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Capítulo 4
Porcaria
No começo da tarde, Henrique chegou a Grande Nuvem. Logo ele entendeu porque a cidade assim era chamada: o dia estava nublado. Fazia frio lá e ele até sentiu falta do sol quando ele saiu da estrada de árvores e entrou em uma larga avenida, sem árvore alguma.
Nela, poucas pessoas andavam. Mas assim que começou a entrar na cidade e avistar as grandes indústrias e os prédios maiores do que os de Pablo, ele começou a entrar em uma área cheia de gente, a maioria vestindo longos casacos marrons, pretos e brancos; alguns poucos apenas com roupas de couro comuns.
Henrique andou durante muitos minutos pelo o que ele julgava ser o centro da cidade. Então, depois de tantos prédios e fábricas, avistou uma casa em uma esquina. Foi até lá e bateu na porta, mas não havia ninguém.
- Quem é você? – perguntou uma voz feminina atrás de Henrique. Ele se virou, assustado, e viu uma mulher de pele bem clara, aparentando ter uns 30 anos, cabelos lisos, comprimento médio e volume controlado. Sua perna estava engessada, e portanto ela caminhava lentamente. Estava cabisbaixa; parecia triste.
- Meu nome é Henrique. Me desculpe se estou incomodan…
- Incômodo nenhum, menino. Hoje já tive incômodos demais até mesmo pro meu próprio azar. Você não é ladrão não, né? – perguntou ela, olhando pra ele meio que com os olhos de baixo pra cima.
- Não, não, não sou. – apressou-se em responder Henrique – Pode ficar tranqüila.
- Humm, tá. Entra, então – ela pegou a chave e abriu a porta. Os dois entraram.
O visitante olhou para a pequena sala decorada em cinza; sentiu uma antipatia pela simplicidade e sobriedade extrema do local, mas logo sua atenção foi transferida para a dona da casa novamente.
- Então, você queria falar comigo?
- Ah, sim, bem, não é que eu queria falar com você…
- Ah, essa é boa! – Ela deu uma risada de lástima e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e, enquanto a inspecionava com pouco interesse falou – Então por que veio?
- Eu vim porque eu sou um viajante, e não tenho onde ficar – disparou Henrique. A mulher voltou sua atenção para ele agora; seu rosto tentava decifrar o que ele quis dizer…
- Pra isso existem hotéis… – ela disse, olhando de lado pra ele agora, mais desconfiada.
- Eu sei, mas é que eu não tenho dinheiro… – Começou ele.
- Você não fugiu de casa não né seu moleque? – perguntou ela, quase fechando os olhos de tão semicerrados que estavam.
- Não, não! Eu estou viajando pro Norte, pras ilhas do Além-Mar. Eu não tenho família.
- Hum… Sei. – Ela se virou de novo e tirou da geladeira uma garrafa com água. – Não é nessas tais ilhas que dizem que tem aquele mito da sabedoria?
- Sim, é lá mesmo. Eu estou indo pra lá pra… Bem pra isso mesmo.
- Pra que?
- Sabedoria. Achar a sabedoria.
- Há! – Ela riu sarcasticamente, incrédula – Ou você é muito bobo ou é louco mesmo.
Henrique olhou para a sala e para outros lugares da cozinha, enquanto esperava ela continuar. Não sabia mais o que dizer. Então algo lhe ocorreu.
- Escuta, você sabe onde eu posso arranjar dinheiro?
- Trabalhando, garoto. Mas aqui em Pablo você não consegue dinheiro não.
- Por que não?
- Ninguém contrata criança – disse ela, irritando Henrique com o termo usado – nem adolescente, garotinho. Esquece.
- Mas nem pra bic… Pra trabalhos temporários?
- Trabalhos temporários? Escuta, você tá querendo me fazer de palhaça, é?
- Não, senhora, não… Qual é o seu nome? – Falou ele, num tom um pouco mais irritado do que o normal, ele pensou mais tarde.
- Meu nome é Júlia.
- Júlia, eu não tenho dinheiro e não tenho onde ficar, então eu estou pedindo, por favor, pra dormir aqui esta noite. Se você não quiser, eu vou embora, tudo bem? E então, o que você me diz?
Ela olhou seriamente pra ele e, parecendo mais calma depois da quase descarga emocional dele, falou.
- Pode sim, garoto.
- E esse Onório, como ele é?
- Ele é simplesmente maravilhoso… – Disse Júlia, com os olhos brilhando – Ele é um anjo. Aquele olhar dele… Me deixa tão frágil… – Suspirava ela.
- E ele não gosta de você?
- Ah, bem, ele gosta, mas não do jeito como eu gostaria que ele gostasse… – Henrique estava sentado em um sofá, Júlia estava deitada no outro.
Já havia uma hora que conversavam sobre a vida dela. Apesar da casca grossa, formada depois de um péssimo dia, ela era uma pessoa até que agradável. Ela era incrivelmente apaixonada por um homem, o Onório, mas era um amor não-correspondido.
- Hum… Você tentou fi… Fazer alguma coisa quanto a isso?
- Quê? Tá maluco, garoto… – disse ela, num tom de acomodação – Jamais, ele… Ele é tão especial. Eu queria ser especial.
Henrique pensou um pouco.
- Certa vez um homem me disse que o que tornava as pessoas especiais era o fato de elas poderem enfrentar um obstáculo.
Júlia continuou a olhar para suas duas mãos entrelaçadas, pensativa… Então falou baixinho:
- É… É por isso que eu não sou especial. Eu sou uma porcaria…
- Como assim, Júlia, você não vê? Não é assim que agem as pessoas especiais, são como as pessoas agem que… Que as tornam especiais! Isso está nas suas mãos!
- Ah, Henrique, eu… Eu cansei já. Antes eu não me importava mais comigo, eu queria ter controle, sabe? Eu queria ter um corpo perfeito. Queria ser uma pessoa perfeita, daquelas que você nota quando não está por perto…
- Daquelas que ele nota, hein?
- Sim, claro… Mas eu não consegui.
- Mas Júlia…
- Boa noite, garoto… – disse ela, levantando-se para apagar a luz. Henrique já estava cansado, tanto de certas coisas que não entendia nas pessoas desse mundo quanto de suas andanças.
Henrique se perdeu em pensamentos. Por que ela dava tanta atenção assim a esse relacionamento com o tal Onório? Será possível, e o relacionamento dela com ela mesma, o que aconteceu com ele? É como se ela tivesse apostado todas as fichas dela numa única coisa a vida toda. E depois, que importa que essa “batalha” ela tivesse perdido? Sempre há tempo pra fazer de alguém uma pessoa especial.
Então ele adormeceu.
Próximo capitulo: Como Você…?
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