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A Era das Conseqüências

Capítulo 5

Você e eu: vamos falar de mim (parte 1)

A porta abre; finalmente um pouco de luz entra naquela sala tão escura. Mas é por pouco tempo. Sempre é.

Lorde entra na sala. A sala é circular e na parede diversos LED’s de baixa intensidade apenas situam a pessoa no ambiente, que continua muito, muito escuro.

Assim é a Sala Pineal. Ela fica na parte pública do grande complexo que é a SDU de Rio Claro. A Sala Pineal é aberta a todos, pois. Um lugar onde é possível ficar sozinho e em silêncio.

O silêncio que sufoca Lorde, aquele silêncio agora bem vindo, aparece novamente. Dominado pelo calor e pelos pensamentos horríveis que não saíam de sua mente, Lorde abriu os braços para o sono e para a melancolia de em nada pensar na noite passada. O rádio ficou ligado o tempo inteiro; a música dirigia suas emoções, nunca estiveram elas tão expostas a ponto de serem tão facilmente manipuladas. Se tocava uma música agitada, Lorde tinha vontade de entrar em movimento, seus instintos mais terríveis de vingança faziam cócegas nos seus brios. Caso tocasse uma música mais triste, ele ficava mais tranqüilo e tinha vontade de compor uma melodia, embora nunca fosse muito bom nisso. Apesar de tudo, vontades insatisfeitas; vencia a preguiça e a inação.

Mas aqui não havia música; ele retornou para o estado natural de todas as coisas, de onde tudo saía e pra onde tudo ia: o silêncio. Ninguém pode fugir do silêncio. “Seja cauteloso com aqueles que fogem do silêncio”, Lorde ouviu uma vez. Lorde agora enfrentava o silêncio, pois ele logo traria à tona tudo, absolutamente tudo. Será?

Era pra isso que ele tinha ido ali à manhã do dia 33… Um dia depois de não ter sido aceito na SDU por tentar salvar uma vida, um dia depois de ter sido tratado com frieza e ressentimento por uma das únicas pessoas que ele amou na vida, e um dia depois de ver duas das outras pessoas que amou serem assassinadas brutalmente por um homem mentalmente perturbado. Estava no silêncio e no escuro porque, pra onde quer que olhasse, para o que quer que prestasse atenção, não haveria escape. Ele teria que se concentrar no que viesse à sua mente, esse playground de emoções e pensamentos confusos.

Seus pais… Ele pensou em matar aquele homem, mas hoje percebe que ia cometer um ato terrível. Ainda tem vontade de matá-lo, ou talvez não, tinha vontade de bater nele, de machucá-lo, de feri-lo e vê-lo berrar de dor… É claro, sabe que fez errado. Ainda bem que Eristin estava lá para impedi-lo. E você ainda quer ser cavaleiro discordiano, Lorde? Como?

Eu quero ser cavaleiro discordiano? Reverendo parece ser uma boa idéia. Afinal eles são a equipe de apoio dos cavaleiros. Dizem pra onde devem ir, reconhecem conflitos, planejam ações… Ao mesmo tempo em que essa vida segura e também teórica, filosófica, parecia atraente, Lorde sentia que gostava muito das batalhas excitantes e das aventuras que viveria. Gostava de ler, mas em contrapartida suas leituras prediletas eram as aventuras e os episódios históricos de missões discordianas, que sempre fazia com que se imaginasse lá, no lugar dos personagens principais…

Mas por que ele se imaginava lá? Ele quis ser cavaleiro discordiano, gostou da idéia, e então… Não, é mentira, é mentira, estava mentindo pra si mesmo. Ele não quis ser cavaleiro discordiano de verdade. Ele prometeu isso pra Andreah e tinha gostado tanto dela… Bom, sim, Lorde, você tinha a amado tanto, que relutou em desfazer a promessa! Mas mesmo que tenha começado errado, continuou certo, não continuou? Não?

Mas quantas opções Lorde não perdeu por conta de seu direcionamento? Desde os treze anos estudando pra ser cavaleiro discordiano, ele não teve tanto contato com outras profissões. Será que teria gostado delas? Quão afunilada a sua vida se tornou por causa de sua decisão precipitada?

