Vou confessar uma coisa a vocês: nos últimos dias tive um súbito interesse para conhecer a obra do Marquês de Sade.
Antes que me chamem de pervertido, vou explicar: estava eu andando por algum site, que não me lembro qual é, até que vejo algo como “Marquês de Sade, que escreveu livros considerados pornográficos, apesar de não terem nenhuma figura” ou coisa do gênero. Então eu pensei: “Literatura pornográfica? Sem imagens, sem figuras, só palavras?”. Fiquei curioso, e por essa curiosidade vocês podem até me chamar de pervertido, se quiserem. Mas enfim. Fui até a Wikipédia e conheci as insanidades da vida e obra desse escritor tão polêmico.
Sucede que agora estou louco de curiosidade, e quero assim que possível comprar o livro 120 dias de Sodoma, embora eu ainda não saiba se meus motivos serão compreendidos pelos meus pais. Sabe como é, eu sou adolescente, e explicar a sinopse do livro pra eles não vai ser muito convincente. “É, mãe, o livro possui algumas orgias, incestos e até mesmo pedofilia, mas deixe-me explicar porque eu quero ler esse livro…”
Acontece que, em primeiro lugar, todos os livros que lemos hoje em dia são simplesmente inocentes. O mais perto que eu já cheguei de pornografia literária foi o livro “A Torre Ferida por um Raio”, do escritor espanhol Arrabal, um livro que mistura um jogo de xadrez a uma história impressionante protagonizada pelos jogadores de xadrez. Tem uma parte do livro que se refere a dois personagens fazendo sexo (num sonho de um dos personagens), e contém alguns termos bem claros e concisos sobre o ato, mas essa “parte” não passa de um parágrafo mais ou menos curto.
Então, não há entre esses livros famosinhos ou semi-famosos tanta coragem pra falar sobre sexo. Veja, tem o “Esmeralda”: um livro ruim, com uma narrativa péssima que estraga toda uma história que até poderia ser um pouco comovente. Tem uma parte dele que a protagonista é estuprada, se não me engano. Pensa que tem alguma grande descrição? Não, que nada, pelo que me lembro o estupro é só mencionado – se bem que é uma história verídica contada por quem a viveu, então, não conta.
Marquês de Sade foi um cara que falou sobre sexo, mas falou com gosto. Falou, pensou, escreveu sobre e fez sexo, mas ele não fez só isso. Ele foi longe, muito mais longe, e manchou a literatura com sadomasoquismo (termo, aliás, derivado de sadismo, que vem do nome dele), parafilias, incestos, pedofilias, mortes terríveis e algumas até relacionadas ao sexo, enfim, ele foi até o limite extremo daquilo que todos os escritores evitam! E o cara escreveu isso na época da revolução francesa!!! Vocês têm idéia da coragem necessária pra fazer isso, da coragem política, da criatividade literária, enfim, e vocês têm noção da revolução que esse homem causou? Ele teve a coragem de ir até onde nenhum outro foi!
E não é só isso, há outro interesse no livro dele também, que não é relacionado à admiração pela atitude revolucionária dele. É uma admiração pela atitude pessoal dele. Vou explicar:
Eu não sei se os livros dele são em terceira pessoa ou em primeira, ou se são apenas descritivos ou envolvem também sensações e sentimentos. Porque, se for este último caso o que sucede, eu vou ficar realmente impressionado.
Sempre que eu escrevo algo que envolve sensações e sentimentos (na ficção), eu tento sentir como o personagem sente, reproduzir em mim algum simulacro que seja do que ele pode estar sentindo no momento. Agora… Se eu tivesse que escrever um conto de, digamos, pedofilia, e fosse em primeira pessoa, e ainda tivesse que descrever sensações e sentimentos, seria incrivelmente fuckingly difícil. Eu não sei nem como começar. Agora, o Marquês de Sade escreveu um livro inteiro de ficção cheio dessas experimentações sexuais bizarras, e eu admiro muito a coragem e a dedicação extrema a que ele deve ter se submetido pra escrever tudo isso, se colocar no lugar de cada um dos personagens, sentir, ainda que infimamente, algo do que eles sentiram. Marquês de Sade foi historicamente corajoso e pessoalmente corajoso, e por isso tenho muita curiosidade de lê-lo. Quero saber até onde ele vai nos livros dele e me perguntar: “aqui, onde acaba, é até onde ele pretendia ir ou ele parou por não suportar mais sua própria imaginação?*”.
* Se você perceber que a vida dele também era bem recheada de sexo, orgias e sadomasoquismo, você vai ver que a única parte em que talvez ele tenha sentido um pouco de caos dentro de si ao escrever foi a parte da pedofilia. Mas tanto faz, continua sendo corajoso…
Tags: literatura, livros, sexo





Amigo
Aquilo é de embrulhar o estômago, mas ainda assim recomendo a leitura: só lendo para saber à que ponto pode um cara chegar.
Particularmente: enojada

Beijão,
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