Depois de ver o vídeo “Joseph Campbell e o Poder do Mito”, em que o grande mitologista (ou seria mitólogo?) conversa com seu amigo Bill Moyers sobre as idéias de uma vida de pesquisas, tive bastante o que pensar. Minhas impressões:
Em primeiro lugar, é um (na verdade quatro) vídeo muito bom pra elucidar a verdadeira natureza do que podemos chamar de “parte boa” da religião (o faz muito melhor do que aquela… Aquela coisa de “Segredo”). Ele nos explica a simbologia e podemos então traçar um paralelo de equivalência , na utilidade, entre a mitologia e a arte, mais explicada aqui.
Em segundo lugar, a idéia que ele expressa como principal “poder” do mito é o da reconciliação entre mente e corpo, “quando a mente quer ir longe”. Ou seja, é uma questão de aceitação, compreensão da vida, etc. Muito me espanta ele não ter citado o Bigode! Nem sobre amor fati, eterno retorno, nada, nada! Muito, muito estranho.
O próprio Bigode dizia “é preciso primeiro pensar diferente, pra um dia sentir diferente”. Será que ele concordaria anos depois, já que essa frase é de Aurora? Não sei, mas sei que sobre a invenção de valores o próprio Campbell nos dá um exemplo bem conhecido: o amor romântico. E este não fora inventado pelos românticos, oh não, isso vem de antes. Vem do trovadorismo. Foi uma revolução no modo de pensar… E será que de sentir?
Creio que não pois esse tipo de dependência sentimental é algo comum demais para a ele nunca ter sido dado o nome de amor. O que acontece, entretanto, é uma nova maneira de pensar sobre esse sentimento, uma nova maneira de vivê-lo, uma nova maneira de tratá-lo e também uma nova maneira de construir (ou, naqueles tempos repressivos, de destruir) a realidade sob esse novo olhar.
Pensar diferente, pra sentir diferente… Ibrahim diz que tentar ultrapassar os clichês não é a meta, pois os limites são importantes - o legal é brincar com os limites. E, apesar de eu achar que na época fiz algum comentário contra essa concepção, hoje eu concordo totalmente. Talvez pelo fato de que “brincar com os clichês” sugeriu à minha interpretação uma coisa muito sem graça. Mas assim como toda diferenciação e inovação pode ser resumida a um tipo mais básico e simples, toda brincadeira com os limites pode ser resumida a “brincadeira com limites” e etc - a criatividade é conseguir dar um novo tom aos clichês.
Com a vida é a mesma coisa. Nós temos as nossas limitações, mas de modo algum elas contém apenas atitudes ruins. Elas também contém tudo de bom que podemos ser. O que o trovadorismo fez foi uma revolução no pensar e no sentir não porque eles criaram um sentimento ou algo além do que se pode imaginar - mas sim porque encararam todo o “conjunto universo” humano por um ponto de vista diferente, arranjaram-no diferentemente - colocaram um filtro de realidade diferente que mudou o modo como percebiam o mundo. E o discordianismo é (também) sobre isso: liberdade pra reconhecer que todos os filtros são válidos - temos é que escolher o melhor para nós. E um pra sociedade que estimule essa atitude…
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Bem, você expressou a minha defesa de forma melhor que fiz. Mas é isso. O conceito de “não ter limites”, “caótico” é muito sedutor, ainda mais para discordianos, certo? Mas todos autores que leio que tentam colocar isso na prática me entediam ou eu nem mesmo os termino. Não há conexão sentimental…Falha em algo. A jornada do herói é para mim o “mapa de emoções” de uma história.
No mais, ótimas observações.
Rev. Peterson Cekemp respondeu:
É, a jornada do Herói é mesmo um esqueleto fantástico. Dá pra colocar o que quiser nele, a estrutura permanecerá a mesma =D