Desde que li “O Mundo de Sofia” fiquei impressionado e virei fã de David Hume. O cara era realmente inteligente e fez a diferença na filosofia, sem dúvida.
Hume nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 7 de Maio de 1711 e foi filósofo e historiador. Faz parte do que se denomina o empirismo britânico, movimento que teve como principais figuras John Locke e George Berkeley.
Hume pensou em seguir a carreira jurídica, mas preferiu a filosofia. Já com 26 anos completou sua obra-prima, Tratado da Natureza Humana. Apesar de a obra ser considerada um livro importantíssimo em toda a história da filosofia, ele não foi imediatamente aceito pelo público. Ele tinha esperado por um ataque às suas idéias e preparara uma defesa; porém esta não foi utilizada – não houve chance.
Hume reformulou o livro, deixando-o mais próximo ao público, e chamou-o de Investigação Sobre o Entendimento Humano, mas novamente não teve sucesso. Este livro, porém, deu um excelente resultado: Immanuel Kant, um dos mais importantes filósofos alemães, interessou-se por uma nova filosofia para si – mesmo ele estando em idade avançada, e sem nenhuma obra relevante publicada.
Hume tentou lecionar nas universidades de Edimburgo e de Glasgow, mas a oportunidade lhe foi negada; suspeita-se que por causa de acusações de ateísmo, além da oposição de Thomas Reid. Apesar de toda a contribuição para a filosofia, Hume ganhou fama através de sua atividade como historiador. Seu livro mais reconhecido foi o História da Inglaterra.
Uma das mais relevantes críticas de Hume ao pensamento é a validade da causalidade. Quando vemos um fato A acontecer, e logo depois um fato B, podemos supor que há uma relação entre esses dois fatos. Entretanto Hume argumentou que a nossa experiência se baseia na seqüência cronológica de A e de B, entretanto não “experimentamos” de fato a conexão, a causa entre um e outro.
Essa é uma lição prática fundamental para a vida. A compreensão da falta da certeza sobre a causalidade nos faz ser céticos quanto a raciocínios duvidosos do tipo:
- Sempre que eu rezo as coisas acontecem.
- É só eu pensar positivo que as coisas acontecem.
- É só eu dar três pulinhos, piscar os olhos, arrumar o cabelo pra esquerda, falar A, E, I, O, U, botar e tirar a mão no bolso cinco vezes, tentar lamber o cotovelo duas vezes e aí eu consigo ganhar na mega-sena.
Além do que, isso pode também fazer com que sejamos mais cautelosos quanto a resultados de nossas ações, ou para que pensemos duas vezes antes de tomar atitudes com base no que “pensamos” que vai acontecer, dado algum fato específico anterior.
Hume também fala do problema da indução. Um exemplo idiota: eu vejo uma cadeira. Essa cadeira é marrom. Logo, todas as cadeiras são marrons. Como eu posso ter certeza? Se eu estudo um determinado fenômeno, inclusive científico, como posso ter certeza de que ele se repetirá em toda a terra, em todo o universo?
Bom, não posso. A indução é falha. Karl Popper solucionou o problema com o artifício da falseabilidade – ainda que não totalmente, mas ainda assim é uma solução “elegante”.
A teoria empacotada do “Eu” (The Bundle Theory of the Self) é muito interessante, e uma das mais subjetivas dele. Ele postula que o “Eu” é uma idéia um tanto quanto errônea. Nosso pensamento de “Eu”, de “self”, nosso conceito de “identidade”, está ligado ao raciocínio de que na pessoa física encontra-se algum tipo de personalidade inata e imutável, ou algo como uma alma ou espírito que carregue uma personalidade mutável.
Ou seja, mesmo que uma pessoa mude muito dos 5 aos 50 anos de idade, ela ainda acredita que haja alguma coisa nela que não mudou – ainda é o mesmo corpo no sentido de continuidade genética, mas nenhuma célula externa dos 5 anos de idade restou aos 50, e a aparência denuncia mudanças macroscópicas.
