Venho aqui falar em nome da ciência contra os ataques do livro “A Origem da Tragédia” – porque, afinal de contas, pode parecer que a ciência é atacada neste livro, quando na verdade, não é. Ou será que é?

Quando Nietzsche ataca o tipo de homem teórico, socrático, o espírito científico – ele se refere à esfera conceitual. O tipo teórico é aquele que busca na lógica e na razão as respostas e os guias para sua vida, para seus princípios, enfim. Inclusive essa atenção à sanidade, ao normal, ao comum – e a vontade padronizadora e que torna a vida menos espontânea e mais fria.

É isso que Nietzsche ataca, não necessariamente a ciência, enquanto conhecimento humano organizado… Pra chegar até esse conhecimento, a lógica e a razão foram empregados – mas enquanto armas para reconhecer a realidade empírica, não deixam de ser úteis e, aliás, serem o único modo para a compreensão de como o mundo funciona de verdade – a busca pela verdade empírica não é a mesma coisa que a busca pelas verdades filosóficas.

A ciência que busca pela verdade empírica sabe que não há como “criar”, como quer Nietzsche no plano conceitual. Há liberdade na ação de viver, mas nenhuma na vida material. Dessa forma, o homem entende que só resta a ele uma escolha na realidade material: compreendê-la e manipulá-la para tornar a sua vida melhor – ou mesmo para defender a si mesmo.

Se compararmos os humanos a outros animais não domésticos, perdemos feio numa batalha corpo-a-corpo. Nossa razão foi aprimorada e por isso temos que nos virar com ela pra sobreviver – construindo armas, remédios e moradias que nos protegem não só de inimigos naturais como também de doenças e etc. Não temos outra escolha senão apostar no método científico da segunda razão para sobreviver e viver melhor, conquanto essa tal razão seja prejudicial ao exercício da vida.

Mas então, entra a única possível crítica nietzscheana à ciência que ajuda a melhorar a vida das pessoas: seu amor fati pode acabar sugerindo uma total resignação ao tipo de doença e seqüela que faz mal a alguém. Seria melhor pra uma pessoa se entregar à própria cegueira, e amar seu destino enquanto cego, ou deixar que a ciência opere seu olho, faça um transplante ou use de um artifício (que eu desconheço, por isso coloquei esses dois exemplos que podem acabar se transformando numa bobagem…) para lhe trazer de volta a visão?

Marcado como “Quando Fui Outro”. Possível contradição.

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