E o pior, não é só com arte! Existem coisas absurdas como “ciência cristã” e “anarquismo cristão”, uma contradição entre termos!!!!!

O conteúdo de uma idéia que deveria servir pra abrir a mente, quando cai numa mente não preparada, é adaptada pra encaixar numa cabeça pequena. Quem não enxerga o simbolismo de alguns contos bíblicos pode levar tudo a sério, como se tivesse acontecido de verdade. E mesmo quem conhece o simbolismo às vezes acha que é muito bonito obedecer a Deus - matando qualquer um que não siga as regras, eita…

O que eu quero dizer é: informação é informação, e por si só não faz milagre. Depois que alguém adquire “maturidade” ou experiência ou em alguns casos conhecimento mesmo pra determinada idéia / obra, não há dúvida de que a arte é capaz de melhorar a vida de alguém. Mas, sem isso…

Mas se não é a arte que melhora alguém é o que então? Algo que não é tão fácil de subverter: experiência pessoal e, shortly, cultura.

A questão é… A sociedade possui um modo pouco flexível de funcionamento. Adultos, através de repressão e recompensa, são condicionados a aceitar as coisas como são hoje. Entretanto, adultos são adultos, certo? Podemos culpá-los por conhecer a situação e preferir se render a acomodação, não fazendo nada a respeito.

O problema: não são só adultos. Os adultos foram crianças um dia. E essas crianças, certamente nada rígidas e determinadas em suas concepções de mundo, foram corrompidas, modadas pra pensar de um jeito. Adultos não nascem já adultos, tendo a possibilidade de fazer uma escolha. Não, pelo contrário. Um dia elas foram crianças e como tal foram ensinadas a seguir certas regras, fazer certas coisas. Sem conhecimento do que acontece nos bastidores, ou seja, sem um metaconhecimento, não há muito o que fazer sobre o assunto.

E o problema não é só uma educação formal e explícita. O problema é cultural mesmo, uma questão de funcionamento do sistema. Eu já disse por aí em algum lugar (ou se perdeu nas diversas versões rascunhais desse post) que eu considero o sistema capitalista inerentemente ruim, mas não algo como 100% ruim - só tenho pra mim que ele está além dos 51% em ruindade…

Por que? Ora, vejamos, ainda somos animais, certo? Temos uma plataforma de personalidade e imaginação que nos torna meio diferentes, mas não nos separamos do corpo, right? Como todos os animais sujeitos à teoria da evolução, analisemos como funcionam as valorizações…

O que um animal quer é viver o suficiente pra se reproduzir bastante (passar os genes adiante). Certo. Para se reproduzir bastante, viver bem e longamente (ou pelo menos ir longe o suficiente) é necessário, hoje em dia, ter status e dinheiro - não necessariamente nessa ordem.

Mas acontece que para ter dinheiro e status (e também para relacionamentos estáveis como a podridão do casamento, mas isso não é assunto desse post) exatamente o que acontece é um tipo de sacrifício que leva as pessoas a se desenvolverem ainda menos. Existem raros exemplos (se comparados à população total do planeta) de alguma pessoa que foi recompensadas monetariamente e “socialmente”, digamos assim, por querer ser livre, independente, ter suas próprias idéias e maneira de viver.

Dessa forma, existem várias maneiras pelas quais o funcionamento do nosso mundo influencia escolhas e essas escolhas são passadas adiante para a próxima geração através da doutrinação infantil. A arte, o senso crítico, essa independência de pensamento quando chegam a alguém fazem com que ela mude as valorizações que tem desde cedo, ou pode fazer com que relute diante das comodidades da vida atual (e das conseqüências em se pensar diferente). Mas… Também este relutar tem seu preço…

Sem querer ser comunista, mas já sendo: existem dois grupos de pessoas no mundo. Um pequeno e um bem, bem grande. Os que se dão bem e os que se fodem. Os que se dão bem se dão bem por uma gama de fatores, mas antes que façamos um loop para que analisemos a todos, vamos ao básico. Meios de produção, por exemplo. Através da exploração da força de trabalho de alguns, uns enriquecem, e vivem uma vida melhor.

