A experimentação e o método científico podem ser ensinados em muitas outras disciplinas além da ciência. Daniel Kunitz é um amigo dos meus tempos de universidade. Passou a vida fazendo um trabalho inovador como professor de ciências sociais nos dois últimos anos do curso secundário. Os alunos querem compreender a Constituição dos Estados Unidos? Podemos lhes dar a tarefa de ler a Constituição, artigo por artigo, e depois discutir em aula, mas, lamentavelmente, isso fará a maioria dos estudantes cair no sono. Ou podemos tentar o método Kunitz: proibimos os alunos de ler a Constituição. Em vez da leitura, determinamos que participem de uma assembléia constituinte, dois para cada estado. Damos informações detalhadas a cada um dos treze grupos sobre os interesses particulares de seu estado e região. A delegação da Carolina do Sul, por exemplo, seria informada da primazia do algodão, da necessidade e da moralidade do tráfico de escravos, do perigo representado pelo Norte industrial, e assim por diante. As treze delegações se reúnem e, com um pouco de ajuda dos professores, mas principalmente por sua própria conta, redigem uma constituição em algumas semanas. Só então lêem a Constituição real. Os estudantes reservaram os poderes de declarar guerra ao presidente. Os delegados de 1787 atribuíram esses poderes ao Congresso. Por quê? Os estudantes libertaram os escravos. A constituição original não o fez. Por quê? Isso requer mais preparação da parte dos professores e mais trabalho da parte dos alunos, mas a experiência é inesquecível. É difícil não pensar que as nações da Terra estariam em melhor forma se todo cidadão passasse por algo semelhante.
Carl Sagan, O Mundo Assombrado Pelos Demônios. P. 368, Companhia de Bolso, 2006.
Este livro de Carl Sagan é fantástico, e ele além de citar Robert Anton Wilson, parece também falar do discordianismo uma hora… Perceba:
Uma opinião acadêmica estranhamente em ascensão, com raízes nos anos 60, sustenta que todas as visões são igualmente arbitrárias e que o “verdadeiro” ou “falso” é uma delusão. Talvez seja uma tentativa de virar o feitiço contra o feiticeiro e atacar os cientistas que argumentam há muito tempo que a crítica literária, a religião, a estética e grande parte da filosofia e da ética são meras opiniões subjetivas, porque não podem ser demonstradas como um teorema da geometria euclidiana, nem passar por um teste experimental.
Robert Anton Wilson (em The New Inquisition: irrational rationalism and the citadel of science [Phoenix, Falcon Press, 1986]), descreve os céticos como a “Nova Inquisição”. Mas, que eu saiba, nenhum cético obriga os outros a crer. Na verdade, na maioria dos documentários e entrevistas na TV, os céticos recebem bem pouca atenção e quase nenhum espaço.
Mas a citação a RAW é só essa, e aquela “corrente dos anos 60”, creio que não seja o discordianismo. Afinal, nunca esteve em “ascensão” e não era acadêmica, até onde sei, corrijam-me se eu estiver errado…
De qualquer forma, o que quis mostrar com a primeira parte do livro que postei aqui é como uma iniciativa diferente de educação é maravilhosa. Seria foda se pudéssemos fazer isso não nas nossas faculdades, mas sim nas nossas escolas, com diversas outras coisas, com diversas outras áreas de estudo. Entretanto, duas realidades são massacrantes:
Primeiro, a realidade da educação brasileira. Nos preocupamos com o vestibular, com as provas de trimestre, com todo o conhecimento inútil que temos que decorar, só pra vomitar depois à tinta de caneta respostas mais ou menos lugar-comum. Isso tudo sob o pretexto de que é cultura, e de que cultura nunca é demais…
Isso tudo aliado ao modo como aprendemos: teoria, disciplina, mecanicismo. Até no laboratório, suposta prática, não escapamos das avaliações que só fazem pressão pra fazer bem o suficiente, não pra aprender. Fora que aprendemos o produto do conhecimento: não temos acesso ao modo como esse conhecimento foi adquirido, ou pelo menos esse não é o foco. Se fosse, aposto como seria cobrado em prova… Pff, será que é tão difícil de entender que essa é justamente uma das piores coisas?
Segundo, a cultura brasileira. Uma série de fatores que levam as crianças e os adolescentes a detestarem a educação e o conhecimento (porque só conhecem o lado enfadonho dele).
Quer que eu te conte o que aconteceria se uma experiência como essa, “proposta” no livro de Sagan, fosse realizada na minha sala de aula? Eu te conto o que aconteceria.
Primeiro, alguns elogiariam… Outros achariam chato, alguns achariam inútil. A maioria não entenderia ou o funcionamento do jogo (“Como é que é pra fazer mesmo, professooor? Não entendi!!” Isso, provavelmente, dias depois de ter começado o jogo) ou o propósito dele, e ocorreriam brincadeiras, o que é normal… Exceto pela parte de que as brincadeiras seriam aquelas de mau gosto, também normais porém extremamente idiotas, que só colaborariam para mostrar como o jogo está sendo “entendido” por aqueles que brincam o tempo todo de forma desagradável: não está sendo entendido. Tímidos, em geral, apenas uns poucos corajosos se arriscariam a dar opiniões mais ousadas ou a entrar no “espírito” do jogo. Terminando, as pessoas repetem seus padrões mecânicos pra fingir que têm opinião, e assim garantem a nota. Os outros que participaram mais ganham nota maior.
Os professores provavelmente tentariam ensinar conteúdo inútil durante as etapas de tal experiência, pra poder cobrar em prova. O pessoal, no fim das contas, gosta porque saiu um pouco do comum – é incrível como todos adoram não ter aula normal. Apenas alguns mais preocupados com o vestibular, por exemplo, reclamariam que não estão aprendendo nada útil…
Mudar a educação para algo que verdadeiramente ensine é um desafio bilateral: mudar a cultura dos pais, pra que eles criem seus filhos de maneira diferente, é um bom caminho para mudar a educação do jeito como é. Não adianta apenas mudar a educação; os pais não deixariam, o governo não deixaria e os adolescentes não gostariam. No futuro, adultos podem vir a serem mais críticos – e o círculo vicioso evolutivo não vai mais ser interrompido.
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Now playing: Justin Timberlake - Summer Love
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