Vamos encarar os fatos: ter filhos é uma tarefa indigna. Não há nada na vida mais complicado do que ter um filho, e olha que eu nem tenho. Vou dizer porque acho isso, antes que me chamem de hipócrita, já que sou adolescente ainda:

Porque, através do que ouço de pais e até mesmo do que penso no meu modestíssimo (modestérrimo) conhecimento sobre psicologia, criar uma criança é uma coisa ruim mesmo. Conheço crianças bem “educadinhas”, sabe? Dessas que pedem pra fazer xixi, dessas recatadas, que conversam baixinho, que sabem brincar… Que comem direitinho, que não dão chilique… E conheço também as pestes, que batem nos pais, xingam, não aceitam colocar outra roupa (a não ser aquela que eles próprios escolhem), que querem por que querem alguma coisa, enfim, isso tudo aos 3 anos de idade.

Fico me perguntando se isso não seria culpa dos pais. Fico me perguntando se isso não é genético. Fico me perguntando se isso não é culpa da máquina. Fico me perguntando se isso não é culpa de, sei lá, azar mesmo. Sabe? E a minha principal preocupação é: Porra, será que eu estou pensando com a minha cabeça ou estou indo na onda dos outros?

 

Ora, porque quem disse que o primeiro modelo de criança descrito ali acima é melhor que o outro? Ouço: “Eu não sei mais o que fazer. Ela não obedece!” – ótimo! Eu penso. Só penso, porque se digo isso provavelmente a mãe da pestinha me bate, né?

Porque, veja bem: o primeiro modelo é apenas uma preparação para engrenagem. Olha. Obediente. Quieta. Sabe o lugar dela… Ovelhinha do senhor. É isso que a Máquina quer. Esse modelo de criança.

Só que também quer o outro.

A menina que eu conheço, que é do segundo tipo, ama rosa, ama Barbie, ama Hello Kitty. A rebeldia dela é puro capricho, ela não é uma punk babyside que quer destruir o sistema, ela é uma paty folgada e metida.

Uma na embalagem pra ser uma escrava, outra, na embalagem pra ser uma adolescente cheia de gírias, amiguinhas bobinhas e namorados malas. O que é melhor? Nenhuma das duas, claro.

E eu me pergunto: como criar um discordianinho?

Como fazer com que a criança desenvolva seu intelecto, se ela é obrigada a ir à escola? Como fazer com que seja saudável, se ela é forçada pela propaganda, a toda hora, em qualquer lugar, a comer porcaria? Como fazer com que ela pense por si mesma? Como incutir nela o senso de justiça, sem ter que partir pra violência, o que eu acho inútil e desagradável? Como criá-la com liberdade, mas fazendo com que ela entenda o conceito de limite, de vida, de respeito. Como? Como?

Como fazer com que ela saiba controlar suas emoções, ela é uma criança. Vai sentir inveja do tênis que o amigo tem. Como será cautelosa, ela não sabe do mundo em que vive. Como fazer essa criança não se sentir triste, por que o pai não tem dinheiro agora? Como explicar pra ela que liberdade não é permissão pra fazer tudo o que quiser?

Como explicar que as coisas não vêm fáceis? Que tem que haver esforço? Como explicar que o impossível é, de fato, impossível, sem que ela se desiluda com a vida, com o mundo? Como dizer pra ela lutar por um mundo melhor? Como falar pra ela: pense por você, faça por você, não se rebaixe, não se venda, não se humilhe, se não há outra cultura nesse Brasil todo?

Como explicar o zen pra ela? Como dizer pra ela pra viver intensamente, mas não se preocupar com o fim? Como digo pra ela que ela deveria viver como se fosse o último dia, se até ela entende que isso é uma tremenda bobagem? Como digo pra essa criança que ela tem que acreditar nela mesma (pra que ela não cresça sempre acreditando em qualquer um), se ela nem tem nada pra acreditar dentro de si ainda?

E o mais importante de tudo:

Como fazer isso tudo explicando, argumentando, mostrando, exemplificando, conversando, com calma, tranqüilidade, sem parecer que eu esteja dizendo como ela deve ser? Porque educar uma criança segundo o discordianismo não é o mesmo que o que os cristãos, os muçulmanos, os judeus fazem, há séculos?

O que dizer quando essa criança crescer um pouco e, em um arroubo de independência e rebeldia sem causa, simplesmente achar exatamente isso: que nunca teve a oportunidade de conhecer outras coisas, porque só conheceu o que alguém disse a ela pra conhecer? E acabar se virando contra o discordianismo justamente por ser tudo o que ela conhece, desde cedo?

O que dizer quando essa criança entrar em casa com uma Bíblia? E ter se tornado exatamente o que um pai zeloso deveria fazer: impedir que essa criança caísse nessa armadilha (isso rimou)?

Eu não sei. Não sei mesmo. Só sei de duas coisas: a educação de uma criança deve ser a coisa que mais explica coisas sobre a natureza única e indiferente da realidade em relação à nossas vontades: o que você faz uma vez, pode ter implicações enormes na vida de uma criança. E em segundo, sei que não quero ser pai. Quero ser só amigo do meu filho. Quero ser só um amigo que vai guiá-lo, vai ensiná-lo. Só isso. O que é um pai? Pai vai ser apenas o título formal, eu serei amigo, apenas isso, só isso.

Talvez algum dia você entenda porque dessa minha vontade de não agir como um pai. Porque nem eu sei explicar isso.

 

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