É uma pergunta o tÃtulo, mas esse não é um daqueles textos que duvidam de certos conceitos futurológicos. Por exemplo, quando você vê um tÃtulo como “Policiais eficientes?” você logo imagina que é um artigo falando da ineficiência policial. Normal, né? Pré-supomos que há uma ironia aÃ. Mas não há. Enfim, esse meu post é sobre escolas, e qual é a minha idéia de escola ideal (Nota: se você tem o mÃnimo interesse por esse post, não pule, não deixe de lê-lo. Eu comecei escrevendo despretensiosamente, mas depois percebi que ele foi um dos mais importantes que eu já escrevi.)
Enquanto estrutura fÃsica, escolas deveriam ser lugar de pesquisa, confraternização e ajuda. As maiores salas de uma escola que idealizo para o futuro (não digo que vá ser assim naturalmente, mas talvez seja por essa guerra que lutarei) deverão ser a biblioteca e o laboratório de informática. As demais salas deveriam ser preenchidas com mesas redondas, outras com sofás, laboratórios, praças de alimentação (ou uma delas num lugar grande também), e muitas com cursos paralelos desses que você encontra espalhados por aà como pintura em óleo sobre tela, yoga, e outros mais inusitados, como pôker, manutenção de relógios - a idéia é ter sempre salas com os mais variados tipos de cursos extra-curriculares.
A Escola deveria ser um prédio que abrigue essas salas mas ele deveria conter em seu território também uma grande área verde, e seria legal ver um uso consciente dos recursos naturais, como usar água da chuva, captar energia solar, etc. O espaço verde seria bem útil também para outros cursos, curriculares e extra-curriculares, e deveria haver um tipo de horta ali de onde parte da comida utilizada pelos usuários da escola fosse retirada, etc. Integração com a natureza é importante.
A escola não seria organizada por turmas, de maneira nenhuma, e não haveria uma grade curricular ou um programa escolar. A escola, enquanto estrutura fÃsica, seria apenas um tipo de fortaleza do conhecimento, e estaria sempre aberta (digo, da manhã até o fim da tarde, mas enfim, vocês entenderam o sempre) para todas as pessoas, de todas as idades, pra qualquer interesse, seja um lugar pra pensar*, pra pesquisar algo nos livros ou na internet, pra discutir uma idéia com um professor ou pra se encontrar com os amigos, etc.
O funcionamento da escola (agora falando de uma maneira mais geral…) seria por meio de trabalhos. O aluno tem um interesse, e faz um trabalho sobre isso. O “trabalho” em si, até mesmo pela sua etimologia, poderia ter outro nome (os alunos da Escola Lumiar tem o nome de aprendizes, porque aluno vem do latim alumni, “aquele que não tem luz”, o que é uma denominação ruim), como “apresentação”, “estudo” ou qualquer coisa do gênero. O objetivo do trabalho é pesquisar sobre um assunto de interesse do estudante e apresentá-lo a um instrutor (chamado na Lumiar de mestre), que não lhe avaliará com uma nota, mas com opiniões gerais sobre o que foi feito, comentários, correções, etc. Por exemplo, acho que toda criança tem curiosidade de saber como “um troço pesado” como um avião consegue voar. Aà que se inicia o trabalho de pesquisa e de apresentação do que foi pesquisado pelo aluno.
É claro que aà os professores se perguntam: mas como que nós ficamos nessa história toda? E eu respondo: ficam muito melhores.
Os professores não tem apenas uma, mas três funções primordiais nesse sistema de educação - e quando eu disse “escola de uma forma geral” é porque nesse sistema não existe um certo dualismo escola-vida. Há um pensamento comum (e devo confessar que um pouco correto) de que escola é uma perda de tempo. Quantas vezes já não ouvi alguém dizer que enquanto você está na escola ou fazendo coisas pra escola você poderia estar “vivendo” (de alguns eu ouço “dormindo”, mas tudo bem). Esse dualismo, que separa a escola da vida, não funciona nesse novo sistema. O que acontece é, digamos assim, uma mistura da vida pessoal de alguém com a escola, que não é um lugar pra onde você vai de manhã, fica trancado estudando por vezes coisas inúteis, e por vezes coisas pelas quais não se interessa, é obrigado a vomitar na prova o conteúdo que decorou na noite passada, etc.
Os professores exerceriam três funções distintas: uma pessoa poderia agir tanto em uma função quanto em outra, sem problema algum.
