Ueba! Fim de ano; retrospectivas a mil, principalmente pra mim. O fim de um ciclo importante; é claro que é puramente simbólico. Eu poderia ter a mesma sensação de retrospectiva todo fim de mês ao invés de todo fim de ano. Aí você poderia dizer que um mês tem menos tempo que um ano. Que avaliação pessoal que se preze pode ser feita em tão pouco tempo? Ah, mas é relativo. Relativo no sentido de como você usa o tempo. Quanto mais experientia, mais transformação, mais a pensar, mais a desconcluir (faça como o Microsoft Word; “ignore” a palavra em itálico) pra se divertir, mais a mudar, enfim.
Falando sobre mudar, esse negócio de mudar é engraçado. Parece garrafa de coca-cola de 2 litros, aquela que o seu tio musculoso fecha com animação, despreocupado, enquanto ri de uma piada muito boa numa reunião de família. Você faz uma força dos diabos pra abrir a porra da garrafa, mas não consegue. Aí você tenta mais umas vezes, e quando está quase pedindo ajuda e/ou pegando um alicate, alguém (ou você mesmo) tenta com relativa falta de esforço e consegue abrir a garrafa.
Quando a gente tenta mudar, com o peso das circunstâncias sobre a mente (e, muitas vezes, com a pegajosa e terrível idéia do “eu”, sem ser a do Hume), acha que não consegue. Ou verdadeiramente não consegue, vai saber. Ou então não é capaz de perceber pequenas mudanças de atitude que, se não são fundamentalmente a diferença que é pra ser feita, fazem no mínimo grande diferença. O que a pessoa espera? As memórias são iguais. Nós somos a nossa memória, oras; podemos mudar nossas atitudes e assim nos transformamos. Mas pra mudar totalmente, só esquecendo-se de tudo; Nietzsche já dizia. Só não me lembro onde – e não vou procurar por trecho. Assistam “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, acabo de me lembrar que a personagem da Kirsten Dunst (linda, linda nesse filme) fala um aforismo do bigodudo. Vejam lá.
Pensando sobre os problemas filosóficos com os quais tenho me debatido durante o ano, fora alguns mais interessantes porque fogem desses que exemplificarei daqui a pouco, cheguei à conclusão de que todos giram em torno de três eixos (os exemplos vêm agora): o mertre, a briga entre os memes e os genes – não tão evidente com essa nomenclatura, mas entre as linhas de diversos pensamentos e questionamentos – e a mudança.
Mudar não só é difícil porque temos uma memória um tanto quanto… Er… Completa sobre nós mesmos, dentre vários outros motivos. É difícil porque temos também que lidar com os outros. Ah, ah, os outros. Idealismo puto. Dê nome aos bois, Peterson, você está falando de uma massa que não existe de verdade, blá blá blá… É como eu faria, talvez, nos meus dias mais chatinhos e irritantes. Confesso, sou irritante com esse negócio mesmo. Comigo mesmo, acho. O tempo inteiro pensando nisso quando coloco os problemas do dia-a-dia. Valorize o indivíduo, Peterson. O indivíduo, ouviu? O INDIVÍDUOOOO, tá surdo, cacete? Bem, deixando isso de lado e voltando ao assunto, é difícil porque temos que lidar, dentre outras coisas, com a tendência cognitiva do status quo – a vontade de que tudo fique igual – nas outras pessoas. Ah, eu generalizei, né não? Tem tanta coisa na relação com os outros que inibem nossas mudanças tão importantes e tão sublimes.
Por exemplo, os outros também têm memória de nós. Não tão boa quanto a nossa, claro, mas é algo, e a partir desses dados formam uma imagem sobre nós… Sartre disse que somos sujeito e objeto… O que somos, pela parte de objeto (que é grande parte do que somos, nesse e no melhor dos mundos) é imagem; a imagem é aquela que os outros fazem de nós. Acho que Sartre deve ter dado umas risadinhas discretas e intelectualóides quando pensou nisso. Deve ter pensando: “Há! Peguei a todos vocês, babacas! Vocês são imagens! Agora tentem mudar, pra vocês verem…”.
Todos nós acabamos criando laços com as pessoas, sejam esses laços promessas ou imagens de quem somos; criamos insegurança nas pessoas quando não somos constantes, quando um dia somos de um jeito e noutro dia somos de outro. Mudar significa quebrar com essas correntes; talvez a amizade signifique suportar as feridas desse processo.
Mas a pergunta análoga à garrafa de coca-cola permanece. Mudar como objeto é tão trágico, porque você se vê obrigado a mudar, mesmo não querendo (gene, estabilidade… Lembrem-se, podem e devem me corrigir caso esteja falando alguma besteira). Mudar como sujeito é tão difícil, é tão racional e consciente. Exercício de liberdade; ser efeito causador de mudanças no ambiente, e não o contrário (mudado pelo ambiente).
Associações, associações, associações. Castelos de areia. Minha mente ferve.
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“Mas a pergunta análoga (…)”
Sorry, escrevi errado. Não há pergunta alguma. Substituam por problema, afirmação, paradoxo. As you wish.
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