Há tempos, no post sobre “O Segredo” do blog 1001 gatos, aconteceu uma mini-discussão sobre as semelhanças entre ocultistas e filósofos do sistema “magick”. Eu não sabia o que era isso; embora eu já tivesse ouvido falar de Crowley, não sabia nada sobre magick.

Depois, através do wiki S23, fui descobrir que para o discordianismo magick é comunicação – o Deus da magia e o Deus da comunicação eram os mesmos no Antigo Egito. Ou seja, o feiticeiro, aquele que comunica, usa de artefatos mágicos (palavras, caneta, papel, etc) pra lançar um feitiço (meme?) em outra pessoa.

Depois baixei um arquivo ‘.zip’ com um suposto “curso de sigilização” de um site sobre Caos Magick. Reconheci na hora os argumentos furados de “O Segredo”. Apesar disso, existem diferenças reais e muito importantes:

- “O Segredo” implica em pensamento enquanto processo ativo. Já na técnica do sigilo, você tem que implantar uma idéia do que você quer no seu subconsciente. Ou seja, o processo é fazer com que a pessoa não “saiba” exatamente o que quer, ou mais especificamente não pense nisso o tempo inteiro, mas mesmo assim isso esteja gravado no seu inconsciente / subconsciente.

- Tirar o pensamento do consciente, segundo os construtores do tal curso, serve pra fazer com que a racionalização de um objetivo não faça dele algo ruim.

Com isso eu concordo. Essa é a parte desse negócio de “sigilo” com a qual eu realmente concordo, e muito. E é extremamente conflitante com O Segredo, só pra registrar. É o seguinte: quando você tem um objetivo, existem três coisas que prejudicam a vida de alguém: a ansiedade, a dedicação absurda e abusiva (sacrificando o presente em função do futuro); e a cobrança por resultados.

Os nossos objetivos, sejam quais sejam, passam pelo maldito filtro que a sociedade nos impõe hoje em dia: o filtro do sucesso. Existe uma cobrança extrema por resultados; não apenas bons como também e principalmente úteis e duráveis. Edificantes; por pior que isso seja. Caso esses resultados não sejam atingidos (em tempo recorde… Também tem isso, vai dizer que não?), temos a impressão pífia de insucesso, de fracasso. Bom, foi de fato um fracasso – mas por outro lado, como podemos lidar com isso? O problema não é o fracasso em si, mas a “fracassofobia” – essa sim que pode levar as pessoas à ações duvidosas, tanto no modo como conduzem suas atitudes quanto nas próprias atitudes tomadas.

Assim como o esquecimento é para Nietzsche parte importantíssima, essencial e insubstituível do dionisíaco, por exemplo, o é também parte importantíssima no sistema Magick para fazer com que nossos objetivos não destruam nossa vida – ou pelo menos um modo de vida que eu, particularmente, valorizo. E não estou sozinho.

Agora, existe também a parte de que é preciso tentar “sentir” tudo o que você sentiria no momento em que seu sonho seria realizado. Tentar até conseguir. Desculpe-me, mas isso pra mim é uma parte bem besteira. Só o fato do “esquecimento”, não só dos focos impostos pela sociedade como também do passado que nos puxa pra trás, já é por si só uma coisa excelente no Magick. Entretanto, não garante resultados; o tal “mantra”… Parece meio ridículo a noção de que ele possa fazer uma idéia racional penetrar no subconsciente de tal modo que você se esqueça da idéia na forma de linguagem.

Aliás, o próprio “sentir” artificial que é imposto por essa técnica é tolo. O objetivo é fazer com que o corpo todo, uma harmonia entre corpo, mente, e outras coisas mais, ajam como se a situação estivesse acontecendo… Mas que correlação há? Essa parte do sistema não é válida; é tola, é perda de tempo. É uma crendice ainda mal explorada por feiticeiros das palavras; entretanto, poderia ser mais benéfica que o segredo.

Ou não; outra característica fundamental é que o Magick não se foca no pensamento positivo. No “Segredo”, esse pensamento precisa ser positivo. Mas, uma afirmação colocada como positiva não necessariamente indica um acontecimento positivo. Afinal, todas as afirmações são em algum sentido.

Compreende?

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