PAUSA IMPORTANTE (ia colocar um asterisco mas é uma parte grande, então…)

Há tempos atrás eu e minha amiga Fátima conversávamos sobre heróis e o anel de Giges. Então ela falou algo como “ninguém pode ter esses poderes de super-herói; nada faz ninguém merecedor de estar acima do bem e do mal. Aí eu perguntei: mas e se a pessoa conquista esse direito? Ela disse que não, nenhum mérito pode justificar que alguém torne-se inerentemente “melhor” que os outros. Mas, pense bem, não é isso que acontece hoje em dia? Buscamos (haha, acabo de pensar, pelo menos os honestos buscam) uma vida de muito trabalho, sacrifício, esforço, para que seja recompensado no final ou mesmo o mais cedo possível com uma melhor qualidade de vida. Isso não é algo necessariamente, oh my god, mau, mesmo porque ele não deseja fazer mal a ninguém, mas essa mentalidade vem da idéia de que o dinheiro é essencial, e ele é o caminho para uma vida boa, para uma vida melhor. Há muita gente vivendo em péssimas condições, mas eles que lutem para conquistar as coisas também, oras! É assim que se pensa. Não querer ser melhor que o outro mas querer desfrutar de certos privilégios que são para poucos; é esse o desejo egoísta generalizado.

FIM DA PAUSA

Mas não são só esses que se dão bem. Veja, por que um jogador de futebol ganha mais do que um professor, que tem uma função muito mais importante? Porque jogos de futebol são uma maneira excelente de distração. São excelentes para desviar a atenção de aspectos “meta” da vida pra que se concentre em detalhes pequenos e insignificantes perto do fato de que a vida vai passando e o trabalhador comum continua sendo explorado. E isso se aplica não apenas ao futebol, mas se aplica à coisas como Igrejas, passando pelas novelas indo até, por que não, os blogs!

O capitalismo é inerentemente ruim porque ele (personalizando apenas para fim de simbologia) olha pra isso e diz “bem, as coisas são assim! O negócio é lutar pra chegar lá!”.

Lutar pra chegar lá? O capitalismo produz meia-dúzia de vencedores pra cada centena de perdedores. “Lutar pra chegar lá” é uma meta egoísta que significa aceitar que o sistema atual faz vítimas à torto e à direito simplesmente porque ele assume que precisa haver gente que se dá (muito) bem e gente que se dá (muito) mal. Então isso é encarado como “normal” porque, afinal, “todos têm chance”. Todos podem chegar. Claro, às custas do fracasso dos outros.

Não que todo mundo que chegue lá necessariamente precisa provocar o fracasso dos outros. Isso não é uma conseqüência pensada, é uma conseqüência natural. O sucesso no capitalismo é um funil, onde um alcança de cada vez, deixando em péssimas condições (os que não estavam no meio, no funil, mais provavelmente esmagados) todos os outros.

Sabemos (putz, nem todos sabemos) que o modo de vida que levamos provoca a destruição literal da vida de milhares (pra ser bonzinho no milhares) de pessoas, mas ao invés de tentarmos modificar isso, arrancar o mal pela raíz, somos impulsionados o tempo todo a buscar justamente ignorar o fato de que os outros vão se dar mal e correr atrás do sucesso. O objetivo é fazer parte do grupo seleto, ou daqueles que distraem ou daqueles que desfrutam, não importa o fato de que seremos nós a explorar os outros.