Mesmo que ele tenha escolhido precipitadamente, isso construiu a sua vida, e isso era tudo o que ele tinha. Ele com certeza podia destruir tudo, começar uma nova vida, pesquisar outras coisas, outros modos de vida, outras profissões, desenvolver outras habilidades… Essa idéia também aparecia como muito aceitável pra ele. Largar tudo, claro!

Ele não tinha mais pais. Tudo o que ele não fez pra Andreah fez ela ficar diferente com ele, tão, tão distante… E Berto… Berto era um grande amigo, mas agora era Lorde e Lorde. Ir para a América do Norte, ou quem sabe Europa, África, Ásia… São tantas opções!

Isso se Lorde quiser permanecer na Terra! As opções planetárias são gigantescas, existem tantos planetas colonizados pelos humanos quanto cidades na Terra, se não mais.

Mudar de ares, talvez seja disso que ele precise. Talvez seja disso que eu precise, é… Mudar, viajar, viver! Conhecer novas pessoas, novas possibilidades!

Lorde levantou-se do chão e deu uma última olhada para o nada escuro da sala. Ele esperava o que daquele lugar? Estava estranhamente controlado, apesar da dor que sentia permanecer ali, jogada em algum canto, escondida atrás da porta do seu inconsciente… Lorde sentiu uma onda de calor por seus pensamentos. O que ele seria capaz de sentir? O que ele seria capaz de fazer? Evitou pensar em seus pais e saiu da sala. Voltou para a claridade do dia.

Ele estava passando por uma das escolas onde mais realizou trabalhos na sua vida. Aquele banco, aquela árvore, aquela janela… A Instituição de Ensino Cavaleiro João Ramirez Almeida, conhecida como Cavaleiro João, é uma imponente construção. Com sete andares, pintura branca e bege, grandes janelas triangulares com bordas douradas, o prédio ainda possui um agradabilíssimo jardim, por onde Lorde passava rapidamente um olhar.

Ele entrou na escola e passou por diversos corredores até chegar onde queria: a sala de pensamentos. O lugar, com todas as paredes revestidas de papel eletrônico, serve de refúgio pra quem precisa pensar, ter uma idéia, ficar sozinho… Como uma sala pineal, mas aquela sala não guardava nada de silêncio; através das milhares de palavras, escritas em letras pequenas e grandes por quem quisesse usar a tal sala, faziam um mudo barulho, uma quieta algazarra.

Lorde lançou um olhar rápido aos últimos escritos; alguém havia colocado no papel “a vida não é como um papel eletrônico”. Lorde riu. Mais adiante, alguém escreveu uma seqüência de números bizarra: “24 – 32 – 50”, e mais abaixo, com a mesma caligrafia, alguém colocou “42 é a resposta!”.

Lorde pegou no chão, no centro da sala, a caneta digital usada pra escrever no papel. Arranjou um cantinho, bem embaixo na parede, onde pôde escrever: “Eu estive aqui”.

Logo que Lorde terminou de sorrir ao olhar pra sua “grande inscrição” no muro dos pensamentos perdidos, Lorde tentou se lembrar quantas vezes esteve ali. Muitas, mas poucas vezes realmente escreveu alguma coisa.

Lorde então se aproximou do único intervalo de papel eletrônico na parede inteira (tirando a porta), uma alavanca que alternava entre as semanas de escritos – a cada semana, o papel arquivava tudo que foi escrito e deixa tudo branco. Lorde apertou a alavanca e a deixou apertada por um bom tempo. Ver as palavras mudando tão depressa, sem nenhuma ordem específica deu a impressão de estar numa máquina do tempo: aquilo ali era história, sem dúvida, mais importante do que qualquer Guerra da Luz. História de pessoas reais, que tinham suas dúvidas, seus conflitos… Pessoas que precisavam de ajuda passaram por ali, e certamente encontraram alguma coisa.