A primeira função seria a de professor “residente” (já arranjei codinome e tudo nessa minha teoria). Esse ficaria dentro da escola e seria o responsável por avaliar a versão final das apresentações dos alunos - ou seria o professor que dá um curso especÃfico.
A avaliação não é feita por notas, mas por “conclusões” - coisas como “bom” - que inclui desde razoável até muito bom - “refazer a apresentação”, para trabalhos com muita incorreção nos dados ou uma apresentação mal feita, e “ótimo”, que inclui uma apresentação realmente incrÃvel, impecável, etc.
O professor responsável por essas avaliações, além da conclusão, faria também comentários construtivos acerca do modo como a pessoa apresentou o trabalho e de algum erro na “ciência” do estudo. É importante que esse professor residente não exerça nenhuma das outras duas funções sobre o mesmo aluno para evitar conclusões tendenciosas.
O sistema de currÃculo funciona mais ou menos assim: as apresentações de cada aluno seriam guiadas pelo interesse do estudante. Cada vez que algum estudante faz uma apresentação, ela é armazenada num tipo de ficha, que, hoje em dia, obviamente seria virtual. Essa ficha contém todas as apresentações feitas pelo aluno, com as respectivas conclusões e os “assuntos abordados” - o professor residente coloca junto com o registro da apresentação por quais matérias o aluno “passou” ao fazer a pesquisa, ou seja, com quais matérias ele teve contato.
Por exemplo, se ele fez a pesquisa sobre o avião, que não cai. Provavelmente, pelo menos eu acho, nas pesquisas atrás dessa explicação ele acabou chegando na gravidade. A apresentação não é algo simples; é uma explicação, do modo mais dinâmico possÃvel, de uma coisa pela qual o estudante se interessa, relacionando o conteúdo com o conhecimento estudado. Portanto não basta o aluno explicar que o avião não cai porque o fator x é assim. Quando ele menciona o fator x, ele tem que explicar como o fator x age, toda a mecânica e lógica do fator x, que ele deve ter estudado. Portanto, supõe-se que ele compreende o fator x.
E, fazendo uma nota necessária, esse tipo de aprendizado é milhões de vezes mais eficiente. Se um menino se interessa por um macaco hidráulico, ele acaba chegando naquele estudo de hidrostática que fala sobre a multiplicação de força e tudo o mais. Ao contrário do que fazemos no segundo ano, não vão haver várias contas repetivivas e mirabolantes que apenas nos fazem decorar fórmulas, e um professor cobrando o assunto numa prova, etc. Ele vai estudar aquilo porque está interessado em saber como um macaco hidráulico funciona, e através desse interesse esse vai ser um conteúdo que potencialmente será útil para ele (porque talvez ele siga essa profissão), e através do interesse ele vai entender o conteúdo, entender a lógica da coisa sem precisar ficar repetindo contas e contas. E explicar para o professor residente é a última prova para conferir se ele entendeu mesmo o assunto.
Enfim, voltando, o professor anota na ficha virtual do aluno a apresentação dele, a conclusão que ele obteve e os assuntos que ele aprendeu. É importante que a ficha seja virtual porque um aprendiz nesse sistema jamais “pertence a uma escola”, ou seja, ninguém está matriculado em escola nenhuma. As escolas são lugares abertos para todas as pessoas, e isso significa que eu posso fazer uma apresentação em qualquer escola, e a rede de computadores apenas possibilita essa integração porque a ficha do aluno estaria disponÃvel em qualquer lugar que ele fosse.
Agora, continuando: esse foi o papel do professor residente. Já voltaremos à questão do “currÃculo”, porque há ainda mais uma coisa interessante a falar.
Mas, por enquanto, vamos falar de outras funções. O professor pessoal é aquele que não vê a apresentação final, mas ajuda o aluno no desenvolvimento da apresentação.
O professor pessoal não fica nas escolas, como o residente. Ele pode ter vários alunos, de várias faixas etárias, e o que ele faz é ajudar na pesquisa (essa parte deveria ser pequena), na produção de apresentações mais complexas (um exemplo simples, ajudando a fazer maquetes quando o estudante quiser fazer uma para uma apresentação) e ele é quem ouve a apresentação do aluno antes de ir para o professor residente - ele corrige informações e critica o trabalho, ajudando o aprendiz a moldar a versão final.