E o capitalismo não destrói apenas literalmente a vida, mas destrói simbolicamente. You know peeps, coisas que pessoas já falam há muito tempo… Desde Schopenhauer (”o dinheiro é como água do mar…”), passando por Nietzsche (Hum, de repente, “O Estado é o veneno no qual todos se perdem, os bons e os maus…”), voltando mais um pouco pra Bakunin, e, dã, claro, Marx, etc etc. Isso sem falar dos moderninhos, Bob Black, Hakim Bey, até mesmo Douglas Adams se duvidar. A cultura criada com base no consumo, no trabalho, nesse torpor que envolve a vida social e “interior” das pessoas, etc. Isso é um desperdício da vida - para fins práticos. É um modo de gerenciamento de pessoas que se mostrou muito eficaz, mas eficaz pra quem? Certamente não pros indivíduos, tanto os pobres, atormentados pela falta de dinheiro, quanto os ricos, atormentados pelo excesso de dinheiro (Não fosse assim não haveria nenhum filme/livro/obra dito “realista”, que, veja só, retrata tantas e tantas vezes o modo como a vida das pessoas é uma ilusão. E como aquelas pessoas que imaginamos ser tão felizes acabam se mostrando tão miseráveis e frustradas). Frustração. A palavra do… Milênio, século, ou, sei lá, dos últimos tempos pelo menos…

O capitalismo é ruim porque cria essa atmosfera, essa bolha chamada “mundinho” que envolve a todos desde pequenos com seus tentáculos nojentos, e os mantém lá dentro através de distrações. O próprio estímulo ao egoísmo, mais no Brasil ou nos lugares onde impera a lei de Gérson (será mesmo que existem lugares em que isso ocorra tanto menos?*) é em si um tipo de distração. Mas a pior parte é que, quando as pessoas conseguem sair de dentro da bolha e pensar “meta” (não apenas pensar como vou viver, mas por que decido viver dessa forma, por exemplo), existe toda aquela avalanche de estímulos / desestímulos pra que a pessoa “deixe disso” e pare de encher o saco. Cale a boca, encha-a de salgadinhos e cerveja e pronto, tudo vai dar certo.

Quando o senso crítico bate tenta entrar de todo jeito e a pessoa não consegue resistir de jeito nenhum, por mais que outros tentem colocar barreiras na frente da porta, aí a pessoa quer fazer alguma coisa! Ela quer se rebelar, quer mostrar o que viu às pessoas que estão nas cavernas, quer fazer alguma coisa! E aí ela descobre, aos poucos, que o próprio sistema oferece as armas para a “luta” e, sabendo ou não, acaba, ao tentar enfraquecê-los, fortalecendo-o, ajudando, colaborando com ele. Esse loop que faz qualquer revolucionário de bobo é ou não é irritante? (Link interessante sobre o assunto, hehe)

Então temos, é claro, os aspectos bons do capitalismo, uau. Poxa, olha o desenvolvimento científico. Hum, desculpa, deslocar tempo e “recursos” para pesquisa científica é a conseqüência óbvia de uma sociedade que valorize a ciência. Incentivo à ciência não é exclusividade do capitalismo de jeito nenhum. Aliás, seria até melhor que a iniciativa privada não financiasse tanto a ciência - nem ela nem os Estados, porque eles adquirem um certo direito velado que pode, direta ou indiretamente, influenciar no resultado das pesquisas, afinal (Apesar de egos de cientistas fazerem isso bem também, como aconteceu com o caso do asiático lá que havia afirmado uma clonagem humana… Tudo mentira).

Então o fato de que o desenvolvimento é resultado direto da competição, que faz as pessoas se esforçarem mais pelos resultados e tudo o mais. Discutível. Novamente, desenvolvimento de quem? Não há distribuição de renda no capitalismo porque os ricos precisam dos pobres, e de certa forma psicológica bizarra, os pobres precisam dos ricos - lembra-se de que a promessa de ser bem-sucedido é uma bela distração?

