Há dois dias atrás, senti o pior arrombo de tristeza até hoje: não me sinto potencialmente mesquinho no motivo pelo qual me senti triste; houveram em minha (curta até aqui) vida momentos em que deveria ter me sentido pior. Mas não me senti. E já não me culpo mais por isso.
Fato é que toda a tristeza veio também misturada com um profundo ódio. Esses dois sentimentos me deixaram ranzinzas, com frases curtas e secas, rosto reto, inexpressivo. Deixaram-me ascéticos, sem vontade alguma, apenas vontade de estar em qualquer lugar menos o lugar onde estava, e de ser qualquer pessoa menos ser quem eu era.
Esses dois pensamentos poderiam me levar a dois extremos: se eu os exteriorizasse em toda a sua complexidade, ou eu espancaria alguém até a morte, ou choraria até enxugar toda a grande porcentagem de água que existe no corpo humano.
A cada minuto que se passava depois das nove horas eu pensava onde eu queria estar, onde eu poderia estar e onde eu estava. A partir daí seguia-se uma seqüência de lágrimas contidas, e um movimento no meu tórax, fazendo parecer que o meu coração afundava num líquido pastoso, pois ele caía, o líquido cedia, resistia, e depois o cobria todo, inundando aquele instante de dor…
Foi então que adormeci.
No outro dia, acordei sem sinais da tristeza: ela havia sumido, a experiência foi ruim, mas sobrevivi a ela. “O que não me mata, fortalece-me”, como diria Nietzsche e qualquer um que avalie com cuidado um resfriado. De fato, isso de alguma forma me fortaleceu… Ou me encheu de vaidade, sendo o sono o inimigo de minha verdade, me transformando numa casca de superação para esconder aquele que ainda gritava por detrás de mim. Sei que se isso foi mesmo uma casca, foi uma casca cheia de ódio, ódio ressentido… Ódio que minha memória saberá apagar, minhas vontades saberão esquecer e meu cotidiano ajudará a varrer, mas o que jamais sairá de mim são as cinzas desse fogo que um dia ardeu, e se eu tiver uma oportunidade, me vingarei – de qualquer jeito minimamente possível. Só assim poderei me libertar desse sentimento de injustiça que sinto – injustiça moral, pois não há nada de errado com o que a pessoa fez. Mas se eu tiver chance, eu vou fazer, e não há Buda que me convença de que a razão pacifista será capaz de aplacar esse meu desejo escondido, bem guardado… Essa minha vontade, se for um dia satisfeita, me trará uma satisfação que consciência nenhuma será capaz de me trazer.
Nesse mesmo dia, senti como se pudesse ser alegre de novo. Novamente, o medo de essa alegria ser superficial… Eu ri, eu sorri… Mas nada disso me pareceu muito verdadeiro. Prestei atenção, tive vontades e intenções, fiz as minhas poucas vontades e fui feliz por isso…
Mas tive medo, tanto medo… Não sei qual será a minha reação ao olhar de novo nos olhos dela, não depois de ter dito o que disse… Não depois de não ser capaz de olhar pra ela… Não sei se vou fugir, se vou chorar, se vou voltar a me olhar e perceber tudo o que estava acontecendo comigo, toda a minha realidade, minha triste realidade daquelas horas de horror… Não sei.
No mesmo dia, senti uma alegria tomar conta de mim. Senti alegria, felicidade, o que for, por algumas palavras que me fizeram sentir longe daquele asceticismo, daquela angústia e apatia, aquela indiferença com qualquer coisa que fosse.
Depois ainda cometi uma besteira por não considerar duas realidades prévias… Falei assim pra não dar detalhe algum, mas falei o que não devia sem considerar o que devia… Acabei arrependido, e talvez tenha crescido com isso. Arrependimento talvez seja a prova de minha superação em relação a esses momentos que passei, mas prova maior terei amanhã e durante os próximos dias.
Diante dessa miríade de sentimentos, não sei mais o que sentir de verdade, que coisa parece mais latente dentre minhas experiências, o que aprender com elas. Não sei mesmo. Talvez a vida tenha sido feita exatamente como a história: só é possível analisa-la direito bem longe, quando tudo já tiver passado, quando se está fora do olho do furacão. Se for, é uma constatação que alguém já deve ter feito antes. Triste como ela é, posso até arriscar que foi certo filósofo pessimista…
Mas pessimismo é do que menos preciso agora. O que eu quero mesmo é realismo.
Tags: show, tristeza




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