Let them eat cake
- Maria Antonieta

Não é um filme convencional, confesso. Ele é um filme que não tem uma história muito bem definida; enquanto em outros filmes a história muitas vezes se delineia e as coisas tornam-se claras, esse é um filme como poucos são, como a vida às vezes fica: vazio.

Agora mesmo, enquanto penso nele, me veio isso. Nossa vida parece um filme (no sentido de que, bem, a arte imita a vida), e há dois tipos de filme: os com objetivo e os sem objetivo. Pegue o Senhor dos Anéis, por exemplo. Ele é um filme com objetivo. Você sabe desde o começo que os personagens têm uma missão a cumprir (destruir o maldito anel) e o filme todo se baseia nessa aventura, nessa missão, toda a história gira ao redor desse eixo. Às vezes temos um objetivo, um objetivo forte, e tudo na nossa vida converge para esse objetivo. Às vezes, entretanto, ao contrário de sermos mais ativos, somos mais passivos e as circunstâncias passam a nos determinar mais do que nós as determinamos. Assim é Maria Antonieta, um filme como a vida geralmente se apresenta; com algum tipo pequeno de objetivo, mas em geral, vazio.

A princesa Kirsten Dunst (ainda prefiro ela no outro filme, ela estava muito, muito linda…) casa-se, e precisa ter um herdeiro. Aí depois vai morar naquela casa do campo, passa o dia inteiro fazendo nada… E o filme gira em torno disso, do cotidiano dela, de sua aventura amorosa com o conde não sei das quantas, e etc. Não é algo com propósito, entende?

Mas o legal é que filmes assim te envolvem; filmes assim se concentram mais na realidade das cenas do que no propósito delas, digamos assim. Posso estar falando besteira, mas o filme assim sem propósito se concentra mais em envolver você. E o filme é envolvente. Deixe-me dar um exemplo:

Quando o povo da frança passa fome, a Maria Antonieta diz “deve haver algo que o rei possa fazer pra aliviar o sofrimento deles. Diga ao joalheiro real pra não mandar mais diamantes.

Bom, uma pessoa consciente e atenta pensaria na ironia inocente da frase. “Poxa, o povo passando fome e o máximo que ela faz é não comprar mais diamantes…”. Certamente é isso que eu pensaria, e no meu mais puro instinto anarquista eu diria algo como “Porra, como essa situação é deprimente…”.

Mas, adivinha… O filme te envolve de tal forma, que você vai pensar assim:

“Poxa, legal. Uma atitude boa dela essa, legal.”

Pois é. Foi isso que eu pensei. Sério.

Enfim. É um filme envolvente. O que ficam não são grandes aventuras, grandes suspenses, mas sim momentos de fino humor, uma interpretação discretamente boa, e uma viagem da imaginação até o século XVIII.

Ah, e, claro, não tem como não falar da trilha sonora, o que, na minha opinião, é o ponto alto do filme. Pensem vocês que o gênio que concebeu essa trilha sonora consegue colocar rock num baile do século XVIII, e The Strokes no momento de introspecção de Marie…

Sim, rock, The Strokes, sim, sim!!! É fantástico! Você pode achar que é idiota, e eu achei que ia ficar forçado. Quando minha amiga falou que tinha Strokes nesse filme eu fiquei curioso. Achei que ia ser palha, que ia ser forçado, sabe? O tipo de coisa que você ouve e fala “nossa, que ridículo”. Mas não. Ficou… Natural. Estranhamente natural.

Vejam e percebam. Como eu disse pro Santaum, eu não recomendo o filme, exceto que vocês não tenham outras prioridades. Ou seja, quando não tiverem mais nada que vocês queiram muito assistir, assistam.

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