Temos duas opções. Ou acreditamos que somos capazes de usar a razão, que somos capazes de nos controlar; de pensar, de decidir o que é melhor pra gente e até mesmo decidir, conscientemente, se vamos ou não incluir os outros em nossas considerações…

Ou acreditamos que não temos jeito. Que somos uma raça desgraçada, fadada a seguir nossos instintos, sem chance de escolher nosso futuro, de criar um caminho, fazer um destino.

E isso justificaria qualquer coisa que fizéssemos com a nossa vida e com a vida do outro.

Estamos ferrados mesmo, não é? Então não adianta tentar mudar.

“E ele, ele não sabe o que é melhor pra ele. Sou eu quem devo decidir, eu posso fazer o que quiser com ele. Ele não tem valor”.

É claro, existem os meio-termos. Sempre existem.

Pode-se pensar que nem todas as pessoas estão perdidas. Ou pode-se pensar que em só alguns aspectos de nossa vida estamos perdidos. No primeiro caso, pensa-se que umas são melhores que as outras, que alguns merecem mais a liberdade do que outras.

Algumas, por essa linha, não têm jeito mesmo, mas como decidir isso? Como, qual é o parâmetro usado pra dizer que você é melhor que outra pessoa no modo como vive a sua vida? Se você troca o parâmetro, obtém resultados diferentes. Quem é capaz de provar que alguém é dotado dessa razão de liberdade e outra pessoa não? Quem é capaz de apresentar tal prova, e não uma interpretação?

E se fosse interpretação, você deixaria que outras pessoas interpretassem por você?

Se alguém dissesse que você é de um tipo de gente superior, você se acomodaria, não é?

Mas se dissessem que você é da ralé, se alguém, ou mesmo muitas pessoas, o acusassem de ser um verdadeiro idiota que não sabe de nada, você reclamaria, não reclamaria?

E você aceitaria um parâmetro que não reconhecesse que as pessoas mudam? Que dissesse que se alguém não merece respeito ele não poderia conquistá-lo?

E, no segundo caso…

É um meio-termo que parece excelente, não é? “Precisamos controlar bem as pessoas. Precisamos controlar a sociedade, e é para seu próprio bem!”

“Afinal, já que você tanto quer, você até que tem algumas liberdades. Você o pode escolher o canal de televisão, a faculdade – talvez até a profissão. Mas você não pode viver sem religião! Não pode, não pode viver sem dinheiro! Será fiel ao governo! Tem que deixar deputados tomarem decisões no seu lugar, isso é o máximo de influência que você pode ter… Nas leis que, por acaso, dizem o que você pode fazer ou não.”

Ora, quem disse que não podemos viver sem essas coisas todas? Nascemos pelados, sem igrejas, papéis coloridos e ambições tolas.

Todas essas três vertentes que restringem o pensamento não dão chance a quem quer mudar, ou mesmo a quem já nasce marcado como escória social.

São armadilhas conhecidas da cognição moral, “Oh, vejam só como ele é mau!”

Isso tudo é desculpa pra exercer o poder sobre o outro, mas que direito temos? É fácil pensar porque queremos nos ocupar com a vida do outro. Queremos controlá-los para fazer com que dancem conforme a nossa música, que ajam como queremos que ajam, assim nos previnimos de possíveis conseqüências não-tão-boas que podem advir da ação do outro.

Quem quer dominar acaba dominado. Se ocupando de limitar o poder do outro, esquecemos totalmente de viver – talvez devêssemos pensar que o poder é justamente o poder sobre nós mesmos; poder é a nossa possibilidade e a nossa razão!

Livre, livre, o viver deve ser livre!

Tudo que é obrigado envenena o prazer, e ninguém deveria ter o direito de dominar o outro.

O que eu proponho é uma grande solução; Primeiro pensamos que mudar é possível. Mas temos que saber o que mudar; pra isso, saber o que está errado.

Não são os políticos, é a política. Não são os estadistas, é o Estado.

Se nós damos liberdade e responsabilidade a nós mesmos e aos outros, começamos a nos concentrar na nossa liberdade, nas nossas atitudes. E assim vivemos nossa vida.

Não é um caminho solitário; é um caminho libertador para as verdadeiras e nobres relações humanas, pra tudo o que nós podemos ser e pra tudo que nós temos a ganhar com o que os outros são. Relações de interação, onde as pessoas compartilham experiências e emoções, e contemplam um indivíduo, não um conceito, um interesse, um objeto, uma necessidade nem um dever ou superioridade - mas uma coisa viva, um coração pulsante, que deve ser celebrado pois a vida é uma construção fina!

E nesse fluxo de emoção e poesia, você se sente vivo por estar onde você quer estar, vivendo o que quer viver, sozinho ou com alguém que faz o mesmo que você por livre e espontânea vontade.