O professor pessoal é aquele que tem uma relação mais direta e extensa com os alunos. Ele, ao invés dos professores atuais que estão inevitavelmente condenados a uma visão de “rebanho” dos alunos, pode ter um olhar individual, personalizado, digamos assim, para cada aluno. Além de ajudar na apresentação, ele ajuda no encaminhamento do aluno. Ele reconhece tendências; será que aquela criança está mais interessada em saber sobre computadores ou sobre o corpo humano? Aquele adolescente quer saber como funciona um motor de carro ou quer descobrir como funcionam as relações diplomáticas internacionais? Percebendo essas tendências do aluno, o professor pessoal é aquele que indica livros, palestras, filmes, e mesmo matérias que podem ser de interesse do aluno. É ele quem vai dirigindo, encaminhando o aluno e o modo como ele seleciona os conhecimentos que quer aprender.
Agora, em contraste ao professor pessoal (e perceba que este também não força o aluno a nada), há o tipo, na minha opinião, mais legal e divertido de professor: o professor oculto.
Essa é, na minha opinião, não sei se uma idéia inovadora, mas é uma idéia muito, muito legal. Acompanhem a minha loucura e vejam se isso não lhes parece muito divertido:
O professor residente já estaria lá na escola para avaliar as primeiras apresentações de uma criança. O professor pessoal seria escolhido pelos pais quando a criança começasse a fazer apresentações. Entretanto, o professor oculto estaria presente na vida da criança desde que ela nasce.
O professor oculto seria escolhido pelos pais desde o momento em que ela nasce. Ele/ela será como um padrinho/madrinha para a criança: visita-a desde sempre, como se fosse mais um amigo dos pais da criança.
Afinal, supõe-se que alguém tenha mais que um amigo que possa visitar tal pessoa. Dessa forma, a criança / o adolescente não tem como descobrir, a não ser que o pai conte, quem é o professor oculto dela, pois pode ser qualquer “amigo” dos pais. Pode ser qualquer pessoa que visite a casa com relativa freqüência.
E qual é o papel do professor oculto? Enquanto o professor pessoal indica coisas para os estudantes de acordo com suas tendências de interesse, o professor oculto faz o contrário. Exatamente.
Porque pense: é legal fazer o que se tem vontade no sentido de aprender o que se tem vontade de aprender. Mas muitas vezes, por preguiça ou desconhecimento de determinados assuntos, não há interesse de aprender outras coisas. Isso é ruim por dois motivos: essas coisas que a pessoa deixa de aprender podem vir a ser úteis. E o outro motivo é mais subjetivo: isso restringe a visão de mundo da pessoa. O legal da educação que temos hoje em dia, ou pelo menos um pequeno ponto positivo, é que, mesmo que obrigados, temos contato com várias coisas diferentes. E isso amplia um pouco mais a nossa mente (ainda que o fato de que isso tudo é feito por obrigação acaba fechando ainda mais a mente).
Então, temos o velho dilema: como fazer com que alguém tenha contato com várias seções diferentes do conhecimento e do estudo humano sem obrigá-la a isso? Simples: dando um jeito de apresentar a coisa à pessoa sem que pareça uma questão de escola. Fazendo parecer uma coisa do cotidiano.
Afinal, quantas vezes na nossa vida não temos contato com idéias e coisas assim, do nada? Tive contato com o discordianismo ao ler um post, por total coincidência, no 1001 Gatos. Talvez, como eu gostasse de filosofia, eu teria contato com ele mais tarde, mas não tenho certeza. Tive contato com linux pelo escritor-fundador do 1001 Gatos, o Ibrahim. E eu nem esperava!!! Quantas coisas maravilhosas que mudam nossa visão de mundo ou nosso cotidiano de uma maneira fantástica acontecem assim, por acidente?
É esse espÃrito de acidente que quero introduzir. As crianças não precisam ser totalmente enganadas; é possÃvel lhes contar que há alguém que elas conhecem que é responsável por lhe apresentar idéias diferentes, coisas com as quais elas ainda não tiveram contato, mas que poderia ser legal que aprendessem. Isso é legal, é como um jogo! Como acidentes assim acontecem o tempo todo, os estudantes não saberiam ao certo quem é o oculto, mas tentariam adivinhar; ao mesmo tempo, isso forçaria os professores “escondidos” a serem ainda mais sutis, desenvolvendo métodos cada vez mais criativos e que simulem cada vez mais uma “coincidência” para apresentar alguma coisa diferente para um aluno.
