Talvez a estética da personalidade tenha a ver com uma mistura de constância e liberdade de espírito. Às vezes a gente ouve falar que algumas pessoas têm certos traços de personalidade por causa de sua relação com os pais ou mesmo com a sociedade - o estereótipo da loira burra existe porque muita loira supostamente bonita não precisa de inteligência pra se destacar no grupo, o que a faz continuar apostando na beleza como sua arma social predileta.

Uma putaria, se quer saber o que eu acho. Quer dizer, duplamente: “uma putaria” no sentido de “uma pena” que seja assim, e no sentido de “uma desgraça” que isso seja tão, tão comum sendo usado como bias na argumentação de algumas pessoas - o anarquismo não dá certo porque só quem pensa assim é adolescente, e adolescente é tudo revoltado, é coisa da idade, blablabla - ignorando que, hum, os anarquistas clássicos não eram adolescentes em suas épocas douradas. Eita Bakunin, Kropotkin. Bando de moderninhos eles hem. Humm…

Mas enfim, ainda assim a loira (ou morena, ruiva, whatever) burra bonita pode descobrir o gosto por física quântica, literatura inglesa ou quem sabe questionamento - um pouco de instrospecção crítica, que vai bem também, enfim. Talvez ela compreenda que isso é bom pra ela, talvez ela adquira essa idéia e se mova pra se transformar, pra se tornar uma nova pessoa. Veja que empreguei nova, não necessariamente melhor; se fosse apenas pelo critério de, hum, vejamos, “conhecimento” isso seria melhorar, mas não estou considerando nenhum padrão universal para usar como critério para pessoa boa/ruim…

Quem quer se identificar como “trapaceiro”, for example? Olha, eu sou o trapaceiro, eu sou o enganador, eu sou o Serginho Malandro. Aquele cara um pouco mais caçula que tem um ou dois irmãos ou primos presentes no cotidiano, querendo chamar a atenção dos pais. A gente acha isso uma característica extremamente infantil; e ela o é, é o que a gente faz pra construir nossa personalidade. Não é um infortúnio total que aconteça isso; tem que haver um critério para que a criança desenvolva seu jeito de ser, porque não dá pra dizer “a criança tem que escolher o que quer ser” - bem, ela não faz muita idéia desse negócio de ter uma personalidade, e não teria muita capacidade consciente de escolha que se espera de um adulto, por tanto, não adianta dizer isso, é meio tosco… Só é um infortúnio que nosso ambiente opere tanto no modo “aparência”, mas enfim.

Justamente por ser considerado coisa de criança é que a gente não espera que adultos façam isso. Por isso tenho a sensação estética de que é “feio”, não agrada aos sentidos intelectuais perceber que alguém está fazendo algo de maneira, hum, “condicionada”. Quando alguém acaba desenvolvendo uma personalidade meio artificial. Não sei explicar. Não é exatamente como acontece na infância, mas é algo que a gente sente. Está lá, óbvio, saltando aos olhos, fazendo você sentir um arrepio de “vergonha alheia” às vezes. Sei lá. Uma coisa meio pra “chamar a atenção”. A gente vê que não é natural. A gente vê que não é “legítimo”. Eu não sei qual é a diferença, mas eu já devo ter falado por aí ou por aqui que eu às vezes acho até que exagero no pente fino que faço em mim mesmo, perguntando-me afinal se o que eu estou fazendo é porque quero de verdade ou por algum tipo “dessas coisas”. Um dia o Cachaça me perguntou se eu já tentei “separar o que é ego e o que “eu” dentro de mim” ou algo assim. Bem, interpretei como sendo isso, essa atividade constante de me questionar e ver se o que eu estou fazendo é espontâneo mesmo ou é se estou sendo fake - poser, como costuma-se dizer…

Por outro lado, estamos mudando o tempo todo. Não só para nos “adequar” - nesse sentido de “chamar a atenção” - aos outros, mas também porque quando menos percebemos estamos fazendo alguns gestos de nossos amigos, incorporando algumas expressões faciais - até pensando de um jeito diferente ou fazendo coisas de jeito diferente depois de entrar em contato com outras idéias.

Por isso que disse que a estética da personalidade se trata de constância - como os personagens de minisséries como Friends; conhecemos as personalidades deles já prontas, sem ter entrado em contato com esse processo feio de criação de personalidades, e eles se mantém assim, meio que imutáveis; existem algumas pessoas que passam pela nossa vida assim. Grandes pessoas que conhecemos em algum tipo de encontro e desaparecem. É claro que no caso em que as conhecemos por mais tempo, e ainda assim temos essa impressão, isso é só nossa incapacidade condicional de não perceber as mudanças, que por vezes são muito sutis ou mantidas ocultas pela pessoa…

Por outro lado, constância por quê? Só por que é feio o modo como algumas pessoas mudam? Sim, mas existe outro tipo de personalidade também muito atraente: aquela que muda conscientemente, muda por vontade, por real vontade, nem que seja por uma razão. A gente vê isso acontecer com pessoas próximas - exceto que você tenha uma péssima vizinhança - só que esquece, não reconhece a importância disso. Mas existe; não deve ser fácil, mas existe, e acho isso muito bonito.

-

Bem, talvez você possa ignorar isso se você não considera a, hum, “liberdade” como parâmetro de beleza abstrata…

Tags: , ,

Posts relacionados: