Como prometi postificar o conteúdo do blog… O meu artigo é velho, mas tenho que colocá-lo…
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Esses dias andei lendo algo por aí, não me lembro bem se em um blog ou em uma revista, acho que num blog, sobre o grande monstro ideológico que se tornou a adolescência.
Veja, ele expôs que a chamada “crise da adolescência”, que dura toda a fase da adolescência, é na verdade, um mito, um modelo mental, totalmente desnecessário do ponto de vista biológico. Não nego, de maneira alguma, as alterações que ocorrem no corpo e na mente do adolescente, mas creio que há um terrível - e quase intencional - engano na interpretação dessas mudanças. Entendo que há uma “hipérbole” das transformações da adolescência. Vamos a elas.
Veja, nós todos passamos por crise na idade, simplesmente por causa do fato irremediável chamado tempo: passamos pela crise de nos transformarmos em adolescentes, (daqui em diante não experienciei nenhuma, mas há toda uma lógica em afirmar a existência das crises); em nos transformar em adultos ; a crise dos 30, dos 40, dos 50, dos 60…
Veja, se todos passamos por crises, de identidade, de papel social, de avaliação da maneira como estamos conduzindo nossa vida, vendo sempre de um novo ângulo (vendo seu tempo na terra acabar mais e mais), então, por que a adolescência não poderia ser só mais uma crise? Compreendo que há ainda a soma dos fatores das mudanças, mas porque isso parece tão acentuado e caótico na sociedade atual? Seria falta de Deus no coração? O contrário: é excesso de Deus.
Vamos começar pelo começo: a manipulação, o controle educado, o poder sutil e efetivo, se baseia numa linearidade: quando você quer controlar alguém, manipular alguém, o que você faz? Você pode utilizar do poder da força, ou do poder casual, o mais efetivo, porque faz qualquer pessoa achar que está agindo em liberdade, quando na verdade está sendo controlada por outra. Mas, como é isso?
Suponha que você queria que determinada coisa aconteça amanhã à noite. Bom, você pode fazer isso. Ótimo. Mas e se isso não depender de você? Se outra pessoa tem que fazer isso, não você? Bom, então você tem que convencê-la. Ela não quer, e é irredutível. Ou você manda ela fazer, ou manipula ela… O segundo método é mais eficaz, a não ser que você tenha essa pessoa presa numa masmorra amarrada no tronco.
Mas, como fazer isso? Como fazer essa sua vontade prevalecer? Criando situações, agindo de forma a provocar na pessoa determinadas reações. A partir dessas reações, é possível agir novamente, para causar outras reações… Criando assim uma cadeia de eventos, prevendo antes cada movimento dessa pessoa, levando-a assim a fazer o que você quer, cerceando assim a liberdade da outra pessoa.
Mas então, qual é a moral disso? A moral é que dá pra fazer uma simbologia pra explicar o que quero dizer. Quando eu disse que a manipulação exige linearidade, quis dizer que manipular, controlar uma pessoa, é fazer ela andar em linha reta; ou seja, você pega e ordena os acontecimentos e os passos de outra pessoa, fazendo-a andar na direção que você quer, mas fazendo parecer que ELA quis assim, ou pelo menos de que foi MELHOR assim, no final das contas.
Mas toda linha reta possui uma direção; mais, possui um sentido. Portanto, para ordenar a pessoa de forma a tornar a vida dela uma linha que acabe exatamente na realização da sua vontade, é preciso dar uma cara nova nessa “linha”. É preciso dar à pessoa um motivo para fazer o que ela fará. Que motivo é esse?
Surge assim o bem e o mal. O certo e o errado. O jeito mais eficaz de todos os tempos para a manipulação.
O bem e o mal, o certo e o errado são classificações, rotulações para a criação de uma ética unificada, que serviria como guia de todo um grande grupo de pessoas. Essa ética homogênea serve como manipulação; toda essa grande moral que edifica um homem edifica apenas um modelo mental que serve para controlar a vida, para programar a vida, perpetuando o sistema da forma como ele está, o que interessa quem tem mais poder sobre o sistema.
