(Num psicólogo azul. Flávio deitado no divã com os olhos fechados, um Foco de Luz sobre ele. O psicólogo sentado no escuro como um cantor de blues, inclusive com um violão ao lado de seu banquinho.)

- Pelo menos você tem estilo. Não conheço ninguém que tem calça branca, como a sua…

Psicólogo (baixinho e com a voz firme): Flávio, deite-se na posição que achar mais confortável. (Espera que isso seja feito.) Preste atenção em minha voz, enquanto se sente completamente relaxado. Arrume-se no divã de modo a conseguir mais e mais conforto. Relaxe, e procure afastar os pensamentos de sua mente, fixando-se somente em minha voz, que te faz se sentir completamente bem. Procure, agora, notar que minha voz te faz se afundar em sua mente, mergulhando no passado, e que todo o som do ambiente e de fora contribui para isso.

(pausa de quinze segundos)

Psicólogo (num tom igualmente calmo, porém mais alto): Agora você está numa praia, e… E é criança. Estende suas mãos para o alto, procurando agarrar as nuvens que se vão e se transformam. O céu é azul, e as nuvens passam rapidamente, sempre sendo modificadas pelo vento que as leva. E você não se preocupa em procurar método mais eficaz que estender as mãos e agarrá-las, pois, talvez, não sabe que esse mecanismo é falho.

(o psicólogo e Flávio são iluminados por fachos de luz azul)

Psicólogo (mantendo, cuidadosamente, o mesmo tom do trecho acima): Conte-me quais nuvens te incomodam, criança.

Flávio (levemente se mexendo, e com um tom de voz incomodado): Tio, isso não é bom. Aqueles meninos machucaram aquela menina, eles bateram nela, eu acho.

Psicólogo (tentando entender): Como assim?

Flávio (num tom infantil): Eles rasgaram a roupa dela, isso deixou ela triste, muito triste, ela gostava bastante daquela roupa, era a mais melhor de todas.

Psicólogo: Quantos anos ela tem?

Flávio (franzindo a testa): Oito…

(O cenário se torna escuro, novamente, e o violão é tocado. Prelúdio para Violoncelo Número Um, de Bach. Quando acaba, uma luz amarela surge sobre o psicólogo, que interroga um Flávio mantido no escuro.)

Psicólogo: Primos? Quantos?

Flávio: Cinco. Só tenho cinco. fnord

Psicólogo: E o que diziam? Me diz exatamente o que diziam.

Flávio (aparentando leve constrangimento): Diziam “você é estranho”, e me chutavam, também “você é idiota se acha que vamos acreditar no que você diz!”. Nunca acreditaram.

Psicólogo: Suas visões nunca tiveram crédito na sua família, então?

Flávio: Não, e eram motivo de piada. Mas eu via. Via e ficava assustado, e queria contar pra alguém. Minha mãe dizia que Deus era invisível, e eu não entendia o que eu via, então.

(O Narrador fala, pelo microfone: “Flashes da vida de Flávio passam pelo telão posto aos lados e acima da platéia. Flávio grita, e o Psicólogo perde o controle, gritando junto com Flávio. Entre as cenas, a garota de oito anos sendo violentada por seus primos - ele não admitiria que eram eles, mas eram - e sua mãe se zanga muito quando este se nega a rezar antes de comer.”)

(Novo cenário: no alto de uma montanha, neblina, uma voz do além, e Flávio no topo. Todas as falas são gritadas, menos quando indicado o contrário. O ator deve deixar claro que Flávio é criança nesta cena, ainda que a fala seja polida demais para alguém novo.)

Flávio: Aqui estou! Aqui estou, Deus!

Deus: Flávio, meu filho, sede feliz com tua descoberta. Tu és o primeiro homem no mundo que ouve minha voz desde tempos imemoriáveis. Foste escolhido por Mim, ó humano mortal, para que se porte como um homem de bem, e seja bem-sucedido em tudo, servindo como um Exemplo Divino às famílias que se deixam levar por Satã e suas propostas malignas.

Flávio: ó, Deus, estou confuso, Deus! Minha mãe diz que nunca poderia te ver! Minha mãe diz que é invisível, diz que… (murmurando) diz que devo te obedecer, caso contrário irá me castigar.

Flávio: Ele não irá te castigar, é só amor! Amor!

Flávio: Tenho de rezar antes de comer, tenho de ser bom com os meus primos, com minha irmã, com meus colegas. Tenho de ser certo para não sofrer. Tenho de demonstrar amor para receber o amor de Deus.

Flávio (em voz baixa): Querem tanta coisa de mim… Nem acreditam quando eu conto que sou bom e Deus gosta de mim!

(O cenário se torna escuro com um grande estrondo. Nenhuma luz acesa.)

Homem (gritando): Ele é completamente louco! O que vamos fazer com ele? O QUE VAMOS FAZER?

Mulher (timidamente): Amor, temos de cuidar dele… Ele é especial, não vê? Ele vê coisas…

Homem (irritado): Vê coisas? Você é tão louca quanto ele, se acredita nisso! Vê coisas?! Ele é completamente louco, ele é uma desgraça, olha a merda que você fez!

Mulher (sem entender): Eu? Ele é nosso filho!

Homem (mais irritado ainda): Nosso filho! Nosso filho? Ele é filho do vizinho, mas MEU filho não é. Filho meu é pra ser médico, é pra ser engenheiro, não louco! Vou deixar ele com o povo de Florianópolis. NÃO VOU SUSTENTAR UM DOENTE!

(Um cheiro desagradável começa a pairar sobre a platéia, e isso deve se manter até que a primeira pessoa passe mal. Enquanto isso, sons aleatórios que combinem com a resposta da platéia para a peça devem ser produzidos pelos atores.)

Karma | Karma 2

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