Enquanto o professor pessoal ajuda o aluno, o professor oculto ajuda também, mas em outro sentido. O professor pessoal “constrói” o aluno, potencializa nele o conhecimento. O professor oculto pode acabar “destruindo” um velho aluno para dar origem a um novo por causa de uma conversa, de uma nova idéia, de uma nova visão de mundo - ele potencializa a criatividade. E assim, há equilÃbrio; as duas forças atuando causam esse balanço no desenvolvimento do estudante.
Como eu dei exemplos nos outros casos, vou fazer isso aqui também: vamos supor que um pré-adolescente de seus 11, 12 anos seja fissurado por biologia; goste de estudar células, corpos humanos e animais, etc. Ele provavelmente tem outros interesses, mas esse é o principal.
O professor oculto não olharia para ele pensando em reforçar o interesse dele por biologia. Nãããão… Esse professor é malvado. O professor tem que pensar numa maneira divertida e sutil para apresentar uma matéria completamente oposta para o garoto. Se der certo, ele se sentirá orgulhoso: quem sabe um talento não desponta na, sei lá, mecânica quântica? Um talento antes ofuscado pela obsessão por biologia? E, se der errado, será ótimo - isso fortaleceria ainda mais o gosto do menino pela biologia, não? E, é claro, faria o professor oculto se esforçar mais da próxima vez, talvez em outra direção. É um constante desafio.
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Quem usa linux sabe como seus programas são gerenciados. Pacotes. Quando um pacote referente a um programa usa um determinado pacote, mais genérico, usado também como suporte para outros programas, chamamos este tal pacote de dependência.
Ora, não é uma idéia intuitiva e simples? Por que o nosso currÃculo escolar não funciona assim também?
A minha idéia de ensino funciona muito bem com crianças e adolescentes, você deve estar pensando, e ele substituiria o ensino fundamental e o médio. Mas e o ensino superior, como se encaixaria nele? Do mesmo modo como hoje ele quase se encaixa.
Vamos pegar, por exemplo, a faculdade de administração. Numa imaginária “reforma” do sistema educacional, o que ocorreria em primeiro lugar é o “mapeamento” de cada universidade. Quais são as matérias estudadas? Quais são as matérias essenciais (um médico precisa saber de um determinado “mÃnimo” de assuntos de medicina pra poder ser médico, não é?) e quais são opcionais? Aà nós temos os nossos “pacotes”. E, a principal pergunta: qual matéria precisa de outra pra poder ser estudada? - Pronto, temos as dependências.
O mais importante mesmo é o mapeamento dos pacotes estudados no ensino “geral” - essa mescla de fundamental e médio - e sua relação com os estudados no ensino “especializado” - o superior. Quais “pacotes” do geral servem também para o especializado? Quais pacotes precisam de um upgrade (aprofundamento)? Quais são necessários para que um aluno ingresse no ensino especializado com o básico do que precisa saber pra começar a estudar bem a profissão?
Esse mapeamento faria a coisa toda muito mais simples. No ensino geral, o estudante se guiaria pelos interesses. Se quase chegando no ensino especializado, ele já soubesse que quer fazer, por exemplo, engenharia quÃmica, ele leria o “mapeamento” das matérias e veria quais ele teria que estudar até a data do “upgrade” dele (dependências), quais matérias ele teria que estudar de novo (digo, se aprofundar um pouco mais) e aà ele já teria uma noção do que ele aprenderia lá também.
Aà pra entrar no ensino especializado o aluno teria apenas que fazer um teste personalizado, especial pra avaliar se ele realmente “se lembra” de tudo o que seu currÃculo diz que ele aprendeu (teste esse que poderia ser uma entrevista com um professor residente que aplicaria esse teste personalizado). Nesse ensino superior (ou, pra cunhar já uma sigla em relação ao novo nome, no “ee“) haveriam aulas normais (aulas do jeito como as conhecemos hoje), matérias obrigatórias (afinal, se eles estão lá pra aprender tem coisas que eles escolheram, eles inevitavelmente têm que aprender, mesmo que seja chato. Já são crescidos e a fase do estÃmulo passou, eles agora têm que aprender o necessário, certo?) e etc. A fase da pesquisa e do “se vire”, bem presente nas faculdades atuais, se manteria, é claro. As avaliações podem ser feitas com simulações de aplicação prática do conteúdo de sala de aula. O professor pessoal e o oculto perderiam suas funções, e uma nova função surgiria: os professores de manutenção.