Lorde soltou a alavanca. Lembrou-se que uma vez escreveu alguma coisa perto da alavanca… Sim! Era por ali perto, mas o que era? Não adiantava, ele pensou, ele não encontraria. Teria que ter muita sorte pra fazer com que a alavanca acabasse por escolher a semana em que ele escreveu isso. Mas, curiosamente, ele encontrou uma inscrição familiar, logo abaixo da alavanca.

Lorde havia escrito “Ergo”. Agora tudo fazia sentido, sim, ele começava a se lembrar… Lorde tinha dezessete anos quando escreveu isso, e pensou seriamente em desistir dos cavaleiros discordianos. Leu sobre o desenvolvimento de um longínquo planeta chamado Ergo e se entusiasmou. Tentou ligar pra Andreah mais uma vez; novamente, o telefone inexistente… A idéia logo saiu da cabeça dele. Mas agora… Agora tudo mudou. Talvez seja uma boa hora de começar a considerar Ergo.

Alguém abriu a porta. Lorde virou-se e viu que Eristin entrou. Trajando roupas que indicavam seu não-trabalho, ele perguntou o que estava fazendo ali.

- Vim ver como você está – disse Eristin.

- Eu estou… Bem, até. Considerando tudo o que passei ontem, até que eu estou ótimo – disse Lorde, com um misto de sinceridade no início e ironia no fim da frase.

Eristin começou a andar pela sala, verificar os escritos na parede.

- Vim até aqui oferecer-lhe uma chance, Lorde.

Lorde voltou a olhar para Eristin com ar de desconfiança.

- Chance? Pra que… Em quê?

- Eu admiro sua determinação e reconheço que uma falha talvez possa ser superada por um… Um esforço maior.

- Está falando do teste final?

- Sim.

Lorde voltou a olhar para a parede. Viu a mensagem simples: Ergo.

- O que você me propõe? – inquiriu Lorde, decidindo dar uma chance pelo menos à prosa.

- Ontem seu ódio foi muito forte pelo assassino de seus pais… Os médicos que foram até a casa deles confirmaram que foi uma cena deprimente.

- É, foi sim. As providências estão sendo tomadas, já?

- Sim, estão. Espero que não se incomode… Ou há algum problema? – Eristin esperou resposta de Lorde. Não recebeu nenhuma – Bem, enfim. Nós pegamos o assassino e ele está preso, bem guardado, numa casa de psiquiatria aqui mesmo na cidade. Ele será transferido logo para Porto Alegre, mais ao sul do continente.

- Olha, Eristin, me desculpe pelo meu descontrole. Eu tive um dia péssimo, meus pais morrendo daquela forma, na minha frente… Sei lá como não entrei em choque, desses de ficar parado durante dias. Minha raiva foi tão grande que, acho que se não encontrasse um “prisioneiro de tortura” aquela noite eu ia acabar explodindo… Mesmo que o tal homem fosse o próprio assassino dos meus pais, sei lá, eu acho que foi pela minha raiva e…

- Tudo bem, mas e agora? Você se sente melhor?

- Sinto-me melhor sim, obrigado. Não no modo como me sinto propriamente dito – emendou Lorde, com rapidez – ainda sinto muito pela perda de meus pais, meu fracasso ontem… Mas, sim, estou mais controlado hoje. – Lorde pensou se contava ou não dos planos que tinha pra Eristin. Resolveu ficar quieto e deixar que ele propusesse de uma vez aquilo que tinha pra dizer.

- Então, Lorde. Vim aqui te dar uma chance de se integrar à SDU ainda este ano.

Lorde estreitou a visão pra Eristin, não compreendendo a situação. Como?

- E… Bem, o que eu teria que fazer pra… Pra isso?

- O que você tem que fazer, eu calculo que não seja fácil – começou Eristin, com tato, mas seu jeito não era muito de cerimônias – mas é o único modo, se não quiser esperar mais um ano. Entre numa sala junto com o assassino de seus pais e controle-se, não faça nada, não o ataque, por cinco minutos.

