Quando eu era pequeno, minhas influências musicais vieram do meu irmão. Britney Spears e U2 foram as primeiras coisas que eu ouvi - ou, no caso, me lembro de ter ouvido. Até hoje eu ouço Britney Spears e Christina Aguilera - a diferença é que esta se metamorfoseou um pouco, está melhor e mais autêntica, já aquela…
Por isso talvez meus ouvidos tolerem Britney Spears e meus sentidos não se agridam a ouvir uma de suas músicas, como acontece com essas novas bostas que produzem, como High School Musical, Ashley Tisdale, Miley Cyrus, essas coisas.
Me lembro de uma época ter gostado de música eletrônica. Meu irmão me dizia “música eletrônica não tá com nada. O cara programa lá as coisas e pronto. O negócio é rock, o pessoal tocando lá ao vivo e tal, tem que ter talento!”. Eu gostava de rock, mas preferia música eletrônica. Hoje em dia estou rendido à energia das guitarras, sem dúvida o instrumento que considero melhor - não mais bonito ou “mais alguma coisa”, simplesmente melhor.
Apesar de ter concordado com meu irmão durante algum tempo, não posso me furtar a dizer que mudei mais uma vez de opinião sobre música eletrônica. Em geral ela é uma coisa robótica e sem graça mesmo; como ele diz, coisa que qualquer criança faz. Eu só consigo avaliar a gigantesca maioria das músicas eletrônicas hoje em dia do ponto de vista de quem dança; porque se for pra ouvir eu raramente ouço. Mas quem ouve Kid A, Amnesiac e In Rainbows do Radiohead - ou mesmo Ok Computer, que é uma prévia - já ganha uma nova visão da música eletrônica enquanto “música que abusa de sintetizadores”. E depois de ver “Scotch Mist”, você sedimenta a nova visão. É tão… Tão “incrível”, pra usar um termo próximo do que se sente, de vê-los tocando as partes eletrônicas da música quanto tocando qualquer outro instrumento. There are feelings there, guys, feelings.
Além disso, ainda tem uma opinião contrária a uma segunda opinião do meu irmão, dita pelo guitarrista do Radiohead na época em que eles não usavam guitarras, que também é de se considerar e rir. É algo como “as pessoas consideram os sons de sintetizadores ‘menos reais’. Mas acontece que qualquer som é gravado separado num estúdio, é trabalhado no estúdio e mixado aos outros instrumentos, transformado em impulsos elétricos, gravado num CD, depois decodificado pelo leitor do CD e retransformado em som pela caixa… O que faz você pensar que um som é ‘mais real’ que o outro?”. Faz sentido, hum?
Com os Beatles as coisas foram assim: “não dá pra entender essa gente que só escuta Beatles”. Eles se apegam ao passado e ficam balbuciando nostalgias como “eles é que faziam música boa” e fecham os olhos para o presente, que tá cheio de artistas bons. Por isso eu evitei conhecê-los porque achei que não havia necessidade, que era passado e passado é pra deixar pra trás - há todo um novo horizonte se descortinando, por que eu ficaria preso ao passado?
Ainda que não desfeita essa idéia, meses, anos depois de tê-la formada, desenvolvi uma consciência de que saber das origens não faz mal a ninguém - muito pelo contrário, tenho hoje muito interesse pelas origens. Sou hoje curioso com a história das coisas. E então pensei que seria legal baixar alguns CDs dos Beatles.
Como já sabiam que eles tinham muitos CDs, perguntei então ao Ibrahim se ele tinha algumas músicas dos Beatles pra me passar, mas antes de chegar na parte do “me passar”, ele se ofereceu pra mandar um CD com vários álbuns deles. Ótimo! Alguns dias depois chegou o CD e mais um Live CD do Ubuntu, que mudou mais tarde meu cotidiano e minha forma de pensar de maneira radical.