Nem sempre vai ser assim. Pra nos fortalecer e fazer com que nossos sentimentos bons vençam, precisamos também encarar nossas trevas, encarar a parte indeterminada da vida. A vida é complicada, sim. Não é simples. Ela é cheia de desafios inerentes e aventuras que nem sempre terminam bem, infelizmente. Mas por que nós insistiríamos nisso? Se temos um jogo a jogar com os nossos demônios, por que a sociedade, uma instituição humana, deveria ajudar jogando mais demônios em cima da gente?

Por que forçaríamos os outros a encarar mais demônios do que a vida já oferece por si mesma? Não tem problema se você é masoquista, mas a sociedade está organizada de uma maneira que só piora as coisas! Não é uma questão de dizer “nós fazemos parte da natureza, então vamos ser exatamente como ela!”. É uma questão de dizer “temos algo de diferente, e essa diferença é a liberdade. Podemos ser melhores!”

O objetivo não é eliminar ou ignorar o mal; jamais.

O objetivo é pensar que não há necessidade de fazer as coisas ainda mais complicadas. Uma sociedade que dê oportunidade pra quem quiser viver a vida assim, mas não obriga ninguém a fazê-lo.

O impulso de controlar o outro e querer ter tudo sob controle é apenas o medo de ser influenciado, o medo de encarar o desconhecido e aquilo que está fora do nosso escopo de visão. Mas o desconhecido também é uma pessoa, e todos têm (por falta de uma diferença natural entre melhores e piores na arte de viver, como eu mencionei antes) o mesmo direito de ser felizes.

Você, você… Você prefere que o outro aceite o que você faz com a sua vida ou que brigue com você pra que mude, pra que se adapte, pra que seja normal, ou mesmo pra que seja de um jeito que o favoreça?

Ou que uma suposta dependência que ele tenha para com você seja algo normal e encorajado pelo status quo, fazendo com que ele se prenda a você de um jeito que cada passo seu o machuque?

Precisamos acreditar no livre-arbítrio. A vida, para os seres humanos, naturalmente, é uma dança de seres humanos… E negar que o outro tem o direito a dançar como quiser não é lógico ou justo, é egoísta.

Aliás, justo! É o que dizemos quando a calça aperta. “Ficou justa!”. Você também tem o direito de dançar como quiser, e há liberdade nos movimentos, não é nada justo! Se o jeito como o outro dança te machuca; Aprenda com isso; vença o sentimento ruim, aproveite-o, consuma-o, ele faz parte da vida, mas não se deixe sucumbir por ele, vença-o!

Sentimentos são desafios, jogue pra vencer, essa é a graça!

Se o outro dança com o único objetivo de te prejudicar, a natureza, as conseqüências, os seus sentimentos em relação ao que aconteceu – isso não é mais seu adversário, e sim ele!

E honre o inimigo. A emoção da competição, o calor da batalha e a honra de dar uma nova chance ao derrotado são sentimentos que vão além de uma natureza pequena. Dar uma chance ao derrotado… Se batalhar é viver, vamos viver e fazer viver! Não matar, destruir o inimigo, mas sim derrotá-lo!

E como prova da grandeza, mirar na batalha, não no combatente - tanto quanto na guerra de palavras se fala de argumentos, não de debatedores.

Agora, se considerarmos que o ser humano está condenado a dançar contra o outro, sem jamais aprender um passo melhor;

Todos ficam paralisados na pista, desconfiados, esperando o momento adequado pra mexer o braço 1 cm pra esquerda. Isso sim fica justo, não?

Me desculpem, isto não é vida. É simulacro. A vida pode ser muito mais, muito mais!

Tem gente que se conforma com isso, mas ela pode ser muito mais.

E é tudo sobre isso.

Sócrates, se existiu, dizia que a mãe da filosofia é a morte. Ora, a vida é curta e portanto há pouco tempo para aproveitá-la. Se você não acha que está aqui para aproveitá-la, tudo bem. Mas isso é problema seu, de mais ninguém. Se você achar que tem o direito de exercer poder sobre os outros decidindo pra que as vidas deles servem, os outros também tem esse direito sobre você.

O que faz de você especial, pra ter esse direito, hum? Uma mensagem divina, sim, claro… Um dos motivos pelos quais odeio religião.

Há pessoas que não entendem os depressivos, pessimistas, mas olhem para a miserabilidade de nossa existência! Um punhado de células sem certeza nenhuma durante seu tempo de consciência, que dura mais ou menos uns 70 anos com sorte, e vai embora pra nunca mais voltar. A vida é vazia, a vida é vazia!

Há pessoas que dizem que a religião preenche a vida, mas ela só o faz à medida em que subverte os fatos. À medida em que diz que não é um “punhado de células”, e sim “barro divinamente assoprado”.

Porque se você olha para os fatos, volta os olhos para o vazio. Só que é aí que reside a beleza da vida: Dá pra você preencher a vida. Ela está vazia. Mas não está trancada.

Ou seja, temos duas opções:

Ou somos livres ou não. Com a liberdade vem todo um mundo novo de realidade.

Mas é um mundo maior. E mais seu.