Como qualquer programação (como no Linux) existem bugs. Esses professores de manutenção serviriam como os programadores que corrigem esses bugs, ou seja, pode ser que aqueeeele aluno, do avião que não cai, tenha entendido muito bem porque ele não cai - mas pode ser que ele não saiba fazer cálculos. Ou, pode ser que aqueeeele estudante de engenharia quÃmica tenha um pouco de deficiência em ortografia e gramática. Ou seja, duas matérias que são primordiais, e que para não serem obrigatórias são colocadas em segundo plano. Durante o ensino geral, introduzir noções de gramática, ortografia e matemática ficam por conta do professor pessoal e do oculto, mas caso acabe ocorrendo uma defasagem no ensino destas, os professores de manutenção estão lá pra revisar essas matérias.
Bom, enfim, o que é importante perceber é a extrema flexibilidade desse sistema. Os cursos que eu chamei antes de extra-curriculares também tem sua área garantida no currÃculo virtual do aluno, e contam como “pacotes” no mapeamento de estudos. O aluno não estuda nunca “para uma profissão”, o aluno apenas “está no ee”. Por que? Porque o que ele estuda são esses pacotes, esses mini-assuntos empacotados, que se relacionam com outros por dependências, que podem servir para vários cursos. Ou seja, é necessário fazer uma padronização do ensino de, por exemplo, “filosofia kantiana”, para que se saiba que o que é estudado ali é válido para vários outros cursos. O estudante nunca é “estudante de medicina” ou “de enfermagem”, é estudante de ensino especializado, e só vai ter uma profissão quando completa o mapa de estudos. Quando ele tem todos os “pacotes” necessários para uma determinada profissão.
E isso é excelente para os indecisos: isso já acontece agora, mas o sistema faria disso algo muito mais integrado e fácil, sem burocracias - se eu faço, sei lá, os pacotes referentes à “hotelaria”, e de repente resolvo fazer “publicidade”, o que eu estudei de hotelaria que serve também pra publicidade eu não preciso estudar de novo nada. Eu apenas começo a estudar os pacotes de outro mapa.
Além disso, o ensino especializado utilizaria o mesmo espaço fÃsico que o ensino geral (eg). Ocorreria nas mesmas escolas, nas mesmas instituições, usando salas dos mesmos espaços. Portanto, tanto quanto mesmo um adulto de seus trinta, quarenta anos é aceito nas bibliotecas e laboratórios de uma escola de eg, ele é aceito numa ee, e pode fazer qualquer pacote da eg ou da ee, referente a qualquer curso (desde que já tenha estudado as dependências necessárias). Isso é muito legal, pois eu posso fazer ciências da computação, mas se eu tiver curiosidade em saber como eu ajo em situações de emergência - respiração boca-a-boca, massagem cardÃaca, etc, eu posso simplesmente fazer esse curso (desde que, repito, eu tenha as dependências - e imagino que, nesse caso, não são muitas).
Bom, aqui está explicado a minha idéia de escola ideal, de sistema escolar ideal. Fica muito claro a minha proposta: liberdade. Liberdade que vem da escolha, que vem da vontade da pessoa de aprender, sempre estimulada por pessoas que não fazem disso um dever, mas sim um constante jogo, uma constante brincadeira. Liberdade que vem do estÃmulo ao pensamento, à pesquisa e ao ceticismo, e não da matéria que vem pronta, mastigada, salivada pra decoreba.
A única coisa que ainda não expliquei bem, ou que não ficou muito clara, é a questão da convivência: as escolas seriam muito mais do que espaços onde você estuda. Seriam espaços onde você convive. Lá você conhece pessoas novas e se encontra com as amizades antigas, e são pessoas de todas as idades, o que oferece um constante contato com diversas realidades e pensamentos. Isso impulsiona a tolerância e a boa-vontade das pessoas, estimula um convÃvio social muito mais saudável.