A proposta parecia absurda, absolutamente descabida! Eristin propunha que ele visse de novo aquele rosto monstruoso que tinha atacado seus pais, ficasse numa sala com ele, durante cinco minutos… Por que, por que exigia isso dele?

- Se eu for capaz de me controlar… Você me aceita na SDU? – perguntou Lorde, em tom de ceticismo, conferindo bem a proposta.

- Isso.

- Você sabe que o que você me pede é muito mais do que jamais pediu a qualquer outro.

- Bem, considero que esteja no mesmo patamar que pedir a alguém pra deixar o amigo morrer pra salvar uma pista em uma missão – concluiu Eristin e, virando-se para deixar o lugar, disse: - pense no assunto. O nome do assassino é Mariano. Ele sai de lá depois de amanhã. Estarei onde sempre estive… – Então, saiu da sala.

Lorde olhou uma última vez para o bilhete que havia deixado pra si mesmo: Ergo. Ao lado dele, outro, com caligrafia bem diferente. O desconhecido alertava: “Encare seu maior desafio e você será um herói. Fuja e você será um covarde. Não adianta explicar depois, esse é o jeito como as pessoas vão te ver”.

Lorde então sentiu como se o bilhete fosse algo que despertasse para o verdadeiro conteúdo da proposta, aquilo que estava em seu núcleo; era fundamental, óbvio até, pois. Era um desafio; o autocontrole que ele não teve no teste, aplicado de forma muito mais terrível. Um desafio, claro, sem dúvida… Um desafio que o deixava com muito mais medo do que qualquer outro, porque agora que ele compreendia o que ele era de verdade, ficava extasiado com a possibilidade… Mas o desafio era tamanho que ele sentia medo de não ser capaz de vencê-lo. O bilhete dizia que, ao enfrentar o maior desafio, o homem torna-se um herói… Mais o que acontece se ele perde? Torna-se um fracassado, ou um mártir, ou um esquecido pela história? Então se lembrou de que a verdadeira história, a que podia não fazer diferença para as pessoas do futuro, mas fazia diferença para aqueles que sorriam e sofriam ali e naquele exato momento, estava bem à sua frente, na infinidade de recados aparentemente sem sentido que foram deixados há mais ou menos quatro anos naquela sala.

Lorde pensou que seu desejo de fuga não era nada mais do que isso: fuga. Aquilo tudo o deixou inquieto e ele queria ir embora, fechar os olhos e fazer tudo desaparecer. Mesmo que a decisão tenha sido tomada de modo frio, era o que, apenas seu cérebro ciente de que a qualquer momento ele poderia cair e quebrar por causa de seus sentimentos… Uma atitude preventiva de sua consciência! Mas ele não podia fazer isso, agora sabia que os motivos que o seu cérebro lhe deu são falsos… Incríveis, pareciam para aquele Lorde de alguns minutos atrás tão verossímeis. Ir embora, abandonar tudo! As pessoas precisam de vidas novas! Mas talvez a construção de uma vida nova passa pelo caminho da vitória, jamais por sair do caminho… Coisa que, percebeu ele na última de suas voltas pela sala, num bilhete bem próximo ao chão, um simbólico achado arqueológico. O desconhecido assim dizia: “Se a vida nova não aparecer depois da morte matada da vida velha, a vida nova vai ser sempre atormentada. SÃO OS FANTASMAS DA VIDA VELHA. NÃO DÁ PRA FUGIR”. Lorde encarou as letras em caixa alta rabiscadas. A pessoa devia estar bem atormentada mesmo…

“Obrigado, sala dos pensamentos”, pensou Lorde, antes de puxar a alavanca de volta para aquela semana e ir embora dali.

Oitenta minutos depois o tarro parou em frente a uma grande mansão no meio da área rural de Rio Claro. O jardim era enorme e estava cheio de pessoas. Nenhuma sozinha. Alguns precisavam de ajuda pra andar.

Eristin colocou seu rosto na frente do identificador, depois Lorde o fez. O portão abriu e os dois entraram no terreno.

O instrutor e o aluno caminharam pela trilha entre a grama por quase um minuto até chegar à porta. Eles foram recebidos por uma mulher de meia-idade que se identificou como Norman. Eristin já a conhecia e lhe apresentou Lorde. Foram convidados a entrar.

