(Em Treze Tílias)

Estou sentado na frente da casa de meus pais. Faz calor. São 19:38h. A casa é antiga, de fachada quadrada, com uma única, feia e solitária planta na frente, entre as duas janelas acesas. Cenas de minha infância perdida se recompõe nesta rua; posso me lembrar de cada interior das casas que eu visitei, e os grilos que cantam são os mesmos de sempre. Do lado esquerdo de minha casa de infância existe apenas um terreno vazio - a casa do vizinho de outrora fora demolida, mas outra não foi construída em seu lugar.

Tenho medo de conhecer os novos moradores de minha primeira casa. Tenho medo do meu destino? Medo? Não, não é bem medo. É uma sensação de que eu devo esperar; é isso. Esperar, como eu fiz até hoje, mas pelo quê? Um sinal? Mais sinais! Eu já deveria estar farto de sinais e visões e especulações, e a falta do sinal derradeiro de que devo - e posso - agir. Talvez eu não tenha força para agir? Não, impossível. Já tive força para a ação em outros momentos, e agora ela não há de falhar. Força, força… Eu nasci sabendo o que devo fazer, eu nunca soube, ou eu perdi tudo isso no meio do caminho? Saiam de mim, dúvidas!

Subitamente um carro de propaganda eleitoral passa, e me traz a realidade de volta.

Meus olhos fixos naquela fachada… E subitamente eu reconheço olhos, depois uma face e, finalmente, um corpo inteiro me devolvendo o olhar. Um garoto novo, de uns dez anos, olhava para mim. Fico horrorizado com a visão; por um momento acredito que aquele garoto calmo sou eu. Mas o véu me é tirado da face, e vejo as diferenças óbvias entre mim e aquele garoto.

- Oi? - Ele me pergunta, se aproximando de mim, e repete, com mais firmeza. - Oi? - Fico sem ação, sem idéia, sem para onde correr. Correr? No que estou pensando?
- Olá. Qual o seu nome? - Eu respondo com uma súbita calma. “Flávio”, ele me responde. Coincidências, coincidências… - Onde estão seus pais?
- Ali, dentro de casa, assistindo televisão.
- Você sabe algo sobre as pessoas que moravam nessa casa antes de vocês?
- Sim! - Ele fala e abre a boca em espanto, e sai corrento, gritando “Siga-me!”.

Corremos por diversas ruas, na noite quente, passando por praças e prédios e minha mente não se pergunta o motivo pelo qual estou correndo. Sei que é necessário; sei que minha infantilidade tem algo de nobre. Vou rever meus pais? Vou dizer o quê? Fazer o quê? Dúvidas, hoje é o dias delas. Quando chegamos a uma rua bastante movimentada, eu tento alcançar o garoto, mas tudo passa a correr, repentinamente, em uma lentidão memorável e…

Quando abro os olhos, Flávio está no chão, em meio a uma roda de sangue, e um carro breca bruscamente mais à frente. “Flávio?”, eu grito, mas não há resposta.

- FLÁVIO?

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