O bem e o mal são os dois lados da “linha”: de um lado, o que você deve fazer, de outro, o que não deve fazer. Assim que você dá a uma pessoa, mostra a uma pessoa novas valorações, novas palavras pra colocar de um lado da linha, o do bem, e novas palavras para colocar no lugar do lado do mal, você estende essa linha por cima da vida da pessoa, e pronto; ela seguirá o seu caminho baseada no que é certo, sempre em direção ao pólo positivo da linha, evitando o lado negativo. Essa é a moral, que desafia a liberdade ao fazer com que uma pessoa use desse instrumento de culpa para construir um modelo mental; um modo pronto de enxergar o mundo, que no final das contas, só fortalece, só melhora, só contribui para quem o cria, quem o mantém, quem utiliza dele.
Eu falei, falei, falei, mas cadê a adolescência? Aí está:
A Adolescência é uma mistura perigosa de inexperiência e experiência. Temos a falta do hábito de viver em uma sociedade acomodada por natureza. O Adolescente (alguns) ainda não tiveram contato com os perigos que a vida adulta oferece e a vantagem de calar a boca e ficar no seu canto, quieto. Ainda não se viciaram na acomodação. Ainda não se viciaram na obediência. E o lado da experiência? Eles experimentaram a liberdade, experimentaram a verdade, ou seja, experimentaram não serem mais crianças e acreditarem no que realmente acham que é verdade, não em qualquer coisa que contam por aí.
Ou seja, o adolescente sabe o que quer, ou sabe durante um tempo, até acabar gostando de outra coisa, enfim… Isso é próprio da adolescência. Mas o adolescente, ao mesmo tempo que tem suas idéias inovadoras, e muitas vezes conflitantes com a realidade, ainda não teve contato com a acomodação e a vida daqueles que se deixam levar pela rotina. Eles (por natureza, mas muitos já o fazem) não reconhecem isso, e lutam pelos seus ideais. Por isso a bandeira do jovem é hasteada mais alto; por isso o grito é mais forte e o protesto, mais intenso. Por isso a força que muda a sociedade é a dos jovens, não a dos antigos.
O problema é que, se a sociedade mudar, do jeito revolucionário que muitos jovens ativistas propõem, quem está no poder hoje não estará amanhã. E agora? Como fazer pra manipular essa massa de vagabundos, cheia de poder e raiva para mudar o jeito como as coisas são?
Impregnar a adolescência de idealismo. Demonizar a adolescência. Culpar a adolescência. Jogar a linha da moral por cima da massa de adolescentes, que se torna cada vez mais uma só, e cada vez mais nojenta por se tornar isso.
O que se fez, durante muito tempo, não é só de hoje, e ainda se faz hoje, é culpar os adolescentes. Eles são inconseqüentes. Eles são imaturos. Eles não sabem o que fazem, o que dizem, o que sentem. Eles não sabem escolher. Eles não sabem de nada, quem sabe mesmo são os pais. Isso ele diz hoje, quero ver amanhã! São essas as frases mais relacionadas aos adolescentes. Vamos ver outras?
Essa rebeldia é típica da adolescência. Adolescência = Aborrecência. Outras duas interessantes, não? Porra, o que há de tão errado com os adolescentes?
A força motriz da sociedade foi parada durante séculos, e desde então ela vem mostrando seu rosto, se libertando de seus grilhões, mas a moral parece ter vencido a força da mudança dos jovens, definitivamente no mundo moderno! Por que a juventude é sinônimo de inconsciência? Por que estamos sempre errados, equivocados, precipitados, sonhando acordados? Por que ninguém leva a sério nossas idéias e nossos projetos, por que são ousados demais, e por isso são “loucos”, impensáveis? O que pensam que somos? Isso???