Aliás, outro argumento interessante é o de que as pessoas se aperfeiçoam por causa da competição. Bem, o que eu vejo, sinceramente, são pessoas aperfeiçoando sua casca, treinando pra melhorar em detalhes que a competição capitalista seleciona. E isso é uma coisa que desvia a atenção pro aperfeiçoamento em coisas que importam pra vida interior e social da pessoa. Aperfeiçoamento é ir no salão de beleza antes da entrevista de emprego porque gente feia não tem vez nas entrevistas (uma matéria da super sobre isso, aqui vocês encontram, é só procurar…), reclamam os próprios feios… Aperfeiçoamento é aprender a agradar alguém. Aprender a fazer os outros gostarem mais de você… Aperfeiçoamento profissional é algo que ocorre naturalmente quando a pessoa gosta do que faz. A pressão do mercado apenas causa um stress desnecessário para que a pessoa seja mais produtiva, eficiente - i.e faça alguém lucrar mais. Se não for, tem quem esteja disposto a ser. Outra morte simbólica da vida. Você quer mesmo gastar sua vida nessa luta desenfreada pra ser o melhor profissional? Isso supondo que você tenha mesmo uma meta saudável como superação por simples superação, e não uma superação pra não perder o emprego.

É normal que a pessoa queira crescer, se desenvolver, se superar. Esse é um sentimento louvável. Entretanto, será que não é possível que possamos fazer disso uma coisa mais livre, leve, prazeirosa? Será que não conseguiríamos tornar um mundo um ambiente menos hostil e menos manipulativo, um lugar mais aberto, que valorizasse acima de tudo a liberdade de valorização do-que-quer-que-seja do indivíduo? Será que não podemos fazer com que os perdedores sejam apenas perdedores, perdedores de um jogo aqui ou acolá, mas fazendo com que as coisas sejam diferentes**? Se eu quero valorizar uma mansão, tudo bem, mas tenho que batalhar muito pra ter esse direito e, que se estruture isso de forma a não fazer com que alguém precise ficar sem uma moradia pra aguentar os luxos de uns poucos.

Será que não é possível fazer isso? Usar a razão, deixar de lado um pouco o nosso instinto egoísta (que está apenas desenvolvido, mas é tão comum a todos quanto a empatia e o, hum, “fair play”, dadas as devidas condições***) e modificar as coisas para um melhor esquema das coisas? Ver que as coisas não são boas ou, dependendo da opinião, ver que não são tão boas quanto poderiam ou deveriam ser, e preferir se acomodar, olhando impiedosamente para a razão jogada no lixo, é… Triste. É uma escolha, uma opção. Uma opção que, sinceramente, não acho legal.

* Uma pesquisa recente mostra que os ingleses, por exemplo, andam mais mal-educados do que há alguns anos atrás. Incrível, uma pessoa que conheci que voltou de lá faz pouco tempo afirma que eles são um povo evoluidíssimo, que respeita filas e tudo o mais. A pesquisa indicou, até onde me lembro, que os dois maiores problemas dos ingleses é justamente o desrespeito às filas e o hábito de cuspir no chão. Pff…

** Se você fica desempregado, aka é perdedor, a coisa fica feia, afinal se você não tem de onde tirar dinheiro, como vai sobreviver? Não vai né, vai na verdade subsobreviver. Nós temos a declaração universal dos direitos humanos, mas antes daqueles direitos lá, será que todo humano não tem direito a, sei lá, 3 refeições por dia? E não tem também direito a uma moradia decente? Sim porque, uma coisa é dizer que todo ser humano tem direito a uma moradia decente, outra é um mendigo dizer que quer se apropriar de uma casa por causa desse direito. Entende o que quero dizer? É necessário possibilitar mesmo, como um direito inato e inalienável direitos físicos, não apenas aqueles básicos subjetivos.

*** Será que alguém que precisa diariamente usar seu sangue frio e seus meios biológicos de sobrevivência animal pode mesmo se preocupar com filosofias e meios de vida?

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Obs.: Esse post foi escrito há muito tempo, 3 vezes reescrito e no final sua útlima versão fui “unida” com a penúltima. Não sei se ficou muito coeso, etc, o importante foi eu ter dito de uma maneira mais ou menos coerente o que eu queria dizer há muito tempo. Que venham as criticas, espero…

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