Na conversa que tivemos eu, o Étori e o Scherer com o Maurício Amaral, em uma parte ele falava sobre a questão da velocidade e do fascínio que o perigo causa nos jovens. Étori sugeriu o Kart como um modo de experimentar a velocidade e, dessa forma, não “extravasar” isso nas estradas.

Maurício concordou. Ele, entretanto, deu um exemplo que eu particularmente não gostei - curiosamente eu e o Étori conversávamos no ônibus sobre a distinção absurda que se faz entre a cerveja e a maconha, por exemplo, uma droga legalizada e a outra não-legalizada.

Ele disse que a bebida alcoólica, por exemplo, é uma coisa que as pessoas tem que experimentar, uma vez que é “uma coisa natural” (dito com aquele balançar de ombros e a expressão de “fazer o quê, não é mesmo?”), pela qual todos deveriam passar. Entretanto, ele foi além ao falar das drogas: disse que essas ele não recomendava nem que as pessoas experimentassem, porque essas não trazem benefício nenhum, só fazem mal, etc.

Eu desconfio nesse pensamento uma incoerência. Eu diria uma, hum, hipocrisia inocente? Uma incoerência não-examinada, isso. Explico-me: a distinção que as pessoas fazem entre as drogas legais e as não-legais é arbitrária. Algumas drogas tem efeitos mais fortes sobre as pessoas, i.e efeitos colaterais mais danosos, mas a cerveja e o cigarro possuem péssimos efeitos colaterais, comparáveis a muitas drogas.

Se o Maurício referia-se aos malefícios das drogas não-legais como malefícios sociais, como por exemplo o fortalecimento do tráfico e do crime em geral, talvez ele se esqueça que a bebida alcoólica é uma das maiores responsáveis por acidentes de trânsito - sem contar os crimes cometidos que foram, digamos, descarrilados por discussões e descontroles engatilhados pela bebida. E quanto ao cigarro, uma droga tipicamente pessoal e sem grandes efeitos sociais, ela se estende também aos fumantes passivos - embora esse seja uma argumento fraco e ele não tenha falado nada sobre o cigarro, apenas sobre bebidas alcoólicas.

Já se ele referia-se aos malefícios pessoais, ele parte do pressuposto de que as drogas necessariamente só trazem mal-estar - entretanto duvido que haveria tantos viciados se as drogas fossem tão terríveis quanto às sensações causadas - e até mesmo degustadores de cerveja admitem que o gosto dela é mais uma questão de costume do que de sabor em si.

Humm… Olhando para os últimos parágrafos vejo que eles estão meio estranhos e talvez eu não esteja me fazendo entender muito bem. Mas vou tentar novamente: bebidas alcoólicas são drogas, sim. Drogas que pagam impostos. Se é “uma coisa natural” experimentar uma cerveja socialmente, é pura convenção social, não é “natural” coisíssima nenhuma. Então deveria ser muito natural e muito recomendável da parte dos pais fazer com que os filhos experimentem as drogas também, pra que saibam como é e decidam se querem ou não consumi-las. Isso, é claro, é refutável do ponto de vista dos malefícios sociais das drogas não-legais, mas como procurei demonstrar no primeiro dos últimos dois parágrafos, as bebidas alcoólicas também causam problemas sociais.

Quanto ao medo do vício, Maurício insinuou a idéia de que se a bebida for introduzida com cautela pelos pais, os jovens não se viciarão. Errado. Do mesmo modo, é um mito isso de que qualquer pessoa está suscetível ao vício às drogas como um computador responde a um estímulo. As coisas são relativas de várias maneiras.

Defender o uso da cerveja é uma coisa, defender a introdução delas ao jovem é defender a introdução dos jovens às drogas com aprovação dos pais. O resto é ginástica retórica pra mascarar, bem, as incoerências.

Ah, e talvez isso também ajude a entender.

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Quero aproveitar esse post para repudiar o comercial de TV da Associação Parceria Contra as Drogas. Diz ela: “quem tem uma vida espiritual ativa está menos suscetível ao uso de drogas. Se você é um líder, cuide de seu rebanho”. Bullshit. Defendendo a religião estão prestando um desserviço à sociedade: façam sim muitas atividades educativas com o fim de alertar para o uso das drogas, mas não defendam a escravidão do dogmatismo. Afinal, vocês hão de convir comigo:

a) Eu não uso drogas porque elas são ruins

b) Não uso drogas porque Deus acha feio e… Opa, hora da missa.

Assinale com um X a opção que mais se assemelha a algo que os religiosos contraditoriamente tentam defender: livre-arbítrio.

Nota: para qualquer acéfalo que pense em comentar que minhas generalizações são ridículas, são generalizações sim mas são apenas exemplos para poupar parágrafos e parágrafos de explanação filosófica sobre o assunto. São generalizações, são ridículas, mas são pra se entender mais ou menos a idéia.

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