Ufa! Depois de, o que, quase um mês, eu acho*, terminei de ler “A Relíquia”, de Eça de Queirós. Uma verdadeira relíquia literária, presente de minha dileta Fátima, há tempos já.

A Relíquia é um livro difícil de ler, difícil mesmo. Eu comecei a lê-lo e fui até a página 50, mais ou menos. Parei, fiquei muitos dias encostando nele só pra mudá-lo de lugar, e quando voltei, decidi que tinha sido um péssimo leitor e um péssimo consumidor de arte; voltei a lê-lo do início, dessa vez deixando de ser rabugento quanto ao vocabulário rebuscado do autor e suas longas descrições…

A boa vontade para com a obra me valeu uma experiência incrível, ainda que permeada por momentos de impaciência. Ao reler a primeira parte do livro reconheci adequadamente seu valor e sua perspicácia, o seu final me colocando quase na pele do personagem e ainda assim me fez ter horror às suas intenções. Esse jogo de emoções do anti-herói é tão mais incrível do que um herói romântico, é tão chato que as pessoas não percebam isso. Mas enfim…

Aí veio a segunda parte que também me tocou e me surpreendeu, tendo uma decaída do meio ao fim, pelo menos ao meu ver. A terceira parte foi muito interessante mas ao mesmo tempo foi o ápice de minha impaciência. Explico: na terceira parte Raposo e o doutor Topsius viajam para Jerusalém de noite no dia de Páscoa e fazem uma acidental viagem no tempo que os leva aos dias de crucifação de Jesus.

Bom… Os eventos e a forma como os dois mundos, o atual e o antigo se misturam, é muito interessante, foi algo bem escrito. Os outros ângulos da situação que são apresentados pela experiência do protagonista diante do julgamento e da crucificação de Jesus também despertam atenção. E, é claro, a revelação ao final do capítulo é incrível. Muito bem. Só que, on the other hand, o capítulo é cheio de descrições pormenorizadas, páginas inteiras de um estilo de narrativa que não só me deixava irritado como, em dois lugares diferentes onde li o livro, com sono.

Tirando isso, a história prossegue um tanto quanto irrelevante no quarto capítulo - é o menor deles. A irrelevância é a viagem de volta que serve como um prelúdio bem arquitetado para o gran finale arrebatador. A relíquia, a inutilidade da hipocrisia, a falta da coragem de afirmar - a visita da consciência do Raposo, tudo isso escrito de maneira genial e que faz o livro todo valer à pena.

Um livro sagaz, brilhante em sua concepção intelectual e que proporciona bons momentos de “imersão artística”; infelizmente maculado por alguns momentos que eu considerei por demais maçantes. É um livro desafiador não apenas por essas partes mas também pelo vocabulário, mas apesar do esforço (e quem sabe até mesmo por causa do esforço) vale a pena.

Aliás, separei um trecho pra mostrar o drama do vocabulário:

A sua túnica justa de bisso tinha a fímbria orlada de pinhas de esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandálias e tingidos de henneh, pareciam de coral; e ao meio da faixa que lhe cingia as costelas magras brilhava, bordado a ouro, um grande Sol. Os fiéis ajoelhados, quedos, sem um murmúrio, quase pousavam nas lajes a cabeça escondida sob os mantos e sob os véus; e com as cores festivas, onde dominava o vermelho da anêmona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flores e folhagens numa manhã de triunfo, para passar Salomão!

Alguém já sabia o que é uma fímbria (Sem falar do bisso)? Enfim…

* Esse post já está faz tempo nos rascunhos ;)

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