Nos últimos dias, tenho lido muito sobre Kierkegaard, e, perdido em comparações à Nietzsche, e pensamentos redundantes sobre ele, começo a ficar com raiva dele. Porque me sinto meio bloqueado pra comentar sobre ele, tirar minhas próprias conclusões sobre ele. Mas agora, lendo o prefácio e o preâmbulo de “O Desespero Humano”, eu, como disse Nietzsche, ‘não senti necessidade de refutá-lo. Senti o cheiro de decomposição a quilômetros de distância’.
Mas, como eu sou muito bonzinho (e como tenho paciência pra continuar tentando postar sobre esse religioso da porra), vou postar minhas impressões.
Contrastando com a distância que a especulação mantém, esta intimidade do pensamento cristão com a vida e esse aspecto ético do cristianismo implicam precisamente a edificação, e uma separação radical, uma diferença de natureza, separam uma exposição desta espécie, conquanto o seu rigor, dessa forma de especulação que se quer “imparcial”, e cujo pretenso heroísmo sublime, distante de o ser, não é para o cristão mais do que uma espécie de desumana curiosidade.
Bom, o que ele quis dizer é que, de certa forma, o pensamento filosófico está tão separado da vida que toda essa curiosidade acaba sendo “desumana”, e não resolve os problemas do indivíduo.
Bom, houve um pensador mais “humano”. Ele se chama Nietzsche. E ofereceu uma alternativa à muleta chamada “Deus”.
Sabe qual é o problema de Kierkegaard? Desconsidera o poder da vida de superar a si mesma e vencer a angústia e o desespero, sem a necessidade dessa triste droga alienante que é Deus. Um pensamento tão interessante, e acaba nessa porra toda. Que pena.
Ousarmos ser nós próprios, ousar-se ser um indivíduo, não um qualquer, mas este que somos, sozinho frente a Deus, isolado na imensidade de seu esforço e da sua responsabilidade (…)
Sabe qual é o grande problema dele? Não atacar seus próprios conceitos. Por exemplo, fazendo uma regressão até a base de sua gnose, vemos que ele se ocupava da relação indivíduo –> Deus, mas não era capaz de provar sua existência – ele possuía sua idéia de infinito, absoluto, todo-poderoso, etc, mas e aí? Cadê a prova?
Aliás, não precisa afundar na razão pra descobrir que Deus não existe (ou pelo menos não pode se ter uma idéia muito clara a respeito dele… Ele pode ser uma alface). Depois de poucos segundos de reflexão em uma mente livre isso é perfeitamente verdadeiro.
Ou então ele pode querer dizer que Deus é necessário devido ao seu caráter libertador da angústia e da depressão – o que é uma mentira deslavada. Não se pode provar alguma coisa por uma vontade de que tal coisa exista. Isso é tosco, chega a ser infantil.
Mas, sabe o que acontece? Kierkegaard não é idiota. É só cego. Fizeram com que acreditasse desde cedo em Deus, e ele acredita. Mas, ainda que essa certeza faça com que ele dedique seu pensamento ao cristianismo, pelo menos ele pensa mais no cristão como uma escolha – e isso é fundamental. Mas qual é a exaltação que se faz do cristão? O que ele tem de tão especial? No que essa escolha implica? Vejamos:
(…) Eis o heroísmo cristão, (…). Todavia, haverá heroísmo no iludimo-nos pelo refúgio na pura humanidade ou em brincar de ver quem se extasia mais perante a história da humanidade?
Sim. Claro que há. O que você chama de refúgio eu chamo de vida. Apenas aqueles que têm ódio à vida, esse ódio que Nietzsche identificou como rancor cristão à vida, se refugiam na própria seriedade apolínea / socrática, se refugiam na muleta de Cristo, apenas esses são os desprezíveis. Esse é o sentido de “pregador da morte”, Valmir, e logo dá pra ver mais disso. Só espera pra ver.
Por mais estrita que seja no mais sua forma, todo conhecimento cristão é inquietação e deve sê-lo. No entanto, essa mesma inquietação edifica. A inquietação é o verdadeiro comportamento para com a vida, para com nossa realidade pessoal e, por conseguinte, ela representa, para o cristão, a seriedade por excelência.
Sim, e pra que toda essa inquietação? Pra que toda essa edificação? Por que a inquietação deve ser o comportamento para com a vida? Bom, a inquietação já existe, é algo inerente à vida, justamente como Kierkegaard expôs em seu conceito de angústia. Pra que o foco na inquietação, na angústia, no desespero? O problema é que a vida é isso, mas não só isso, o que deixa esse negócio de ficar insistindo na angústia algo muito chato.
Kierkegaard é um filósofo sério. Para ele, o que conta é a seriedade: quando assumimos nossa vida de forma séria, com seus compromissos, seus deveres, a “vida normal”; os valores morais tradicionais, etc, então construímos nossa história pessoal, e a vida toma um sentido. Mas eu me pergunto: pra que tudo isso? Se é possível aproveitar a vida como algo maravilhoso e intenso, com certeza essa possibilidade não se encontra junto à religião kierkegaardiana.
Não, é sério mesmo, pra que toda essa seriedade? Hein?
A elevação das ciências imparciais, muito longe de representar uma verdade superior ainda, não é, para ele, senão farsa e vaidade. Porém eu vo-lo afirmo que sério é aquilo que edifica.
Mas eu me pergunto, mais uma vez: o que é que dá valor à seriedade, afinal? Edificar, construir uma vida, é apenas tornar a pessoa presa às responsabilidades inúteis – ou melhor, úteis para a sociedade em geral, menos para o indivíduo. Kierkegaard, como não enxergastes essa ofensa ao indivíduo – se entregar a tudo isso é nojento e constitui o desaparecimento do indivíduo entre o mar do comum. A edificação é a prisão do indivíduo junto a uma realidade que no fundo é só um ponto de vista dentre outros tantos – que lhe oferecem experiências diferentes.
