Às vezes penso como é nojento o modo como tratamos as crianças, de forma geral: ninguém entende que tal ser é também um ser humano e que deve se tomar muito cuidado para fazer com que seu desenvolvimento não seja maculado por traumas. Alguns dos erros mais comuns que vejo quando se trata de criança são dois: a crença de que criança é tudo igual e de que elas não têm direito a nada.

A crença de que criança é tudo igual é algo muito difundido e é aí onde nossa negligência transborda e onde mais sinto quão desprezíveis somos quando nos deixamos levar por nossas emoções primitivas. Sabe aquela frase: “Ah, são crianças, se entendem”. Sabe? Uma vez duas crianças estavam brincando. Tinham lá seus quatro e seis anos. Então uma menina não quis brincar com a outra. Então a mãe começa a perguntar: “mas por que você não quer brincar com ela?” e não compreende que isso simplesmente é uma vontade da criança.

Eu me pergunto por que isso deveria ser diferente? Temos essa sensação de que criança sempre se dá bem com criança e tudo o mais. Por que não podemos entender que crianças também têm as suas “relações sociais”, digamos assim? A gente acha que qualquer criança serve pra brincar, qualquer brinquedo serve pra se divertir… Talvez sim, mas, essa generalização é como tratar a criança como uma “coisa” vazia, onde botamos regras e costumes pra que ela possa se tornar um adulto comportado. E ela que aceite, se não quiser apanhar. Isso me irrita.

 

Mas não me irrita mais do que a segunda coisa. Essa mesma menina de quatro anos já quer se vestir sozinha: tem seu próprio gosto pelas roupas que quer botar e se recusa a obedecer à mãe. A mãe fica perplexa, e comenta: “onde é que já se viu, nessa idade, querer escolher a própria roupa?”.

Eu fico indignado. E me pergunto:

O QUE É QUE TEM DE ERRADO COM ISSO?

Tratar as crianças como coisas, como caixas de ferramentas (principalmente a parte das “ferramentas” é uma coisa nojenta. Não faríamos isso com adultos; respeitaríamos a vontade deles, entenderíamos sua individualidade e respeitaríamos sua liberdade, mas porque isso é diferente com as crianças? Eu digo por que, porque o que ninguém vê é que crianças são usadas como válvula de escape, querendo ou não: já que não se pode mandar e desmandar nos adultos, e já que os “animais sofisticados” que os humanos se tornaram na era contemporânea se recusam a mandar em si mesmos, eles gostam de mandar nos filhos, fazer com que expiem o modo servil como vivem suas vidas.

Os filhos são tratados como instrumentos, como objetos: todo pai e toda mãe vê no filho uma oportunidade, um modo de se projetar, e, quando não isso, um modo de influenciar e de criar a pessoa que eles gostariam de ter como filho. Entende? Hoje em dia todos funcionam assim no automático… Fazem planos para suas crianças, mas não entendem que elas são seres humanos, têm direito à essa liberdade, e acabam tirando toda a possibilidade de liberdade deles.

Hoje ninguém quer dar a vida, como que um presente, para alguém: hoje um filho é nada mais que um estereótipo de filho. Uma “caixa”, e isso me dá raiva. Um bode expiatório misturado a uma oportunidade, uma nova engrenagem no sistema. Isso me deixa muito indignado.

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