Nietzsche apontava para o fato de que muitos não-cristãos, na época dele, agiam de forma mais cristã do que muitos católicos. No fundo, no fundo, a filosofia dele nunca foi contra Deus – como ele mesmo disse em Ecce Homo, é indigno lutar contra algo menor que si – e sim contra a cultura cristã, os preceitos cristãos.
Essa cena se repete de forma cotidiana no mundo de hoje: muitos não são mais cristãos, mas ainda assim se casam. O casamento, logo ele, que possui características tão cristãs, até mesmo quando não é feito na igreja.
Oh, não, não quero me casar. Mesmo. Não me importam as conseqüências, elas que venham. Não quero me casar.
O casamento sempre foi um bom negócio, e em muitos lugares o é até hoje. Essa situação mudou, claro; mas o que não mudou foi o paradigma social da completude. A idéia maldita e perversa da alma incompleta, que necessita desesperadamente encontrar alguém que a complete.
“Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.”
“Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.” John Lennon
Com a “liberdade” em alta, essa idéia de que encontrar alguém pra vida inteira é essencial, serve pra manter funcionando toda uma indústria casamenteira do mundo moderno – além de agradar os genes que apenas procuram por segurança para se reproduzir. É tolo manter intacto esse conceito – se você nunca refletiu sobre isso, então não é nem conceito, é pré-conceito mesmo.
É claro, é óbvio que há coisas que se fazem à 2 que não se faz à 1 – ou não da mesma forma, se é que me entende – e a solidão não é o que eu defendo (tanto é que a seminovosofia cuida disso). O que eu quero dizer é: pra quê o casamento?
Além do frágil (assim como qualquer outro) conceito, o que me irrita no casamento é o seu aspecto de eternidade. Contando com o tempo de vida humano, que aumentou drasticamente no último século, eternidade é muito tempo.
Os humanos adoram ficar imaginando o futuro – tanto “o amanhã” quanto o “daqui a 100 anos”. O problema é que somos péssimas máquinas de previsão. O futuro será diferente do que pensamos e isso inclui, é claro, os relacionamentos.
Agora, me diga, como posso dizer que amarei alguém pra sempre, se não há certeza nem sobre daqui a um mês? Pode-se argumentar de que a eternização é apenas parte simbólica da celebração. Que não significa nada; e que o casamento em instância civil apenas, permite o divórcio e um novo casamento… Mas há alguns pontos a serem considerados:
1) Isso é a raiz da banalização das promessas, ou é fruto delas?
2) Não é simbólico não. Se fosse, não haveria tantas músicas com letras do tipo “eu pensei que fosse pra seeeeeeempre!!(…)”.
3) É fácil demais se acomodar e se deixar levar pela ilusão – o hábito e a rotina induzem a isso, neste caso.
4) Se eu tenho a possibilidade de casar e descasar quantas vezes eu quiser, por que eu ainda iria querer gastar dinheiro com isso?
5) Fora a questão da individualidade; ao invés de uma cooperação e entendimento levados para o lado concreto dos indivíduos, cria-se um monstro chamado “relação”, um ideal que sobrepõe ambos e destrói a individualidades, de uma maneira raramente democrática, pra dizer o mínimo. Isso é ilustrado muito bem por aquele ditado humorístico: “quando um homem e uma mulher se casam, tornam-se um só. O primeiro desafio é decidir qual dos dois vai assumir esse posto”.
É por essas e outras que admiro meu professor de Inglês. Ele diz: “já cometi esse erro uma vez, agora chega. Pra quê eu iria querer casar de novo?”.




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