Há algum tempo eu fiz um post sobre os melhores filmes que eu já assisti. Nos últimos dias, vi um que adorei, e já está incluso nessa lista, sem dúvida. O inglês “The Prestige”, no brasileiro, “O Grande Truque”
O Filme é excelente. Não é bom não, é muito bom. Ele se passa em três tempos diferentes: o presente, depois do que acontece na primeira cena (uma morte), o passado distante (quando os dois protagonistas se conhecem), e o passado mais próximo (quando o cara viaja e vai lendo o diário do outro cara). Enfim. No começo você se confunde, não entende direito o que está acontecendo, mas preste atenção, não se distraia, que você entende. Se você prestar bem atenção, entende a beleza filosófica do filme também.
Não sei se as atuações são boas, acho que são medianas (mais pra mais do que pra menos), mas o filme te encanta, te envolve, te aturde e de quebra, te surpreende no final. É muito bom.
Aí você me diz: vai contar qual é a tal beleza, afinal?
Vou… Claro… É pra isso mesmo que eu estou aqui.
AVISO: Acho que tem spoilers.
“Mas… Você não está realmente olhando. Você quer ser enganado”.
“É simples, só que você quer… Quer algo a mais!”
“Sacrifício! Esse é o preço que se paga por uma boa mágica!”
“Finalmente você aprendeu a sujar as mãos”
“O TEMPO TODO! Ele VIVE o truque dele, não entende?”
“Vão te bajular pelo segredo, vão te implorar pelo segredo, mas você não deve contar, porque isso é tudo o que tem: se você contar, não será mais NADA pra eles.”
São 5 frases que resumem a filosofia do filme, a filosofia da mentira, exposta no livreto Black Iron Prison: Discordia Revisited. O que mantém a existência é a mentira… Se quiser ler mais, eu tenho o livro traduzido na Biblioteca Discordiana, na seção de Clássicos. É um tipo de Sartre explicado na escala subatômica. A mentira é tudo: as pessoas, no fundo, sabem qual é a verdade. Mas elas são fracas, não conseguem encarar a realidade. Elas precisam da mentira. Não aceitam o fato de que elas são o que são, com todas as suas limitações, fraquezas, sujeiras, e precisam de mentiras pra se sentir melhor.
O filme mostra que isso é justamente o que faz a mágica (aquela do Copperfield) ser tão impressionante: as pessoas sabem que, por trás daquilo tudo, há uma verdade simples, há uma engenhosidade muito simples, que os faria pensar quão óbvio aquilo é. Mas elas querem ser enganadas. Elas querem sentir que o impossível é possível. Querem sentir que podem voar, até mesmo sem asas (ignore o Caos aéreo brasileiro, ok?).
Tudo é muito simples. A ciência é apenas uma “entidade” pé no chão, andando de mãos dadas com o ceticismo, dizendo: espera um pouco, cadê a prova? Afinal, mentir todo mundo mente, tem que haver algo que comprove tal afirmação, e uma estrutura lógica que comprove o comprovante. Talvez por isso que a ciência seja pra alguns chata. Seja pra outros o caminho “mais difícil”. Talvez por isso o método cale-a-boca-e-leia-a-bíblia seja o método mais fácil. Porque é fácil acreditar no impossível, isso encanta, isso dá uma esperança boba a qualquer um.
Ignorance is bliss.
Aí tem a terceira frase ali. Se eu contar, o filme perde a graça, por isso vou me ater ao geral e necessário: sacrifício. É preciso sujar as mãos. Pra que uma mentira dê certo; é necessário esconder as provas. É necessário convencer, subornar, chantagear, matar (literalmente ou simbolicamente). É necessário se esforçar para manter uma mentira; de modo geral, por tanto, a verdade viria a tona, certo? Quem quer passar um tempão pra esconder a verdade e fazer a mentira triunfar?
É esta a maldição de Caracinza.
A Máquina ©.
O que faz as pessoas desde crianças aprenderem que o bom, o certo, o melhor, entre outras coisas, é se sacrificar por algo maior, é doar a sua individualidade em favor do grupo, do abstrato, e principalmente, lutar por ideais, lutar pra sustentar algo.
Por que as pessoas não podem simplesmente parar de fazer um esforço pra manter a mentira e, em vez de deixar a vida passar, não podem vivê-la?
Aí que entra a última frase. A mentira. A ilusão. Todos concordam que não se pode julgar um livro pela capa, que aparência não é tudo, blá blá blá. Mas na hora do “vamu vê”, o mais bem arrumado leva a melhor. Claro. As pessoas querem se iludir, e querem iludir os outros. Porque sabem que os outros vão se iludir, oras. Deus nasceu quando o primeiro inteligente encontrou… Pois é. É isso aí.
Aí entra a grande questão: vamos todos viver na realidade. Há quem não resista! Pessoas que não suportam viver sem o casamento, as promessas de amor eterno, pessoas que não suportam viver sem seu otimismo, pessoas que não suportam viver sem o remedinho básico pro dia-a-dia, seja ele a televisão ou o médium que jura que faz a ligação entre você e um ente querido mortinho da Silva.
E agora, José? Como o discordianismo pretende resolver a isso? Nonsense como salvação! A grande jogada do discordianismo é tirar o foco da vida disso. É fazer com que a pessoa domine seus impulsos de fraqueza (superar o homem! By Nietzsche) e alcance outro foco na vida. Foco. Essa é a palavra-chave. É claro que o casamento vai fazer muita falta pra alguém que põe o companheiro afetivo em primeiro lugar. É claro que a vaidade e a futilidade vão fazer falta pra alguém que põe em primeiro plano sua aparência. É claro que o dinheiro vai fazer falta pra quem precisa de um pedaço de papel pra se sentir melhor que o outro. Pra quem quer ganhar a vida sem esforço, ah, vai fazer muita falta.
Mas tem uma coisa que todo mundo gosta: rir.
Rir.
Rir.
Rir.
Rir é o remédio, rir é o foco.
Seja de piada, seja da morte, seja da vida, seja da tristeza, seja de si mesmo.
Rir, cada um a seu jeito, cada um com seu ritmo.
É meia-noite e um do dia 57 de Confusão, Diapicante, e eu ainda tenho um monte de textos pra escrever pro blog. Na verdade, estou postando isso no blog dia 66 de Confusão. Vou terminar o post como terminei no dia em que escrevi:
Boa-noite.
Tags: cinema, Discordianismo, filmes, mentiras, realidade, verdades




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