- O que veio fazer aqui hoje, Eristin? – perguntou Norman, sorridente.

- Hoje preciso de um favor seu, Norma. Quero ver Mariano.

O sorriso desapareceu do rosto de Norman.

- Eristin, não é recomendável, ele…

- Eu sei que não, mas preciso vê-lo. Na realidade, quem precisa vê-lo é ele.

- Por que quer vê-lo, Lorde?

Lorde olhou para Eristin procurando o aval para dar a resposta verdadeira. Ele levantou as sobrancelhas indicando que a decisão, afinal, era dele.

- Eu preciso vê-lo e não atacá-lo durante cinco minutos – disse Lorde, calmamente, pra tentar fazer do objetivo da visita o menos absurdo possível.

Norman riu – Como?

- Eu preciso entrar em uma sala com ele, e não fazer nada contra ele, durante cinco minutos – repetiu Lorde, um pouco mais detalhadamente.

- Ele é o filho do casal assassinado por Mariano, Norman.

Norman olhou com preocupação para Eristin.

- Isso é alguma brincadeira, Eristin?

- Receio que não, Norma.

Eristin, Norman e Lorde dirigiam-se até a sala onde Lorde encontraria o algoz de seus pais. Lorde estava inquieto, e estava esforçando-se para controlar sua angústia – afinal, precisaria de mais autocontrole dentro do que fora da sala. Eles estavam passando por um longo corredor quando Norman recebe uma conexão no seu relógio. Ela leva-o até perto da face e conversa com algum de seus assistentes. Ela diz a alguém que está ocupada; pede que outro faça o que quer que seja…

Os três chegam à última sala do corredor e Norman abre-a. Ela entra na sala e depois volta, um pouco irritada.

- Desculpe-me a falha, eu pedi ao Rufio que trouxesse Mariano, mas ele não veio ainda. Vamos esperar um pouco…

- Lorde! – berrou uma conhecida voz no corredor, longe.

Era Andreah.

- Andreah… Mas o que… – murmurou Lorde quando a viu. Ela começou a correr e, ao chegar perto de Lorde, disse:

- Por favor, não faça isso, eu te peço, por favor!

- Calma, Andreah, calma, o que foi, o que aconteceu? – Perguntou Lorde, amedrontado pela euforia dela.

- Eu sei o que aconteceu com seus pais, eu… Eu sinto muito – começou ela – E eu também sei o que você quer fazer, mas eu sei que você só quer ser cavaleiro pela promessa que me fez!

- Você sabe coisas demais, não acha? – inquiriu Eristin, sarcástico.

- Norman, podemos entrar nessa sala e conversar um pouco? – perguntou Lorde.

- Sim, à vontade. Mariano logo chegará.

Lorde e Andreah entraram na sala escura; ele acendeu a luz, e Andreah pensou em abrir as cortinas. Mas ela não estava se preocupando muito com isso no momento. Tinha outras prioridades.

- Andreah, como você…

- Não importa, acho que tenho pouco tempo – disse Andreah. Lorde olhou-a estranhando a frase – Não, digo, pra falar com você.

- Por que você não quer que eu fale com Mariano?

- Porque isso é loucura, Lorde! Loucura! Admita que você só quer ser cavaleiro por minha causa!

- Não, isso não é verdade! – disse Lorde, irritado.

- Lorde, você vai acabar cometendo uma loucura, você não quer realmente se tornar cavaleiro, não vê! – berrou Andreah – você foi levado a isso por mim, e eu peço, por favor, que me perdoe…

- Eu não posso te perdoar Andreah, o que há de errado com você, você… Nem me fez alguma coisa pra eu te perdoar! – disse Lorde, assustado com as atitudes dela – Você tem medo que eu mate Mariano? É disso que tem medo? Acha que eu não vou conseguir?

- Que Mariano, Lorde, você já tá chamando aquele homem pelo nome?

