Virei o carro para a direita com o intuito de parar no acostamento fnord. Fazia três horas que eu estava dirigindo sem parar, e isso estava me deixando aborrecido, melancólico. Deixar tudo para trás, dessa forma, de repente, dá um pouco de medo; porém, como sempre, guiado por um sentimento e inspiração diversa, algo sobrehumano, eu sabia que estava fazendo o certo.

Quando o caro parou completamente, e eu tirei os óculos, passando as costas da mão na testa, e colocando os pulsos sobre o volante, uma chuva leve começou. Bois e vacas no pasto ao lado olharam com curiosidade para a chuva repentina; eu olhei para eles com a repentina consciência de que são reais. Esses bois, vacas, animais do campo, o cheiro da chuva que entrava pelo cantinho da janela do carro que abri, tudo isso me lembrava de imagens que certamente não eram minhas - animais, um estábulo, uma manjedoura, uma noite calma. Não, certamente isso não se referia a mim, mas eu não era, de todo, alheio a essa imagem bucólica. Era um ponto que eu tentava atar, na minha mente, desde que eu tinha cinco anos.

Cinco anos é uma boa idade para começar a ter visões, mas certamente não é uma boa idade para compreendê-las. Nem ali, na estrada, em meio a uma chuva que apertava, sem preocupação alguma, com a experiência de meus trinta e três anos, nem ali eu compreendia essas visões todas. Meus pais também não compreendiam. Meus tios também. Ninguém, na verdade, compreende isso, talvez, pois messias é sempre algo do porvir, é sempre futuro. Pessoas como eu são falsas, é o que todo mundo pensa. O recorrente, porém, é que os falsos não tenham visões…

Nada como uma chuva para fazer um homem pensar.

Iniciei um monólogo vazio; sempre acredite que homens sozinhos fazem monólogos, se entrevistam, tentam explicar sua complexa metafísica pessoal que, não obstante nunca ter sido pensada, foi trabalhada pelo inconsciente. Minha metafísica transcendental me jogava dentro de um universo próprio e anulava o mundo carnal de fora.

- Um messial amoral? - Disse-me meu entrevistador-eu-mesmo.
- Já ouvi e pensei acerca esta afirmação, mas ela é falha. Minha aparente amoralidade reside na incompreensão dos outros. - Afirmei convicto e me dei conta da pergunta que eu havia feito. - O conhecimento que eu acumulei, apesar de ter sido, em grande parte, fruto de inspirações, não me deixa tomar rumos verdadeiramente amorais. Eu só sou subjugado pelos tempos, apesar da força de minha alma.

Sempre quis me convencer dessas coisas, e, agora, essa questão de amoralidade começava a incomodar de verdade. Quem eu era, de fato? O que eu via? Minha missão… Qual o motivo de nunca ter conseguido as multidões que Ele conseguiu? Os tempos é que eram amorais, não eu. O fruto proibído é que fora jogado no salão, e as pessoas disputavam por ele. Não era culpa minha tudo o que me apresentava como dificuldade, e meu Pai sabia. Quando fui enviado, ainda Flávio, com dez anos, em 1985, para meus tios, isso não foi amoral. Foi o melhor caminho que Deus poderia me dar; lá eu aprendi o que deveria, lá eu conheci quem deveria. Mas, era isso: o lugar onde nasci não poderia mais ser negado por mim. Lá estava o povo que deveria ser iluminado. Lá, onde nasci, onde meus pais morreram; nem a morte era um fantasma grande o suficiente para meu espírito, nem o calor que eles produziriam em meus discursos, pois tudo isso era necessário, pois tudo isso era parte do plano divino que me levaria a ser ouvido. Afinal, tinha trinta-e-três anos quando parei o carro na beira daquela estrada.

Tinha trinta e três anos quando a primeira maçã caiu do céu e se espatifou na minha frente.F

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NORD

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