Ela foi (e é!) fundamental no meu desenvolvimento. Conheci-a na sétima série, dois anos depois do agnosticismo, um antes de gostar da filosofia, dois antes do discordianismo.

Mas como está hoje minha relação com essa teoria política tão prolífica? Não tão ingênua. Dela tiro a luta pela liberdade, e de muitas de suas vertentes o individualismo. Mas não vejo um futuro de cidades imaculadas, uma paz absoluta assegurada pela “boa convivência de todos”. Essa visão romanceada de mundo não é nem boa nem possível. Mas, por mais que não seja possível alcançar a perfeição, podemos chegar o mais próximo possível.

Abaixo algumas partes do livro “O que é o anarquismo”, de Caio Túlio Costa.

“Em 20 de novembro de 1977 matou-se aos 63 anos Luis Mercer Veja, ou Santiago Parene, ou Charles Ridel. [...] Anarquismo, o qual, para ele, surgia da vontade de conhecer-se e conhecer a sociedade em que se vive para, com os outros, chegar a ser dono de seu próprio destino; para que a sociedade seja uma comunidade livre e fraterna de seres livres. Dizia que o anarquismo não é uma repetição, uma autojustificação, uma ideologia, mas uma pergunta, uma inquietação, uma curiosidade. Que o anarquismo não são as querelas de grupos e organizações em torno da verdade ou da linha correta, mas uma atenção permanente aos problemas sociais, às manifestações de rebeldia, aos mecanismos de poder e às resistências aos mesmos. Num de seus últimos artigos citou Emile Henry: “Uma vontade que chega até o suicídio pode engendrar afetos definitivos e sem esperança”. Morreu de lucidez, disseram os amigos.”

“William Godwin (1756-1836) nunca se definiu como um anarquista, mas sem dúvida exerceu notável influência entre os militantes ácratas do século XIX. [...] Filiou-se à tradição iluminista quando deu à educação a função de verdadeira chave da liberdade.[...] Negou a validade de todos os governos e afirmou que o homem moral não teria nada a repartir com o Estado.”

“Max Stirner (1806-1856) [...] recebeu dos historiadores o epíteto de “O Egoísta”. [...] Negou todo o absoluto e todas as instituições baseando-se unicamente na incondicional soberania do indivíduo humano. Negou todas as leis naturais e uma humanidade comum. [...] Foi radicalmente contra a realidade dos conceitos abstratos e generalizantes como Homem e Humanidade. [...] A liberdade para Stirner esteve em segundo plano em respeito à singularidade e originalidade do indivíduo. Escreveu em O Único e sua propriedade: “Ser livre é uma coisa que não posso verdadeiramente querer, porque a liberdade não posso fazê-la, não posso criá-la; posso somente desejá-la, aspirar a esta que permanece um ideal, um fantasma. A cada momento a realidade escava sulcos profundos na minha carne. Mas eu permaneço”. [...] Não concebeu este mundo da nova ordem egoística como o reino da rapinagem universal e do perpétuo massacre. Nunca. O indivíduo não deveria, em hipótese nenhuma, exercitar seu poder sobre o outro. [...] Partidos não existiriam. Cada indivíduo teria liberdade para unir-se a alguém e livremente separar-se.”

“Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) é mais conhecido hoje pelo que Marx disse dele do que realmente pelo que escreveu e fez. [...] Os dois foram o que se pode chamar de conhecidos cuja amizade terminou em 1947 com a publicação da Miséria de Marx. Proudhon sequer se abalou com as críticas, escrevendo nas páginas do seu exemplar que na verdade Marx estava enciumado.”

“Stirner tornou-se conhecido como o individualista egoísta. Proudhon também foi um individualista mas seus comentadores taxam-no de individualista social. Homem dos paradoxos, também é conhecido como um aficionado do pensamento antinômico. Ao mesmo tempo em que definiu o povo como um ser coletivo, infalível e divino, execrou-o como plebe ignorante. Stirner considerou o indivíduo Tudo e a sociedade sua inimiga”

“Para Proudhon o indivíduo seria justamente o ponto de partida e a meta última dos esforços humanos. A sociedade representaria a matriz na qual a personalidade de cada homem deveria encontrar sua função e sua realização. O homem não poderia viver só, na natureza nenhum ser era isolado. Novamente [...] Proudhon viu a liberdade individual profundamente radicada no processo natural de desenvolvimento da sociedade humana”

“A justiça obsedou-lhe a mente, foi seu tema predileto e ao qual se entregou ardosamente. O igualitarismo - a teoria de que o acúmulo de propriedade é um mal - e o senso de uma justiça natural e imanente são elementos essenciais no pensamento proudhoniano. Não foi sem razão que uma frase sua tornou-se slogan dos libertários do mundo inteiro: “A propriedade é um furto”. Esta, a propriedade, não passaria da soma do abuso do roubo. Incompatível com a justiça pois determinaria a exclusão da maioria dos produtores a uma justa pate do produto do trabalho comum.”

“O jovem Kropotkin (1842-1921), encarregado pelo governo siberiano de fazer uma pesquisa sobre o sistema penal, horrorizou-se com os desmandos da autocracia czarista e percebeu quanto aquilo ia contra seus esforços de uma grande regorma naquela região inexplorada e difícil. Nesta estada tomou contato e impressionou-se com o sucesso da colonização cooperativa dos camponeses. Começou assim a valorizar a diferença entre agir sob o princípio da comunidade, desacreditando na disciplina do Estado.”

Atenção: vou colocar essa parte do texto, com a qual eu não concordo, apenas para não ser (tão) parcial:

“[...] A sociedade não passa de um fenômeno natural existente antes da aparição do homem que por sua vez e por sua natureza respeitaria as leis sem precisar de regulamentos artificiais, onde as pessoas se solidarizariam ajudando-se umas às outras”

(Aham, sim, eu já acreditei nisso. Afinal, fui anarquista, anarquista, lembram-se?)

“Contrário à violência por temperamento, escreveu que a revolução social não seria possível pelos meios pacíficos unicamente porque a burguesia não cederia sem luta, persistia até os últimos momentos.”

“A revolução deveria assegurar imediatamente duas coisas: a frustração de qualquer tentativa de criação de um “governo revolucionário”, uma anomalia que se contradiria por si só, e garantir um substancial progresso à igualdade social. Nela, o gradualismo seria fatal exatamente porque todos os aspectos da vida social e econômica estão conectados, só a completa e imediata transformação da sociedade poderia garantir uma arma eficaz contra a reação”

“Posteriormente deixou claro [Leon Tolstoi] qual sua maior arma: a negação da obediência. [...] Pediu aos que queriam abolir o Estado que deixassem de cooperar com este, negando-se a servir ao exército, à polícia, não pagando os impostos.”

“Colônias tolstoianas baseadas na comunhão dos bens e num ascético regime de vida [...]” Outra parte com a qual definitivamente não concordo.

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Enfim… Há quem diga que o anarquismo não deu certo, e nunca dará. Não é verdade. Além disso, todas as experiências libertárias bem-sucedidas (como a da Espanha e a da Ucrânica) foram paradas apenas por forças militares, (Franco e o exército vermelho de Lênin) não por insucesso social.

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