O texto deste post é bem complicado de escrever, porque nem eu sei direito o que vou falar (na verdade, não sei como). Mas vamos lá.
O livro que escrevi serviu pra resumir as minhas idéias. Geralmente adiciono alguma coisa ou revejo algo, coisas do gênero, mas faço isso no blog – não dá pra ficar colocando adendos o tempo todo no livro.
De qualquer forma, a dualidade do modo como se vive um momento (Razão X Emoção) é levada de um modo simbólico a uma dúvida fundamental: Liberdade X Sentimentos (respectivamente). Se jogar com tudo nos sentimentos, ou se angustiar pelo descontrole e pela insegurança, buscando na racionalidade um meio de viver livremente? O modo como se leva a vida (Racional X Dionisíaco, respectivamente) é uma escolha entre dois pólos. O Socrático é o racional, ou melhor, pode-se chamar o racional de socrático, mas na verdade a marca fundamental do socrático não é a extrema razão, mas o equilíbrio entre razão e emoção – a angústia de ter que escolher entre um e outro é vencida pelo conhecimento e pela razão, que busca um equilíbrio.
Tal equilíbrio é negado pelo discordianismo, por causa da verdade absoluta. Entretanto, justamente por causa da mesma verdade, nenhum dos dois lados é recomendado, pois há boas razões pra que cada um dos dois lados seja usado (verdade absoluta…). A idéia que procurei lançar no Seminovofosia é a do Mertre – Movimento exaustivamente repetitivo de toque e repulsão. Um oscilar entre o dionisíaco e o racional visto de vários ângulos – algo como “tudo tem que ter um fim”, um “eterno retorno” colocado em outro pano de fundo, etc, etc, etc.
O mertre tem diversas aplicações conceituais, mas uma é em relação a tudo o que é perfeito: pra tudo é necessário que haja um valor, e o valor é uma idealização. Ou seja, mesmo que a pessoa tenha como valor não ter valores, o “perfeito” para essa pessoa seria justamente não ter valores. Se a pessoa decide que não ser perfeito é o que ela quer, “perfeito” pra essa pessoa justamente é não ser perfeito. Dessa forma, se a vida for vista como uma perspectiva de valor, seja ele qual for (rimou), sempre haverá algo de “perfeito” a ser buscado – afinal de contas, uma pessoa busca excelência naquilo que faz, ou seja, em outras palavras, ela busca tocar o perfeito. Entretanto, o problema é a repulsão; por alguns motivos desconhecidos e outros nem tanto, não se pode ser perfeito – ou manter-se perfeito. Por isso existem períodos de crise e tudo o mais. É um constante oscilar.
Justamente por isso é que, quando se oscila entre o racional e o dionisíaco, isso é, de certa forma, uma perfeição – pra quem decide viver dessa forma. Desse jeito, um viver perfeito seria impossível, e a pessoa logo buscaria um equilíbrio. Maaaas, se ela fizesse isso seria imperfeito, e logo ela procuraria o oscilar. Opa! Mais um oscilar! Um oscilar um nível acima do cotidiano! Entendem? Se você observar as suas atitudes de modo cada vez mais abrangente, nunca vai parar. É mais ou menos o motivo pelo qual não existem verdades absolutas: idéias precisam de sustentação. E as sustentações precisam ser sustentadas, e por aí vai. Isso nunca acaba.
Esse problema eu chamei de uimertre: a última ironia do mertre. Se você subir e subir mais níveis, ele nunca vai parar de acontecer.
Na minha particular opinião, isso mais uma vez é uma questão de escolha. É como se existissem muitas realidades, muitas formas de consciência. É só escolher uma; e será que essa escolha não remete ao post do Orkutcismo, do Santaum? Não é uma escolha entre a realidade e a ilusão, o realismo e o “idealismo”? Sim, porque não importa quantos níveis acima você esteja na sua mente, o tempo continua o mesmo e o que conta pra viver são as fases pequenas, não as grandes. Quando você conversa com alguém, não importa se você está dois ou três “níveis de consciência” acima sobre por onde anda o seu mertre, importa é que naquela hora os ciclos mais baixos é que vão importar. Dessa forma, é uma escolha entre a realidade concreta e o idealismo. Será?
De qualquer forma, isso me faz pensar em outra coisa: se os ciclos podem ser estendidos pra cima, por que não podem o ser pra baixo? Se em cada momento dionisíaco existissem vários pequenos instantes de Dioniso e de Sócrates? Isso seria um “ultra-realismo”? Ou o fato de que a realidade do tempo delimita a nossa consciência sobre isso faça com que o ultra-realismo seja só mais um idealismo? Conclusão óbvia: se a consciência está intimamente ligada à razão, fugir para um idealismo seria uma atitude racional, enquanto que se ater à realidade seria uma atitude dionisíaca – mais uma vez mertre? Talvez:
Talvez haja um modo como o mertre da realidade concreta aconteça. Por exemplo: houve uma vez em que mudei de dionisíaco pra socrático sem perceber. Houve outra que fiz isso de propósito. Bem, o que isso significa? Significa que uma mudança eu fiz dionisiacamente, sem perceber, enquanto a outra eu fiz conscientemente, ou seja, racionalmente. A teoria das múltiplas consciências encaixa muitos fios soltos que eu deixei nos últimos meses de pensamento.
Tags: consciência, Filosofia





Bom texto.
Achei interessante sua comparação com o raciocínio do Orkutcismo. Realmente faz sentido.
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