- Humpf! – Lorde virou-se, logo depois voltou a encarar Andreah – ter descontrole diante de um nome é a última coisa que eu preciso agora…

Um pouco de silêncio. Andreah prosseguiu.

- Não é medo, Lorde, eu quero que você saiba que eu confio, eu confio que você… – começou ela, tropeçando nas palavras.

- Confia? Não, você não confia não…!

- Lorde, escuta… – Andreah sentou-se à mesa – A gente tem uma história… De quando éramos… Crianças, até. E eu… Eu realmente quero que isso acabe.

Lorde ouvia aquelas palavras com um misto de incompreensão, redenção, rebeldia, intolerância, alívio, mas principalmente incompreensão. Um arrepio… Ele se recusava a entender, mas talvez entendesse a frase – só não entendia que aquele dia, um dia, chegaria – ou que chegou…

- Andreah, eu…

- Isso precisa ter um fim, Lorde – Andreah olhava para o chão – E eu não quero que você seja um cavaleiro discordiano por causa de mim. E não quero, que passe, por isso… – ela gesticulou, a mão aberta apontando pra qualquer lugar - Também… Por minha causa.

Lorde então olhou pra ela. Ela com certeza não parecia ser a mesma Andreah que foi um dia. Lorde não se sentia mais livre com isso, entretanto; as palavras dela não tinham o efeito libertador que ela pretendeu ter. Não soaram como o quebrar dos grilhões, soaram como uma desilusão que lhe tirou o solo – e que, sem dúvida alguma, não colocou outro no lugar.

Lorde percebeu que ficou algum tempo olhando pra ela, que não lhe devolvia o olhar. Sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. Toda sua vida se dividia ali, naquela sala escura e empoeirada; não era o lugar mais glorioso e cinematográfico pra tomar uma grande decisão como essa. Lembrou-se de Mariano e Eristin. Lembrou-se de Ergo, da vida nova… Lembrou-se da fuga, da sala dos pensamentos. Lembrou-se de seus pais, da SDU, lembrou-se da Andreah que conheceu… E da nova.

Alguém bateu a porta. Logo depois, Norman abriu apenas uma parte dela e disse:

- Mariano está aqui. Você quer vê-lo ou não?

Andreah levantou o rosto e seus olhos lacrimejados queriam responder por ele; ela balançava a cabeça pra induzir em Lorde a resposta…

- Sim – ele respondeu.

- Tudo bem. Quando a mulher sair, ele entrará – e Norman fechou a porta.

- Por que, Lorde, por quê? Por que você teima em não esquecer o passado? – perguntou Andreah.

- Por quê? Andreah, me dá um TEMPO! – berrou Lorde – por causa de um número, por causa de um número eu fiquei sem falar com você durante esses anos todos, você acha que eu sou o calhorda da história, e além de, de hipócrita e falso e… Ainda acha que sou idiota, burro, ignorante, sei lá, inconseqüente, talvez?

Andreah não respondeu.

- Você não sabe o que eu penso e o que eu sinto, muito, muito menos o que eu quero. Eu vou fazer isso, e não é por você, pode ter certeza. Se eu não fizesse – ponderou derradeiramente Lorde – aí sim, seria por você.

Andreah e Lorde trocaram um último olhar que feriu ambos. Andreah levantou-se e saiu da sala bruscamente – violentamente

Lorde sentou-se à mesa e cobriu o rosto com as mãos. Como é possível tudo acabar assim? É certo que durante toda sua adolescência ele sonhava com um momento em que os dois se encontrassem ou ele finalmente conseguisse falar com ela; e ele imaginava tanto, tanto… Chegou a fantasiar até mesmo o dia em que eles talvez terminassem. Afinal, estar preparado para o pior é necessário… Mas nunca achou que fosse assim, nunca…

A porta abriu. Ele se assustou e lembrou-se de onde estava; imediatamente ele se recompôs na cadeira, ainda que soubesse que quem receberia naquela sala nada convidativa era a pessoa que possivelmente mais odiava e mais odiaria em toda a sua vida. O tempo pareceu correr devagar. Ele precisava se controlar. Precisava controlar suas emoções…

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