Quando eu falei das apresentações, eu sempre falei de uma pessoa só, e isso pode ter passado uma idéia muito solitária e individual de ensino. Na verdade, o que é individualista é o modo como se vê o aluno: um ser diferente, que merece estÃmulos e atenções diferentes, que façam com que ele evolua, cresça, de acordo com as suas vontades. Mas isso também passa pelo convÃvio social, e uma idéia importante é a de apresentações conjuntas: da mesma forma como alguém precisa aprender a se virar sozinha (e esse sistema ensina isso bem, já que, apesar de ter três / quatro tipos de professores, eles se dividem entre vários alunos), uma pessoa precisa também aprender a trabalhar em grupo, precisa ter contato com valores como respeito, cooperação, e espÃrito esportivo. Portanto, uma coisa legal que pensei seria uma exposição constante em vários murais pela escola das apresentações que outros alunos farão. Afinal, se eu não faço a mÃnima idéia sobre o que fazer para a minha apresentação, eu vejo que alguém vai fazer um trabalho sobre algo que despertou meu interesse. Procuro-o e pergunto se ele não quer ajuda; e juntos realizamos a apresentação. Da mesma forma, grupos de estudo podem ser formados na ee, dispensando algumas vezes o uso de professores de manutenção.
Não só as escolas são responsáveis por divulgar essas apresentações, mas os próprios professores. Se eu sou um professor pessoal que tenho um aluno x e um aluno y, que não se conhecem ou mesmo que se conhecem, e fico sabendo que os dois vão fazer uma apresentação de assuntos muito parecidos, apresento-os e pergunto se eles não querem fazer uma única apresentação, só que de cunho mais genérico, onde caibam os dois assuntos. E isso não se restringe apenas a uma dupla, mas a trios, quartetos e a grupos de qualquer número de pessoas.
Enfim, essa é a minha idéia de escola ideal, e é um bom ideal. É claro que não é perfeito; nada é perfeito. Erros podem ocorrer, desde erros na execução de uma suposta reforma até o fato de que algumas matérias essenciais em algumas áreas como matemática e gramática podem receber pouca atenção - um bom desafio para os professores ocultos.
Mas eu parto da seguinte justificação: a vida é curta. Muitas pessoas, por sinal muito inteligentes (alguém aà lembrou Mark Twain?), já soltam e soltaram farpas contra o fato de que perdemos a nossa infância e a adolescência pra escola - ambas as fases não tratadas como absolutas, mas como relativas à fase adulta, ou seja, são apenas preparações. Muitos já disseram que o modo como estudamos é uma perda de tempo porque é um jeito mecânico, idealista (no sentido que dou à tudo que valoriza mais um “grupo” abstrato do que o indivÃduo) e escravizador, que fecha ao invés de abrir a mente. O que eu acho é que não podemos desistir da instrução e da razão; mas se vamos aprender, que façamos isso de uma maneira divertida, porque a vida continua sendo curta, e uma das melhores maneiras de aproveitá-la é rindo.
Sejamos, pois, mais eficientes, mais engraçados e mais “libertadores” no modo como ensinamos, e a sociedade melhoraria muito.
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* Um “fetiche” ideológico que tenho é uma sala onde as pessoas vão pra… Pensar. Uma sala totalmente branca, apenas com uma mesa, um banquinho, vários blocos de Post-it e uma caneta. Pra que? Pra pessoa anotar uma idéia pra não esquecer, e se ela quiser deixar ela na sala, dá pra grudar o papel lá. Talvez uma idéia sem relação nenhuma com outra pessoa possa vir a influenciar essa outra pessoa. Essa interdependência de idéias é uma das conseqüências do próprio sistema educacional; essa sala do livre pensar é só um microcosmo do sistema, talvez.
** Esse sistema combina com um tipo totalmente diferente de sociedade, vejam vocês. Ainda que ele possa tornar o próprio sistema sócio-econômico atual mais eficiente, duvido que ele possa ser facilmente implantado hoje, aqui. Isso porque, bem sabemos, não é do interesse de quem está no poder produzir tamanha liberdade de pensamento. Eles querem comodismo, condicionamento, um “desvio de atenção”, uma completa imbecilização das pessoas desde cedo, pra que elas virem zumbis berrando por aà coisas como “dinheeeeeeeeiro… caaaaaaaaaaaarrrooo… cerveeeeeeeeejjaaaaa… seeeeeeeexxoooo…” e etc.
*** É esse tipo de coisa que poderia possibilitar este tipo de coisa.
Tags: anarquismo, capitalismo, Educação, furuto, liberdade, razão, sistema, sociedade, Vida




Depois vou ler essa postagem com calma. superficialmente, me pareceu um grande elefante branco. Quando eu tiver com mais calma, lerei.
Grande abraço.