Depois de passarmos pela filosofia que originou todo um pensamento pela liberdade e pelas idéias básicas de uma nova sociedade baseada no indivíduo, vamos verificar o modelo de organização social que seria adotado por essas novas comunidades.
Lutar pela independência da comunidade, como o anarquismo arcaico o fez, é uma coisa muito interessante. Não mais oprimidos pela igreja, nem pelo capitalismo, nem por nada. Mas o que faz do homem um ser especial é a sua capacidade de vencer seus instintos e usar a razão… “Para o bem!”, completaria um anarquista arcaico.
Este anarquista olha para uma possível sociedade como o reino da perfeição. Não haveria competição, apenas cooperação. Todos celebrariam felizes a dádiva de viver enquanto exerciam tarefas úteis para a comunidade. Etcetera, e etcetera.
Isso é, sendo raso na análise (porque poderíamos achar outros argumentos contra uma sociedade assim) uma supressão do valor individual em função de um ideal: todos trabalhariam para um ideal, agiriam de acordo com uma idéia com o fim de preservar e fazer cumprir esse ideal. É o indivíduo servindo o grupo, com a diferença de que agora ninguém em particular se beneficia disso. É apenas um modo de encarar a realidade social como um “must-be”, como se houvesse um jeito “certo” de organizar a sociedade que pudesse providenciar a todos a liberdade…
Mas se alguém não quiser viver daquele jeito, não pode.
E chegamos à contradição; dessa forma, acabamos escolhendo uma suposta liberdade geral, abstrata, justificamos sua implantação e a sua soberania sobre a independência dos indivíduos por seu suposto “valor verdade” - isso tudo é um tanto quanto errôneo. Não sou o primeiro a propor esse olhar, sem dúvida alguma, portanto não interpretem a frase a seguir como pretensa inovação. Mas, já é hora de olhar para uma nova direção.
Tendo eu introduzido a vocês o pensamento de que o modo como a sociedade é organizada deveria suportar uma ação individualista, ou seja, deveria ser estruturada para poder funcionar dessa forma, comecemos por aqui. Na verdade, a sociedade deveria ser estruturada para funcionar de ambas as formas. E, para isso, temos que antes nos basear na ação individualista, pois se tivermos esta podemos facilmente estabelecer a outra; agora se tivermos aquela como prioridade seria difícil conseguirmos adaptá-la para o indivíduo também depois.
Cada comunidade baseada nesse novo sistema de organização é chamada de terminal. Cada terminal deve ter um tamanho de um bairro ou de uma cidade pequena. O terminal é a unidade de grupo social mínima; é nela que todas as decisões que precisam de decisões conjuntas (pois afetam diretamente a todos que dele fazem parte) são tomadas primeiramente, e nele que essas decisões devem se concentrar antes de subir de nível organizacional.
Cada comunidade possui usuários. Cada usuário é um cidadão que mora nesse terminal. Quando ele “migra” para um terminal ele aceita as seguintes exigências em troca dos seguintes direitos: eu tenho que me adaptar ao modo como o terminal é (minimamente) estruturado. Em troca, ganho o poder de decidir minha conduta, livremente me associar a ou me dissociar de um grupo e o poder de participar das decisões que estruturam este terminal.
Ou seja, o usuário é livre para basear sua vida da maneira como bem entender dentro das poucas regras do terminal. E quais seriam essas regras?
As únicas regras que o terminal possui são regras estruturais, convenções feitas por todos os cidadãos para estruturar o terminal. Como assim “regras estruturais”? São as leis que só existem porque afetam diretamente a todos. Por exemplo: como serão as ruas do nosso terminal? Usaremos dinheiro ou não? Como decidiremos essas coisas, concenso, maioria, representação, ditadura dos sábios? Tudo é válido, basta que todos queiram (ou seja, a resposta à última pergunta, antes que a resposta dela seja formulada, é maioria – por isso seria de se esperar que essa seja a primeira pergunta a ser respondida).
Essas regras são mínimas e devem permanecer mínimas. Existe ou não qualquer coisa como “toque de recolher”? O casamento gay é permitido? Aliás, o casamento é permitido? E o aborto? - São perguntas que são delegadas ao julgamento individual. As outras pessoas não delimitam a decisão de alguém sobre um assunto que concerne unicamente a elas.
