Interpretações

O discordianismo, como discordiano que é, não tem uma só interpretação. Na minha humilde opinião, estão entre as melhores as mais literais, que dizem que realmente não há, em lugar algum, nenhuma “verdade”, e as mais espiritualistas, transcendentais e geralmente orientais que pensam que o discordianismo quis dizer que quando transferimos nossos sentimentos para as palavras e para a lógica racional extraímos sua essência. Ou seja, nesse modelo o que pega mesmo é a gramática. Podemos sempre inventar um outro jeito de interpretar uma frase, mas temos que fazer uma verdadeira ginástica pra falsificar um sentimento, ou interpretar de outra maneira um olhar sugestivo, coisas que não se transmitem em palavras, apenas em imagens, sensações, sons, sabores, cheiros…

De qualquer jeito que se possa visualizá-lo, não há nenhum mais correto que o outro, diz a própria lei… Mas ainda assim vivemos sob uma realidade. Mesmo que tenhamos a disposição de encarar a realidade da forma mais cética possível, ainda temos uma realidade, escolhemos uma ou ainda nos impõem uma, ainda temos um mínimo de chão para nos apoiar. Ora, você escova os dentes porque acredita que isso fará bem pra você. Indo para uma coisa um pouco menos subjetiva, você bebe coisas do jeito como você bebe coisas (levando o copo até a boca e virando-o pra baixo até que o líquido caia) porque acredita que é assim que as coisas funcionam.

Aí chegamos no núcleo da questão: por que você acredita em alguma coisa e não em outra?

Nutshell

Bom, há três valores que podemos anexar à toda idéia para que a incorporemos à nossa realidade (eu nunca li Robert A. Wilson, mas acho que ele usava o termo “túnel-realidade”, que é particularmente bom). Um é o valor verdade; incorporamos algo à nossa percepção de realidade porque pensamos que ela é verdadeira. A segunda é o valor prazer; nossos instintos que se assemelham muito com acomodação e que procuram sempre a sensação do prazer – ou seja, incorporamos à nossa realidade algumas coisas que nos são confortáveis. A terceira é o valor utilidade, e entenda-se por utilidade aquilo que consideramos que nos fará melhores, ou que nos levará a uma melhor situação ou nos trará melhor futuro – ou seja, é justamente aquilo que nos proporciona uma condição melhor, seja ela relativa a qualquer aspecto da vida.

É claro que a caoticidade aqui se insere de forma clara. Alguém pode acreditar em algo falso por uma questão de comodismo ou utilidade; ou pode acreditar em algo falso, não-prazeroso e inútil se isso de alguma forma ainda for cômodo ou útil (quem sabe pra outra pessoa?) e por aí vai.

De qualquer forma que se estabeleçam as verdades de alguém, o que é o que o discordianismo tem a oferecer? Digamos que um elevado grau de ceticismo.

Podemos dizer que o modo como nossa mente está estruturada para funcionar segue determinados padrões de aprendizado e “absorção de realidade”. Na verdade a cada parágrafo que escrevo pareço estar me sedimentando mais, fugindo cada vez mais do discordianismo, mas vocês verão que mantive as coisas o mais simples o possível – e não disse que essa simplicidade não é frágil…

Bom, esses tais padrões de aprendizado basicamente significa absorver o que está à volta. Fazemos isso quando bebês, quando crianças, e continuamos fazendo isso a vida toda. É claro que um grande número de informação também indica grande número de contradições, não apenas no valor verdade da idéia como também no seu “grau de conforto” ou mesmo no seu “grau de utilidade”. Ainda que cortemos vários galhos de nossa árvore de informação ainda sobra um tronco que deixamos inquestionado – aliás, mesmo o que cortamos o fazemos muitas vezes mais como uma atitude automática do que como algo pensado mesmo.

O valor verdade aceito pra cada idéia nem sempre também vem de uma verdadeira inspeção da idéia. Muitas vezes botamos na idéia uma roupa de verdade porque essa roupa nos foi entregue por nossos pais, nossos chefes, nossos professores, um apresentador de televisão, um padre, um cientista…
Algumas pessoas dizem: melhor seria não saber… Bem, quando você não sabe, quando você ignora, você realmente se abstrai da realidade e passa a viver num mundo de emoções – essas incluindo também o medo, vale lembrar – mas você não tem liberdade. Você se prende a essa realidade. É realmente uma vida muito emocionante. Mas escrava. Valerá à pena?

Por outro lado, temos o ceticismo e a auto-crítica, que nos permite avaliar se realmente algo é verdade, se é útil para nós nos manter no conforto – ou mesmo se aquilo que nos mantém no conforto é verdade. Isso nos liberta; com certeza o conhecimento da realidade nos retira de um mundo de fantasia em que tínhamos algum controle, ainda que muito restrito, e passamos a perceber que a vida é mais difícil do que parece, mais complicada do que parece.

O discordianismo é tomar um passo adiante no ceticismo. O que o erisianismo oferece é poder, no sentido de possibilidade, de liberdade; é a possibilidade que se tem de moldar a própria realidade. Como já pensava Sartre, reconhecer que não existe uma verdade rígida, inflexível, cogniscível, apenas resultaria em uma vida vazia, pois você estaria no centro e o escopo de possibilidades se estenderia para todos os lados – e caminhos não são feitos de círculos cada vez mais largos, mas sim de linhas retas. Para trilhar um caminho, é preciso tomar alguma realidade como base. Portanto, não é que você vá viver sem verdades; é que você pode escolhê-las. Ter a possibilidade de; poder fazer algo.
Podemos definir aí não necessariamente uma divisão mas uma certa tendência que uma pessoa pode ter para com um aspecto de sua vida. Uma tendência conformista, idealista, que busca os sentimentos (subordinando a razão a eles) e outra racional, realista, que pretende subordinar os sentimentos ao controle. Continuando na constatação do óbvio, a realidade nunca é arrumadinha como pode parecer a alguns, então podemos viver alguns aspectos de nossa vida de forma racional e outros de forma mais emocional; e é possível desenhar tantos e tantos e tanto cenários envolvendo várias contradições e conflitos entre várias atitudes na nossa vida.

De qualquer forma, o que isso tudo tem a ver com a Civ 2.0? Essa é uma introdução filosófica necessária para que se leiam todos os outros textos que concernem ao projeto Civ 2.0. É necessário porque é daqui que partimos pra algumas idéias derivadas.

“That’s it in a nutshell”, diria Ned, personagem da série Pushing Daisies. Acho que introduzi o fundamental pensamento do discordianismo: liberdade irrestrita de pensamento. A partir de algumas suposições básicas, vamos derivar outras.

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