Há alguns dias fiz um post sobre coerência, este aqui, que gerou uma discussão extremamente importante, me deixou pensando muito. Portanto, o resultado não podia ser outro: a extrapolação dos comentários, o “além-de-um-simples-’possível-contradição’-no-final-do-post”, enfim, um outro post pra mostrar como andam meus novos pensamentos sobre o assunto. Sem falar que, depois de ser acusado de traidor e levar uma baita surra no aniversário do blog (o Cap. Nascimento tirou o link), não tem como não fazer um novo post mesmo…
Enfim, o que exatamente é a incoerência? A incoerência contra a qual eu argumentei no último post foi aquela da definição usada pela minha professora de biologia, que definitivamente não é completa e provavelmente nem correta. Ela diz que incoerente é aquele que “fala uma coisa e faz outra” - bem, vamos ver o que nos dizem as fontes (sobre a coerência):
Para a wikipédia em português (página que precisa ser reciclada):
A coerência é a lógica das idéias que possibilitam a produção de sentido no texto.
A wikipédia em inglês trata de coerência de forma estritamente gramatical, da mesma forma que a em português faz, o que não nos ajuda em nada. A sexta edição revista e atualizada do Mini Aurélio nos diz que coerência é característica do coerente; e nos diz que coerente é:
adj2g 1. Em que há coesão, ligação ou adesão recíproca. 2. Que procede com lógica; conseqüente.
Uma pergunta ao mestre retorna 2,740,000 respostas, e as 10 primeiras, que seriam supostamente as mais relevantes, não dão absolutamente resposta alguma.
Bom, esqueçamos então as respostas feitas e pensemos em uma primeira distinção: primeiro, a coerência lógica, essa que encontramos no dicionário e na wikipédia sobre a gramática. Oras, a incoerência lógica invalida sim muitos argumentos. André O Cap. Nascimento do Ceticismo chamou atenção, no outro post, para o fato de que os religiosos fazem muito uso dessa “ferramenta argumentativa ilícita” - mais conhecida como falácia: eles memorizam as partes bonitinhas do livrinho mágico e justificam o uso que fazem dele e o status que lhe atribuem, a despeito de todas as outras contradições, imprecisões científicas, barbáries, injustiças, imoralidades, etc presentes no livro.
Esse é um tipo de incoerência que invalida qualquer argumento; afinal, estamos num debate e um debate é formado por construções lógicas de argumentos (nas melhores espécimes de debate, é claro…).
Esse tipo de incoerência é diferente do tipo pessoal, aquele no qual a pessoa propaga uma idéia mas age de outra forma. Esse tipo de incoerência não invalida o argumento; suponhamos que uma pessoa faça um grande discurso sobre a grande opção filosófica que é não comer mais McDonalds. Então, logo depois de 2 horas de uma retórica inflamada, tal pessoa imediatamente vai até o outro lado da rua e come um delicioso Big Mac - com fritas e um copão de Coca-cola. Oras, isso de forma alguma invalida os argumentos utilizados por ele; cada pessoa deveria analisar os argumentos isoladamente. As ações dele não vão mudar as propostas dele, de forma alguma. Esse é o tal Ad Hominem de que falei antes; as pessoas às vezes julgam uma idéia pela aparência / pelas atitudes de seu portador.
Mas então a grande pergunta é: o que fazer em relação a um incoerente? Esse foi o grande cisma do post anterior. Afinal, desconsiderar a incoerência, tanto a lógica quanto a pessoal, é ser omisso, fechar os olhos para essa discrepância entre teoria e ação, ou mesmo teoria e teoria.
No último caso, é impossível fechar os olhos - a não ser que se concorde com uma falácia. Neste caso, o da incoerência teoria-teoria, o próprio debate acaba em si demonstrando e desconsiderando o argumento falacioso - não há como “debater a parte certa e deixar o cara com as incoerências dele”. A não ser, é claro, que a falácia seja pequena e o debatedor adversário a deixe passar sem marcá-la como indicador da incapacidade alheia (o que é perder uma ótima chance; ou seja, é uma pena se um debatedor fizer isso…).
Já no primeiro caso, a coisa complica. Como bem exemplificou nossa atenta e perspicaz Fátima no comentário dela, o incoerente não pode exigir que eu aja de alguma maneira - sendo ele ou não incoerente; ninguém pode fazer isso - tanto quanto eu não posso exigir nada dele. Mas posso dizer que ele é incoerente, não? Isso é problema dele? Deveríamos puni-lo por isso? Deveríamos desrespeitá-lo por isso? Talvez não, talvez não. Isso é uma questão pessoal, totalmente subjetiva.
Para finalizar, falo agora com os incoerentes: há algo de desarmonioso em você. Pare, pare agora, por favor. Ou se é fraco, ou falso, ou ignorante sobre si mesmo (bem comum). A incoerência lógica causa danos à sociedade, mas estamos falando da pessoal. A incoerência pessoal se refere unicamente a você, senhor incoerente, seja lá qual for o seu nome. Eu não tenho nada mais a dizer; pense, crie some fucking balls ou seja sincero consigo mesmo. Fraqueza, falsidade ou ignorância é o que pode ser deduzido da incoerência pessoal, e a grande pergunta agora, principalmente para mim, é: punir o incoerente, bradando para quem que quiser ouvir as suas incongruências e o que se pode deduzir delas, ou deixar que ele se vire sozinho, fechando as cordas vocais os olhos para isso? Eu, francamente, não sei. Mas aquela idéia do link é justamente essa: não é sobre punir ou não. É sobre ter consciência de que talvez não punir também seja bem válido; sobre ter consciência de que punir talvez não seja tão bom (ou no mínimo tão nobre), e que é simplesmente possível escolher.
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Já emendo esse post com outro que eu faria depois: a enquete da semana!
14,29% dos votantes foram falaciosos. Pelo menos pra mim, afinal escolheram que, se uma pessoa age y e fala x, x não é válido, como se logicamente falso.
35,71% dos votantes escolheram a segunda opção, ou seja, assumindo que não, os incoerentes não merecem respeito.
Metade dos votantes escolheram a terceira opção, em que não se importam com a coerência alheia e discutem a idéia.
Tags: Blog, enquete, Filosofia, incoerência, post, punição, Vida




Hei! Gostei da postagem.
Também não aprecio pessoas com comportamentos incoerentes, isso não me permitiria, por exemplo, exigir delas comportamento diverso, mas me permite não gostar de dito comportamento e não adotá-lo para mim.
Grande beijo, Revy!
Rev. Peterson Cekemp respondeu:
Que bom que gostou ^^
Grande beijo, Fátima.