Portanto, você tem o poder de flexibilizar suas atitudes e suas ideologias do modo como quiser, desde que não entre em conflito com as poucas regras básicas adotadas para organizar o terminal. Essas regras, como geralmente não saem de algumas poucas opções, serão conhecidas como distros. Cada distro é uma reunião coerente dessas regras, ou seja, ao invés de um terminal começar do zero com cada decisão, é mais fácil o terminal escolher qual distro usar.
Terminais que ficam numa região geográfica próxima são agrupados sob o nome de redes. As redes existem porque caso alguma decisão que precise ser tomada por todo um terminal acabe afetando geograficamente outro terminal, faz-se necessário que ele também participe da decisão.
De forma semelhante, o coletivo de vários terminais, próximos fisicamente ou não, usando a mesma distribuição é chamado comunidade. Uma comunidade, em vez de um terminal, discute uma decisão quando essa decisão em questão se mostra um novo desafio para todos os terminais, como uma decisão inovadora que até então não precisou ser tomada. Essa decisão é feita em comunidade porque assim evita-se dissidências; não que elas não possam acontecer; mas quanto mais unida a comunidade se manter, melhor. Caso a divisão de opiniões seja muito forte, criam-se duas distros novas, basicamente iguais, porém cada uma com sua nova particularidade.
Saindo da escala macro e voltando ao micro, os usuários escolhem suas atitudes sem se guiar necessariamente por leis. Entretanto, existe uma forma de organização legislativa, que são os grupos.
Um grupo é uma reunião de dois ou mais usuários que firmam um acordo. O acordo contém uma lei e um benefício para quem a cumprir. É como um contrato; você se submete a uma lei para receber um benefício. Os grupos são abertos. Qualquer um pode se associar a ele e dele se dissociar, a qualquer hora, sem avisos prévios ou multas por recisão. Grupos podem formar leis sobre qualquer coisa, desde que não infrinjam essa lei básica (livre associação e dissociação) e desde que não digam respeito a pessoas fora do grupo. Tirando isso, qualquer lei é válida.
Vamos supor a seguinte situação: você não é uma pessoa dada a uma vida desorganizada. Você gosta do fato de que você possui uma lei. Tudo bem, sem problemas. Você vive num apartamento, e por uma questão de conveniência você conversa com o seu vizinho e vocês dois criam um grupo. Esse grupo possui as seguintes leis: nenhum barulho depois das dez da noite (depois de aproximadamente 9:15:00, hsd). Ele pode ser unilateral; você oferece um benefício a ele em troca do cumprimento da lei. Lei violada; benefício suspenso. Ou ele pode ser bilateral; se ele também tem interesse na manutenção de seu silêncio, o benefício pode ser simplesmente o cumprimento mútuo da mesma lei.
Caso alguém goste da lei pode se associar a ela, mesmo morando em outro lugar no mesmo terminal. Se o acordo for unilateral, a associação tem que acontecer com duas pessoas ao mesmo tempo (ou seja, se A e B formam um grupo em que B cumpre uma lei pelo benefício de A, então C não pode entrar sozinho – tem que entrar com um D). Se o acordo for bilateral, é possível associar-se ao grupo sem outra pessoa (A, B e C cumprem a lei, se alguém a descumprir os outros não são obrigados a continuar a cumpri-la para com ele).
Essa é a idéia da estrutura social. O básico, deixando a legislação livre para o indivíduo, porque considera-se que a liberdade dele é importante – mas ainda conservando ferramentas para agrupamentos sociais.
Requisitos?
Temos uma visão prático-básica do discordianismo, uma olhada na aplicação desse subjetivismo à realidade social e como ele seria estruturado. Mas, como atingir uma aplicação estável das três liberdades?
A única saída que vai além da tirania: consciência.
A partir de agora veremos textos sobre como criar um ambiente social em que a consciência, o desenvolvimento intelectual, a liberdade, ela é impulsionada e encorajada, e, ao mesmo tempo, é possível traçar um paralelo sobre o que aconteceria e o que acontece.



