Nietzsche dividiu (em A Origem da Tragédia) a música em dois mundos distintos: um mundo maravilhoso onde a música seria o espírito dionisíaco em si, que apareceria sob a forma de vontade, mas sua essência se constituísse do mais profundo abismo do ser; e um nojento onde, sob a influência do homem teórico, a música tenha se transformado em algo programado, em algo estático, algo que procura por uma perfeição no formato, perfeição essa pensada, que incorpore alguma razão de ser. Nesse estado, a música estaria subordinada à sua manifestação, e não o contrário, onde a vontade estaria submetida à essência dionisíaca.
Onde podemos encontrar o dionisíaco e o teórico na música atual? As minhas respostas serão apenas duas das diversas que podem ser apresentadas; e vão ser de certa forma pessoais, portanto quero opiniões caso haja discordância…
O dionisíaco fica por conta de Amy Winehouse. Surpresa? Até mesmo pra mim. Quando comecei esse post, sinceramente, estava pensando em The Strokes (que aliás, são muito dionisíacos também. A analogia da embriaguem é perfeitamente aplicável, já que o Julian canta como se estivesse bêbado…), em Muse, em Albert Hammond Jr. (guitarrista dos Strokes, que tem carreira solo…). Enfim. Mas não. Pensei em Amy Winehouse. Por que? Pensei no seu ritmo de soul ácido, suas batidas hipnotizantes, a sensação de profundidade que suas músicas aparentemente alegres causam, e principalmente, sua voz forte que deixa não só transparecer atitude e energia como também o próprio sentimento universal de angústia, e de certa forma, um convite dionisíaco ao riso. Este último pode ser encontrado em “Like I knew… I would…” da música You Know I’m No Good (Você sabe que eu não sou boa). Tentem ouvir essa parte da música. É um claro convite ao riso histérico, sinceramente. E o sentimento de angústia? O que transparece no texto de: “They tried to make me go to rehab, but I say no… No… No…”. Essa frase parece ser cantada normalmente, mas, pelo amor de Éris, é claramente bizarra. Você pode rir imaginando a cena, mas esse é o tipo de piada inocente e irônica que ela faz pra demonstrar sua própria angústia. Ela se nega a ir para a clínica de reabilitação: ou não quer acordar da própria embriaguez, ou acha isso tudo um teste: ou aquilo, ou isto, que é ela se obrigar a passar por isso pra vencer aos seus próprios sentimentos. Há alguma coisa mais dionisíaca do que isto, desejar a todo momento essa selvageria simplesmente para vivenciar esses momentos? Amy Winehouse, a cantora mais dionisíaca da atualidade.
E o que há de mais teórico na música, aplicando o conceito nietzscheano de “teórico”? Pra mim, Simple Plan é a banda mais teórica. Por mais estranho que pareça, esse também foi de surpresa, juro. Nem sei no que eu estava pensando colocar, mas Simple Plan me surgiu imediatamente. Assim como muitas outras bandas de punk-pop (não, Simple Plan não é emo espertinho), o ritmo é simplesmente… Igual. As melodias não são copiadas, imagino eu, só que mesmo assim todas parecem ter sido exaustivamente repetidas por toda a minha existência. Por isso é fácil cantar e a música facilmente se torna um verme de ouvido – e isso obviamente não é bom. Essa música só está caracterizada como punk-pop, porque de punk não tem nada. As experiências subjetivas deles não dizem nada – o pessoal é o inestético em si… Juntando todas as ordenações e as coisas “perfeitinhas” e “arrumadinhas” que são as músicas do Simple Plan, às letras pessoais, temos uma banda “teórica”, socrática, vazia, sem graça. Enquanto escrevia isso pensei em Avril Lavigne também. Mas ainda considero Simple Plan mais teórico… Ah, e se a Natacha vier falar do Evanescence, sim, a banda também é teórica e possui mais ou menos essas mesmas características. Mas o Simple Plan ainda claramente vence porque, afinal de contas…
… Qualquer um que ouça “Still Not Getting Any” e “The Open Door” vai perceber uma gritande diferença de espontaneidade.
* Lembrando que, devido à natureza exclusivamente não-plástica da música, não existe música apolínea.
Tags: crítica, música, Nietzsche




Ninguém comentou ainda...
Deixe seus comentários abaixo!