Não é brincadeira. Fui assaltado mesmo. Estava subindo o morro que dá, digamos, acesso pra rua do meu prédio e 5 caras me pararam no meio do morro, deram um empurrão (pequeno, pra assustar, não caí nem nada) e exigiram o celular. Como não sou louco de reagir, entreguei e fui embora, eles foram pro outro lado.


não, não foi à mão armada. Foi só “à superioridade numérica” Creative Commons License photo credit: debaird

Conclusões:

- Kierkegaard dizia que a filosofia era sempre tão especulativa que deixava de fora o indivíduo, seus sentimentos, seus conflitos. Agora entendo o que ele quer dizer - mas minha filosofia não muda uma vírgula. Muito pelo contrário.

- Se Deus existir, ele é um filho da puta sarcástico. Se eu tivesse a chance, a única coisa que eu gostaria de perguntar aos assaltantes é: Você acredita em Deus? Mas não é (exatamente) por isso que ele é sarcástico: 5. Foram 5. Filhodaputa. E outra: sabe qual é o livro que estou lendo agora? A arte de furtar. Não é muita ironia?

- Se ela era especulativa mesmo, então o que será que aconteceria a Kierkegaard se ele fosse assaltado? E Sartre, ele sofreu com a segunda guerra mundial. Ah, é. Ele era existencialista mesmo. Esquece essa.

- Eu pensei, depois, a mesma coisa que o Ibrahim: pra “pedir” meu celular, o cara falou “entrega o baguio aí”. Não podia ser menos clichê?

- A polícia. Ah, nada como a polícia. Quando cheguei em casa, falei pra minha mãe que fui assaltado e imediatamente liguei pro 190 - Eu nao faço a mínima idéia se esse é o número certo a ser ligado nesse caso mas sei que eu não tinha outro número em mente. Na verdade, não tinha nenhum número em mente, esse foi a minha mãe que chutou mesmo. Aí eu liguei, o cara disse que eu tinha que ir numa delegacia - ooou ligar para 197. Ok. Eu liguei. Eles atenderam, dissera que eu tinha que ir até uma delegacia. Great. Lá fui eu na mais próxima, que era mais ou menos perto do local onde me assaltaram.

Aí vi os caras na rua. Eles não me viram ou não reconheceram, sei lá, sei que eu fui até a delegacia. Chegando lá, o cara com toda a paciência do mundo fazendo um B.O pra mim. Eu sei, eu sei. As coisas são assim, a lei tem que funcionar assim pra evitar o próprio abuso policial. Mas o que me irrita é justamente essa natureza da burocracia. Porque veja, eu alertei ele várias vezes que eles estavam a, o que, no máximos uns 200, 300 metros da delegacia. Ali, na rua do lado. E ele simplesmente disse que tinha uma viatura fazendo ronda, e ia dar uma checada em alguns suspeitos, e talvez ele pegasse o celular e tal. Ótimo. Me deu raiva. Não tanta quanto ser assaltado, mas me deu.

- E quanto ao Contra a Punição? O pessoal que leu o texto deve estar pensando “É agora. É a hora em que ele vira gente, vê que o mundo não é cor-de-rosa e larga essa besteira”. Como eu disse, a filosofia não muda uma vírgula - mesmo porque, se eu não deixei claro, trato de deixar agora mais uma vez: isso não é aqui. Não é agora. Se você acaba com a punição (digo, punição institucionalizada, uma punição por padrão) agora, está instalado o caos social - muito mais uma “mob rule” do que propriamente uma anarquia. A sociedade não está preparada, e isso eu sempre pensei.

Mas é claro que deu raiva. Isso é natural, é claro que é, sem dúvidas. O que eu tentei dizer no texto foi o seguinte: isso não é necessariamente justo. Ora, se trata de equilíbrio, não é? Por que um dano causado se paga com outro dano causado? A base da vingança - o mesmo que justiça?

No post Fátima me deu um outro conceito de justiça, mas a justiça é a máscara da punição. Trata-se de punição, de punição - o ser humano concordaria ceder uma parte de sua liberdade para que a sociedade se organizasse e tudo o mais. Isso pra garantir que o outro não roube a minha liberdade. Ótimo, aí o que se faz quando alguém a rouba? Cadeia nele. É punição.

Aliás, essa foi a idéia de Hobbes, não? Não sei, me lembrei dessa parte do comentário dela mas não do resto, que julgo agora ser o mais importante e justamente o que acabo de ignorar, mas tudo bem, valeu como reflexão at all.

O que eu queo dizer é: em primeiro lugar, se punição for uma questão de equilíbrio, é um eufemismo para vingança. A vingança não resolve, é um paliativo, ou como Nietzsche brilhante e definitivamente definiu, um consolo. E a sociedade não está pronta para sua implementação. Quando estará? Éris, quando, quando estará?

Quanto à questão dos sentimentos e da vida integral do “Seminovosofia”, tá tudo inteiro, tá tudo certo. Nada mudou…

- Por último: hoje meu irmão e minha cunhada provavelmente vem aqui em casa, vamos comer um cachorro-quente e eu vou dormir tarde. E é isso. That’s life, dude. Um cachorro-quente é o que eu preciso pra me iluminar nesse dia de altos e baixos.

- Aliás, (P.S. isso, não?) é engraçado como meus dias são sempre assim tão bizarramente altos e baixos - o que é bom, sem dúvida. É o que tento dizer como e quando posso: a vida não é só estrelas. A vida não se trata só de coisas boas, nunca se tratarão e é bom que não se tratem. Não é implicitamente bom: é só o nosso limite. Nós é que podemos achar nessa condição humana miserável algum sentido positivo… Para além do otimismo e do pessimismo, talvez…

Eu só me pergunto quais vão ser os altos e baixos de amanhã. Morrer e ressuscitar (não-respectivamente)?

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