Faz tempo que não posto nada no “diário”, aquele projeto de autocrítica que eu chamei de super-homem discordiano - quando tinha uma idéia que hoje abandonei. Entretanto, com freqüência nos últimos dias me pego pensando em mim. Como eu ando ultimamente? É mais ou menos como perguntar a mim mesmo “Como vai você?” no MSN, sabe? Uma coisa bem típica do mensageiro..
Como vou eu? O que eu ando fazendo? Eu acho que me burocratizei um pouquinho pra não enlouquecer. Eu penso que sinto pressa demais, urgência demais, e portanto desejaria ser capaz de acabar as coisas “grandes” a fazer - tipo acabar um livro - num dia só, e ao mesmo tempo me livrar da irritação das pequenas, aquelas que basta pouco pra concluir. Eu deixei de buscar meus objetivos porque os comprimi numa lista de tarefas, e tudo o que faço é concluir tarefas. Ajuda, de certa forma, mas também deixa tudo muito mecânico; meus posts já não “fluem” como antes, ainda quero escrever 2 posts importantes mas não consigo - eu travo.
Por quê? Qual a origem dessa vontade de organização? O meu nêmesis de Amor Fati: falta aceitação.
No final de um episódio de Pushing Daisies, Ned diz “acordamos todos os dias com uma lista de um quilômetro de comprimento com coisas que queremos fazer, mas no fim precisamos de pouco pra sermos felizes”. O que isso significa? Que a vida é assim mesmo: temos vontades, vontades, vontades, e criamos a ilusão de que seremos felizes apenas quando as completarmos. Mas não dá pra fazer tudo que queremos, então nos sentimos frustrados por não viver essa realidade idealizada. Foi o que eu falei aqui; isso não se trata daquilo que pode mudar e tornar tudo melhor, e sim daquilo que não vai mudar; se isso não muda, só nos resta aceitar (né Beraldo?
).
A “tarefização” é só um extremo dessa não-aceitação da vida. E veja, o que acontece é uma má interpretação daquela frase do Ned, só que na versão de negação direta da vida, na forma “precisamos de muito pouco pra viver; fiquemos, pois, só com o que precisamos e deixemos de lado nossas vontades”. Não é isso que ele quer dizer! Significa não depositar nosso potencial de felicidade naquilo que um dia será, e sim no meio usado para atingir esses sonhos. Não significa deixar de sonhar, significa dar menos importância pra concretização do sonho, não como se fosse algo absolutamente necessário. Quando isso acontece (dar importância pra concretização do sonho), é mais ou menos como ficar tão nervoso pra chegar ao destino de uma longa viagem que não se aproveita a viagem em si.
Essa transformação que eu fiz foi, eu penso, um sintoma. E, do lado prático, uma precaução. Houve vezes nos últimos tempos, muito frutíferas, aliás, que me deixei levar e me desliguei dos afazeres em função de uma vontade, que costumava ser escrever um post ou uma grande parte das ficções. Mas depois, quando eu me desprendia da realidade paralela a qual eu me submeti, vi que havia esquecido de fazer coisas que precisava ter feito, ou mesmo que podia ter feito pra “acabar de vez” com alguma tarefa. Por isso usei esses lembretes; pra evitar esquecer, pra me organizar, melhor aproveitar o meu tempo.
Engraçado é que ontem mesmo eu falava com ele* e descobri que pensamos de “jeitos” parecidos. Por exemplo, um dos posts que eu quero escrever é sobre o capitalismo. Agora, depois de escrever tudo isso, algum tipo de entrevistador pergunta, na minha mente “então você admite que quando isso acontece é porque uma pessoa causa isso a si mesma? Não há como culpar o capitalismo?**”. Oh, há sim, e como há. O capitalismo é todo assim. Somos impulsionados para, através do desestímulo / estímulo, essa mediação da vida. O mercado de trabalho exige organização e eficiência! Aluga-se um pedaço de carne pela sua eficiência, e é claro que você quer ser alugado. Além disso, não vamos esquecer do adiantamento do presente e, fundamentalmente, do fato de que, como acaba-se fazendo do nosso presente um negócio frustrante, justifica-se isso pelo futuro - aaahh quando eu tirar férias, eu vou ficar bem, quando eu tiver minha casa própria, vou ser feliz, etc - “A mentira é a necessidade dos fracos para sua conservação”, disse uma vez Nit, e essa mentira, essa ilusão, idealismo, é justamente a necessidade que têm os que não amam o presente. A sociedade atual, however, é justamente enfraquecedora nesse sentido. Não gostou? Não trabalha, então. Ah, não gosta da escola? Então estuda sozinho, já que disse que aprende mais. Mas diga a verdade numa entrevista de emprego, não se esqueça… Não gostou, não vai trabalhar, não vai estudar? É, isso, corte relações com a sua mãe que lhe dará sermões sobre o que você está fazendo com seu futuro. É, senhor Sartre, não é fácil como pode parecer.
Como vou eu, ufa, que desabafo. Como eu me sinto? Sinto-me bem… Sentia-me mais ou menos antes, mas agora estou ligeiramente melhor.
Eu deveria falar sobre outras coisas nesse post. Esse era o plano inicial, pelo menos. Mas acho que isso é só mesmo. Esqueci do resto.
* Esse post foi escrito num caderno, na escola, há uma semana já. Não me lembro mais quem era ‘ele’ (pretendia colocar um link) agora, quando passo a limpo. Mas acho que é o Beraldo.
** Não que eu me exima de culpa, pelo contrário, mas se te oferecem presentes pra gritar AAAHHH, te punem se você não o fizer, e sendo este AAAHHH uma derivação de um instinto humano, eu penso que sim, conscientizar as pessoas é tão necessário quanto fazer os presenteadores e carrascos pararem, se você quer que as pessoas parem de gritar AAAHHH!
Tags: burocracia, capitalismo, cotidiano, diário, mecânico, pensamento, robô, Vida



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