Para Hume, esse “Eu” não existe. O “Eu” é apenas a consciência do atual estado de espírito, das sensações atuais, comparadas racionalmente com a memória, com a história pessoal de alguém. O “Eu” é algo em permanente mutação; um sujeito formado não a partir de algo indestrutível e imutável, mas sim de um conjunto de circunstâncias perfeitamente transformável.
Hume defendeu também que a razão serve apenas como uma forma de pôr em prática os desejos e vontades – ou seja, não existe vontade racional. Ao mesmo tempo, essa idéia segue o mesmo estilo da idéia de que a razão serve apenas para justificar atos feitos por impulso.
Hume também fala de liberdade e determinismo, ou melhor, diz que o livre-arbítrio é impossível sem o determinismo das circunstâncias. Fala de enunciados descritivos e prescritivos, do utilitarismo, se coloca contra o argumento teleológico um século antes de Darwin, e tem também uma idéia interessante sobre a oscilação humana do monoteísmo ao politeísmo. Vou copiá-la integralmente da wikipédia (no artigo da wikipédia é possível encontrar todos esses assuntos que eu citei, mas que não falei muito).
Tags: Epistemologia, Filosofia, InglaterraTeoria da Oscilação
Hume rejeita a ideia de uma evolução linear desde o politeísmo para o monoteísmo como um sumário da evolução histórica dos últimos 2.000 anos.
Na verdade, Hume acredita que o que a história mostra é antes um oscilar irracional entre politeísmo e monoteísmo. Chama-lhe um “flux and reflux” (oscilar) entre as duas opções. Nas palavras de Hume: “a mente humana mostra uma tendência maravilhosa para oscilar entre diferentes tipos de religião: eleva-se do politeísmo para o monoteísmo para voltar a afundar-se na idolatria”
Como Gellner afirma, esta oscilação não é o resultado de qualquer racionalidade, mas sim com os “mecanismos do medo, incerteza, da superioridade e inferioridade”.
Do politeísmo para o monoteísmo
Os povos que adoram vários deuses com poderes limitados podem facilmente conceber um Deus com um poder mais extenso, ainda mais digno de veneração do que os outros. “Neste processo, os homens chegam ao estágio de um só Deus como ser infinito, a partir do qual nenhum progresso é possível”.
Do monoteísmo para o politeísmo
Esse Deus único, todo poderoso, é porém igualmente um Deus distante e de difícil acesso para o comum dos mortais (sobretudo se estes são analfabetos - e na Europa da Idade Média, a esmagadora maioria da população era analfabeta). O contacto directo com as escrituras sagradas na Idade Média permanecia um privilégio de uma casta limitada - o clero. A maioria do povo comum, analfabeto, sente-se impossibilitado de aceder a Deus por via “directa”. Neste momento, torna-se visível um princípio psicológico que caminha numa direcção contrária.
Esse princípio psicológico é a ideia de que os homens vivem em busca da protecção, do apoio. Torna-se necessária a figura de intermediários perante o comum dos mortais e o Deus todo poderoso. Uma função para os santos, relíquias, … “Estes semi-deuses e intermediários, que são vistos pelos homens como parentes e lhes parecem menos distantes, são objecto da adoração e assim, a idolatria está de volta…”
Novamente de regresso ao monoteísmo
Mas mais uma vez, o pêndulo tem de retornar. Como Gellner afirma, em breve, “o Panteão torna a encher-se”. Hume: “À medida que estas diferentes formas de idolatria dia por dia descem às formas cada vez mais baixas e ordinárias, acabam por se auto-destruir e as horríveis formas de idolatria vão acabar por provocar um retorno e um desejo de regresso ao monoteísmo… Por isso (entre os judeus e os muçulmanos) é que há proibição de figuras humanas na pintura e mesmo na escultura, porque eles receiam que a carne seja fraca e que acabe por se deixar levar para a idolatria”.
Hume mostra exemplos desta evolução: É a luta de Jeová contra os Bealim de Canaã, da Reforma contra o Papado, e do Islão contra as suas tendências pluralistas (ver sufismo).






Excelente a qualidade das informações!

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Peterson Espaçoporto respondeu:
Obrigado Kooboo! =D
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