A maioria das pessoas que acompanha os jornais deve ter ouvido essa semana o caso da série C do campeonado brasileiro de futebol, onde duas equipes combinaram o resultado da partida para que as duas se classificassem.

O caso é o seguinte: a partida foi entre Marcílio Dias, de Itajaí (cidade de meu pai, Tiago, Carol, etc) e um time do Paraná cujo nome me foge à memória agora (e, nossa, que preguiça de pesquisar). Eles precisam de um empate para que ambos se classificassem para a próxima fase. Resultado? Empate.

Logo depois, na cidade de Toledo (LEMBREI! Era Toledo o nome do time, hehe) um jogador do time paranaense, Rafinha, deu uma entrevista na rádio da cidade local dizendo que eles tinham “combinado antes da partida” “as coisas” …

Bem, eu considero isso absolutamente lastimável, lamentável, e acho que muitas pessoas também. Entretanto, isso gerou uma discussão um tanto quanto desagradável com certas pessoas (não direi o nome) - não pela discussão em si, mas pelo fato de que elas não são discordianas*. I.e defenderam um ponto de vista de fato acreditando em sua validade enquanto “eu estou certo”. E isso não é legal justamente pelo lado que defenderam…

Enfim, pretendo demonstrar de forma mais simples possível como os argumentos por eles defendidos são de validade moral EXTREMAMENTE duvidosa. Vamos a eles.

Tudo começou quando alguém disse “É, mas isso é normal. Se o cara não tivesse falado nada, não ia dar confusão nenhuma…”

Primeiro ponto: Se eu roubo, tudo bem, desde que eu não conto pra ninguém. Pra aproximar o exemplo e retirar um pouco o Ad Absurdum: se eu faço um sorteio com uma turma e combino o resultado com alguém, tudo bem se eu ficar quieto né?

Detalhe prático especial pra pessoa que falou (que não vai ler, mas deixa quieto): se a Nike não admite que o Ronaldinho Gaúcho entrou na seleção por pressão dela em conjunto com a mídia, não tem problema, né?

Segundo ponto: Normal? Depois eu explico melhor o que ele quis dizer com “normal”, mas mesmo assim um contra-argumento PERFEITAMENTE VÁLIDO pra essa afirmação dele, posteriormente destrinchada, é: É VÁLIDO POR QUE TODO MUNDO FAZ?

Nem preciso citar exemplos.

Um outro modo de intepretar essa primeira asserção dele é: “Isso é algo que se faz normalmente, e as pessoas só se escandalizam quando vai pra mídia”.

Bom, podemos ver que o “segundo ponto” ainda se aplica aqui.

Terceiro ponto: A questão é que temos que ele poderia estar criticando o estardalhaço, a “novela” que se construiu acerca da história. Dessa forma ele talvez estivesse atacando a hipocrisia da sociedade ao condenar algo que todos veem fazer e fazem o tempo todo.

Mas, pelo andar da carruagem e o tom da conversa dava pra perceber que não, não se tratava de uma crítica à sociedade. Tratava-se do seguinte: a tal pessoa (as tais) encara o “arranjo” feito entre os dois times uma coisa perfeitamente normal e desejável, afinal eles se aproveitaram de uma regra para que os dois se beneficiassem.

Quarto ponto: Torcedores prejudicados. Eles foram lá para torcer pelo time, por uma vitória, e foram ludibriados por ambos os times com um resultado pré-fabricado. Não só tiveram um teórico prejuízo financeiro como também o fato de que foram enganados é inerentemente desrespeitoso para com eles.

Quinto ponto: Time que dependia de resultados para se classificar não se classificou.

Aqui a discussão foi particularmente interessante porque por parte de um dos distintos cavalheiros do debate foi lançado mais uma falácia triste. Ora, o time não deveria depender de resultados. Para ser classificado, deveria ter “feito a sua parte” e se classificado. Se ele dependia, os outros dois times tinham todo o direito de fazer o que bem entendessem para benefício próprio.

Nananinanão. Falácia, erro de raciocínio de mecanismo simples.

Ora, perceba: a justificativa é, com um empate, as duas se classificavam. Eles apenas se beneficiaram de uma regra para garantir a classificação.

Mas a questão é: a regra diz que duas equipes se classificam. A primeira e a segunda. Portanto, é natural que, nessa situação, com a derrota de uma e a ascenção da outra à primeira posição a equipe se beneficie do resultado para se classificar. É algo que a regra permite, e dizer que o time não tem o direito de se beneficiar dessa regra, mas os outros dois o tem, é ridículo.

Sexto ponto: “é uma estratégia”. Estratégia é algo unilateral. Quando você combina com o adversário o resultado isso é o que o Globo Esporte bem denominou: marmelada.

Eu não sei se vocês conseguem visualizar a diferença: aqui começa o Sétimo ponto, digamos assim. É uma questão de espírito esportivo. Se uma equipe resolve jogar pelo empate e a outra também, temos uma coincidência, um jogo legítimo de estratégias. Entretanto o ideal seria brigar pela vitória mesmo, como se espera de um jogo. Colocar o fim (a classificação) antes do jogo é uma valorização que prefere a praticidade ao espírito esportivo.

Ou seja, da mesma forma que um policial cobra propina porque tem uma família esperando em casa com dificuldades financeiras (colocar o fim prático como mais importante do que a ética policial). Essa, aliás, foi a “justificativa” de Rafinha: “tem pai de família nos dois times”. Certo, a pergunta é: como culpá-lo por isso? Seria a solução a paliativa punição dos envolvidos? Será que ninguém percebe que isso, como atitude, está enfiltrado, não apenas na valorização do dinheiro, como também na valorização doentia da vitória, aristocrática dos resultados (perdendo o status de glória a competição em si, que é o mais legal)? Será que ninguém mais percebe que isso tem em comum a necessidade de, de repente, comprar comida, pagar aluguel, etc? Não seria antes necessário eliminar a necessidade ou valorização estrutural de tais valores pra que quem resolva fazer isso possa realmente ser completamente responsabilizado, pois teve sim muita escolha?

Esse episódio não foi um grande problema. Foi só mais um grande sintoma.

* O que quis dizer foi: se estivéssemos apenas discutindo os lados do problema amigavelmente pra enxergar diversos ângulos, tudo bem…

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