Hoje em dia gosto muito dos Beatles, muito mesmo. É uma das minhas bandas preferidas, mas de forma alguma acho que a história da música boa acabou com eles. Definitivamente não, há muita, muita coisa de qualidade depois deles. Eles foram inovadores em vários aspectos, originais, inteligentes de forma indireta e direta, etc, mas não os idolatro tanto. Não gosto de algumas músicas com muitos elementos orientais. Prefiro os vocais comuns, e não aqueles que eles imitam um coro de igreja - alguns chegam a me irritar. Mas, no geral, é uma banda excelente. Minhas músicas favoritas são ‘Help‘, ‘You Never Give Me Your Money‘, ‘Helter Skelter‘, ‘Everybody’s Got Something to Hide‘, ‘Wait‘, ‘Drive My Car‘, ‘I Need You‘ e ‘Here Comes the Sun‘, e principalmente “The Long and Winding Road” - eu tenho vontade de ouvir essa música na hora de minha morte. Pensem bem, vocês sentindo, no fundo de suas almas, que as forças esvaem-se do corpo, que chegou a hora de ir - uma sensação única e a última que você vai ter na vida - a música não pode ser outra. Bom, talvez Damage in your Heart, do Weezer, mas apenas talvez.
Aqui vão dicas pra conhecer algo que valha a pena além dos Beatles: Pink Floyd (especialmente Dark Side of the Moon, mas The Wall é fantástico), Sex Pistols (pro caso de alguém também amar Helter Skelter…), Radiohead (se começarem por Pablo Honey vão desistir, por tanto iniciem pelo “leite condensado” da banda, como OK Computer ou In Rainbows), Kate Nash (não é linda, mas é fofinha e tem músicas irresistíveis. Me lembra Pushing Daisies, mas não o suficiente pra conseguir substituir a excelente trilha sonora da série) The Killers (Minha Éris, a música ‘Bones’ dá uma vontade de celebrar a vida que eu nunca senti com nenhuma outra música, nem Brian Setzer), Weezer (Apenas pra quem gosta de guitarra), e last, but not least, Billie The Vision & The Dancers (os Beatles modernos e suecos).
Já ia me esquecendo de The Stills… ! Excelente. E The Cure também. E… E… Ah, chega.
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Obs.: É engraçado como parece que existe um desespero subliminar por parte de algumas pessoas, principalmente adolescentes, de buscar por novidades apenas pra superar o passado, como eu já fiz. É engraçado mesmo quando alguém diz que tal artista faz covers dos Beatles melhores que as versões dos Beatles. Larguem mão de serem invejosos da geração anterior; nunca vai haver cover dos Beatles melhor que a versão original. Period.
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No fundo o que importa é que não há uma época boa e uma ruim da música. Eu escuto música clássica de 1800-e-lá-vai-pedrada, progressivo dos anos 70 (Rush, Pink Floyd, Yes, Genesis…) e coisas eletrônicas recentes (Daft Punk só na verdade).
Cada qual é boa não pela época mas pelo que faz. Tenho certeza que muitos ainda são saudosistas - claro que os anos 70 tiveram um boom fenomenal de criatividade e que os anos 90 tiveram um boom de “artistas comericais” - pelo fato de serem as primeiras músicas que tiveram contato. Veja você que ainda tem, se entendi bem, um contato com Aguilera enquanto alguém pode chegar aqui e desdenhar até a alma você ouvir isso.
O mais importante é ouvir o que lhe agrada - e se possível assistir também, afinal, a expressão dos artistas bons vem das performances ao vivo e não do estúdio.
Só pra finalizar, eu prefiro o Animals e Wish you were here do PF e sempre recomendo Porcupine Tree para aqueles que procuram algo que fica entre o prog rock e o prog metal.
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Rev. Peterson Cekemp respondeu:
Paulo, é verdade, o talento sobrepõe o “contexto histórico”, sem dúvida, mas há uma evolução - ou, pra não confundir com melhoria, hehe, uma mudança - no modo como se usa a guitarra, ou os sintetizadores, ou os vocais. E algumas pessoas acabam rejeitando essas mudanças todas quando se não todas algumas são muito louváveis.. =/
E yeah, como diz alguém, “quem sabe faz ao vivo” (é surreal citar o Faustão eheaheahaehea) =D
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