No fundo, isso é só mais uma manifestação da irritação de Kierkegaard diante de forças tão poderosas da vida. Por que essa irritação com a vida? Por que essa raiva, esse rancor? Como, e como, é importante ler Kierkegaard. Só assim é possível compreender Nietzsche.
(…) Conforme o título indica, ele [o desespero] é a doença e não o remédio. É essa a sua dialética. Assim como na terminologia cristã, a morte exprime miséria espiritual, se bem que o remédio seja exatamente morrer, morrer para o mundo.
Ah, se ele não suporta a angústia e o desespero; se as distrações e alienações do mundo não o fazem viver moralmente… Se ele não confia em sua força e não quer o poder da vida em suas mãos, poder não sobre os outros, mas sobre si mesmo e sobre seu destino, o que lhe confere a liberdade, então, o que ele busca? Deus, a muleta, o lugar onde aqueles que não suportam a vida vão buscar outra. Uma onde eles não tenham que suportar os pontos negativos da vida, mas que, como eles não são tão idiotas pra pensar que a conseguiriam aqui, então a colocam dentro de um fenômeno misterioso para não suscitar muitas dúvidas:
A morte.
(…) Porque na linguagem humana a morte é o fim de tudo, e, como se costuma dizer, enquanto há vida há esperança. No entanto, para o cristão, a morte de modo algum é o fim de tudo, e nem sequer um simples episódio perdido na realidade única que é a vida eterna. A morte implica para nós infinitamente mais esperança do que a vida comporta, até mesmo quando saúde e força transbordam.
Se isso não é ser um aspirante à morte, e ser um asceta com a vida, eu não sei mais o que é.
De fato, isso pode ajudar a encarar a morte; mas isso só pode ser feito pelos cristãos meia-boca de hoje em dia, que vão um pouco mais à igreja que outros, mas também não seguem fielmente à Kierkegaard, aspirando dessa forma à morte. Entretanto, esse é o melhor escravo de todos e sua ignorância dá pena – ignorância tanto da própria religião quanto de outras filosofias.
Nesse sentido, para o cristão nem mesmo a morte é a doença mortal, e muito menos todos os sofrimentos temporais: desgostos, doenças, miséria, aflição, adversidades ou torturas do corpo ou da alma, mágoas e luto. (…) nada é doença mortal aos olhos do cristão.
Aham. A certeza de que eles vão comemorar no céu enquanto os outros queimarão no inferno faz com que eles agüentem calados tudo o que sofrem. É claro que nada é doença mortal; encarar tudo como “nada” e continuar com os olhos brilhantes para o delírio divino é uma baita distração. É uma serenidade budista que apenas rejeita a vida. Isso é ainda mais triste.
É quase como se lhe fosse necessário orgulhar-se de estar altivamente para além daquilo que correntemente é considerado infelicidade, daquilo que vulgarmente se diz ser o pior dos males…
É quase como se lhe fosse necessário orgulhar-se de estar altivamente para além da vida, daquilo que vulgarmente se diz ser apenas o lado negro inerente à realidade da vida…
Para enumerar à vontade tudo o que é horrível ao homem natural – e tudo esgotar, o cristão ri-se da soma. A diferença entre o homem natural e o cristão é semelhante à da criança e do adulto. Nada é para o adulto o que faz tremer a criança. A criança ignora o que seja o horrível. O homem sabe e teme. A deficiência da infância está, primeiramente, em não conhecer o horrível, e em seguida, devido à sua ignorância, em tremer pelo que não é para fazer tremer. Igualmente o homem natural. Ele ignora onde verdadeiramente jaz o horror, o que todavia não o livra de temer. No entanto, é do que não é terrível que ele treme.
Deixe-me fazer a minha analogia:
A diferença entre o cristão e o homem natural é semelhante à da criança e do adulto. O cristão, quando cresce, não deixa de ser criança. Ainda quer um pai que diga a ele o que fazer e ainda o proteja. Por isso, como não se aventura para a vida, precisa de alguém que lhe diga o que é certo e o que é errado, e precisa de alguém que o proteja da insegurança diante da vida. Precisa de alguém que o proteja de ser livre, prendendo seu ser em uma essência imutável, para que ele não ouse ser diferente. Já o homem natural, é aquele que cresceu e se tornou independente. Este ama tanto a vida e seus sentimentos, toda a força e a intensidade dessa maravilhosa obra de arte, que já não quer mais dar adeus a ela. Não quer virar a última folha deste imenso livre de poesias. E por isso a morte é tão ruim para o homem natural – o que não o impede de viver, no verdadeiro sentido da palavra.
O cristianismo lhe dá [ao cristão] uma coragem ignorada pelo homem natural – coragem recebida com o receio dum maior grau de horrível. Verdade é que a coragem a todos é dada e que o receio dum maior perigo nos dá forças para afrontar um menor.
Ah, claro. A criança cristã, que não consegue viver sem Deus, se desespera quando se vê sozinha no mundo. Como ela teme a essa liberdade, que é pra ela um grande desespero, ela acaba, depois de pensar no medo que sente quando se vê sozinha, preferindo os menores aos maiores – como uma criança que aceita ser chicoteada porque seu algoz lhe dá duas opções: ou sofre calada com isso ou é solta no nada, navegando na solidão que a existência é – sem desculpas nem muletas ridículas como a divina.
Não que uma dor maior apague uma menor, mas quem faz da dor maior uma dor maior, é justamente a infantilidade cristã e o despreparo para a vida – pra não repetir o que já disse, ou seja, antes de despreparo, antipatia para com a vida.
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