O pior é que nos tornamos isso. Os adolescentes, todos os dias, se mostram cada vez mais tolos e ridículos. O que aconteceu? A linha do bom e do ruim foi jogado pelo tempo da vida: as crianças são inocentes, são os anjinhos! Até que chega a adolescência, e os demônios aparecem! Por que isso? Porque é necessário desacreditar os adolescentes. Não é preciso que a sociedade desconfie deles, não! É necessário que OS PRÓPRIOS ADOLESCENTES DESCONFIEM DE SI MESMOS. É necessário que eles tenham medo de que sejam tudo aquilo que dizem que são, e então se tornam exatamente assim.
Os adolescentes hoje são, em sua maioria, tolos e maleáveis.
As patricinhas, as alternativas, as emos. Os malacos, os jogadores de futebol, os emos, os punks, os riquinhos, os nerds. São esses os grupos de adolescentes. Todos acham seus ideais e agem como se fossem em liberdade. O cara que usa boné, faz cara de mal, tem fotolog e posta foto sem camisa no orkut, usa corrente de prata… Pra que? Por que os grandes donos da situação conseguiram o que queriam: criaram um mito, um MONSTRO em cima dos adolescentes, e o que eles se tornaram? MONSTROS. Tolos. Idiotas. Fúteis. Inconseqüentes. Relapsos. Temos que aguentar a descrença em nossos ideais. Temos que suportar o planejamento, a idealização de um futuro que talvez não seja pra nós, mas a sociedade nos impõe, de um jeito ou de outro. Temos que suportar brincadeiras sobre as mudanças do nosso corpo, temos que aguentar toda e qualquer brincadeira sobre a primeira vez de qualquer coisa, só porque é a primeira vez. Ah, que saco isso! Por que as crianças bonitinhas, sabe aquela menina loira de olhos azuis? Por que aquele amigo do pai dessa criança tem que dizer quando encontra com ela: “Essa vai dar trabalho quando crescer, hem!”. Por que? Por que essa cisma, essa idéia pré-formatada de que somos tão ruins, de que isso não é bom, é só uma fase ruim, inconstante (como se a inconstância fosse assim tão ruim) e que vai passar. Logo todo mundo usa gravata, corta o cabelo certo e ri de como era idiota quando era adolescente.
A Adolescência é uma fase cheia de mudanças e dúvidas, mas é potencializada pelo modelo que todos temos em nossas mentes, plantados, congênitos. Temos uma idéia terrível da adolescência. Nos preparamos para sermos horríveis e cometermos absurdos, mas, como saber se iremos mesmo ser assim? Nos preparamos pra ser, acabamos sendo mesmo o que não é nem desejável! Caímos nesse abismo criado, pra que? Pra que aceitamos a escola, o vestibular, o mundo capitalista. Pra que aceitemos o Estado. Que nada, pra que compremos prata de bali, munhequeira com nome de banda, roupa da nike, dezenas de pulseiras de estrelinha, mochila do RBD… Pra que os adultos nos imponham suas verdades, seus conceitos e suas valorações, porque, afinal, eles estão sempre certos e nós sempre errados, não é mesmo? E assim seguimos, passando por um calvário que não é sequer necessário.
E aí entram também, não perdendo uma boquinha nesse lucrativo negócio, igrejas, centros espíritas e suas falácias, bispos, psicólogos e o diabo a quatro oferecendo um bom caminho e dicas para passar pela adolescência… Venha para o lado do bem, venha… Pro inferno com o lado do bem.
Nos tornamos o mal porque disseram que seríamos assim, e assim somos pra que ninguém nos dê ouvidos, pra que não tenhamos força alguma diante do monstro sistemático que nos engole como engrenagem, mas nos deram um lado bom, para que pudéssemos fugir do mal e viver bem, até mesmo no inferno que a adolescência se mostra a cada dia…
Viu, que lucrativo? Pra quem aceita viver a montanha russa da adolescência, dinheiro pra uns. Pra quem quer a salvação, poder e dominação pra outros. Quer melhor coisa do que fazer adolescentes acreditarem que são uma MERDA?
Pois nós não somos. Não precisamos ser, obrigado.
Tags: Adolescência, auto-estima, capitalismo, crise, fases, moralidade, sociedade




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