Uma coisa: quem fala demais a mesma coisa - e demais é um conceito relativo que você sabe identificar, pode ser até mesmo duas vezes, tudo depende - quer afirmar mais pra si mesmo do que necessariamente para os outros.

Isso pode ser direto ou indireto: por exemplo, quando eu bato na mesma tecla com diversos assuntos aqui no blog eu falo sempre sobre a mesma coisa porque eu preciso mesmo afirmar pra mim mesmo - por uma questão de conhecimento. Quando eu falo sobre um assunto é porque ainda não o tenho todo mapeado, todo construído na minha mente. É necessário conhecer cada corredor, cada mancha na parede, cada beco de uma idéia, e eu faço isso investigando-a no papel (digo, na tela), não apenas andando pra lá e pra cá na cozinha (o que eu faço quando fico pensando).

Já algumas vezes acontece aquela história do Bigode: a pessoa quer convencer primeiro os outros de que é alguma coisa, de que faz alguma coisa, etc, pra depois se convencer, ao ver que os outros pensam de você do jeito como você quer.

Eu não sabia o que pensar disso, até conviver com uma pessoa (com a qual eu já convivo há tempo) que começou a fazer isso nos últimos meses… E também com outra pessoa, com a qual convivo há muito mais tempo, que tem feito isso de forma notável nos últimos tempos.

Todo mundo faz isso, em maior ou em menor grau. Talvez alguns alcancem uma, sei lá, maturidade ou segurança a ponto de ficar algum tempo sem fazer isso, mas volta ou outro isso se repete. É um verdadeiro vício isso; não porque a lógica do “ele precisa acreditar pra que eu acredite” funcione sempre, às vezes é mais um caso de crise de personalidade - a pessoa usa frases de definição (”eu sou assim, eu sou assado” / “ai cara, eu sou muito assim” / “nossa, sabe, eu sou assim também!!!!! Bem assim mesmo, sempre fui!”) o tempo inteiro porque ela não sabe quem é. Mas, por outro lado, quem sabe mesmo?

De qualquer forma, chega a ser um pouco irritante pra quem nota. Pra quem adotar essa consciência e reconhece que faz isso, faça o seguinte: ao invés de tentar “mergulhar de cabeça” no autoconhecimento, embora eu não tenha muita idéia sobre como se faça isso*, tente calar os impulsos de ficar se definindo. Respire, pense, fique quieto. Reflita sobre a sua resposta automática. E, principalmente, antes até mesmo de ver se você “sempre foi assim”, pense se é assim que você quer ser. Talvez seja justamente controlando as fronteiras no quesito “o que sai das minhas cordas vocais”** é que possa haver um começo de autoavaliação.

And She Loves
Creative Commons License photo credit: nicolevity | * Uma vez a Dora do crônicas atípicas disse que uma das coisas boas de se ficar sozinha, numa ilha deserta, por um ano, é o autoconhecimento. Mas seŕa que é possível ganhar autoconhecimento sem relações sociais??? … ** Em Aurora há um aforismo que diz: “guardando-se em silêncio por um ano desaprende-se a tagalerar e aprende-se a falar” - ou algo muito perto disso.

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