Semana passada vi um dos DVDs enviados pela minha caríssima Fátima: “Power of Myth”, de Joseph Campbell. É excelente e quebrou o castelo de areia ao meio.
Se alguém aí não está familiarizado com a expressão, eu explico. Castelo de areia é como meu pensamento funciono. Eu demoro pra construir um pensamento e, quando ele fica pronto, ainda assim ele fica frágil como um castelo de areia. Não que a idéia seja ruim; é só que qualquer ideologia nova (quando ela é boa) acaba destruindo tudo. Quando eu o reconstruo, pode até ser que eu chegue exatamente à mesma conclusão. Mas durante alguns instantes eu abandono tudo.
Então, a trajetória do herói. Caramba, que coisa! I mean, que coisa! O que ela significa? São 3 DVD’s sobre o assunto, e até onde pude perceber cada DVD possui dois filmes de mais ou menos uma hora de duração. E eu só vi o primeiro!
Joseph Campbell diz que toda história de herói é uma história de transcendência. Através do heroísmo as pessoas representam a vitória do consciente sobre o inconsciente, a transformação, a evolução, a melhoria.
Podemos ver o heroísmo em inúmeras obras de ficção, como Star Wars, Harry Potter, a Bíblia, Big Brother Brasil, Made Mtv, etc.
Mas ao mesmo tempo em que esses ídolos servem de inspiração eles também servem, bem sabemos, como fonte de alienação e distração moderna. Ou seja, alguém que quer ser como o Zac Efron como o Harry Potter é alguém que busca fugir de sua realidade se projetando para outra pessoa, para outro mundo, para outra realidade; uma realidade de imaginação (well, irreal!), um lugar onde até mesmo o imperfeito é o perfeito – afinal, trata-se de uma história em que o bem vence no final, e as aventuras são bem mais tragáveis assim, mesmo as desventuras. Nada de revolucionário nisso. Nada de glorioso nisso. Pelo contrário, é o caminho inverso que se faz ou que se tem como objetivo na narrativa heróica, o de autoconhecimento.
Será que todas essas histórias que criamos sempre são fugas? Tentativas de conquistar num sonho de vigília tudo aquilo que não conseguimos na vida real? Joseph Campbell interpreta os mitos heróicos como representação de nossas vitórias, do papel de herói que representamos na nossa vida, mas será que não é na verdade uma representação daquilo que gostaríamos de ter alcançado em vida?
E a religião? Um mito institucionalizado, uma mitologia que é tomada como verdade racional. Nietzsche já dizia; mitos contém valores, religiões contém leis. Ora, em um post há poucos dias perguntei a mim mesmo, sem resposta de minha parte: onde nós vamos parar, se nossos mitos são reais? No mesmo lugar em que iríamos parar se o mito divino fosse verdadeiro. No inferno. Ou num céu absolutamente sem graça. Ou, o que define o assunto, num mundo bem diferente e estranho.
Ora, o mito divino é pra ser interpretado nas religiões como algo certeiro, físico, real. Sendo assim, todos os valores morais passados pelos mitos transformam-se em leis. Da mesma forma como o BOPE foi o mito do protecionismo paternal brasileiro durante alguns meses, o que acontece com uma sociedade onde o mito é verdadeiro? Leis. O BOPE manda, oras, é simples. Não podemos mais imaginar vilões na nossa vida: nosso imaginário é tomado por assassinos, estupradores, ladrões. São mitos reais, e você realmente passa por aquilo que os heróis míticos passariam.
Ora, mas vejamos, se os nossos mitos tratam-se da realidade, pelo menos temos a chance de entrarmos mais em histórias heróicas – e desempenhar um papel heróico em nossas vidas.
Mas o que acontece é que se os mitos são representações, matar um dragão não é literalmente matar um dragão. Por que o realismo machadiano? Porque o romantismo tomou os mitos heróicos ao pé da letra, e quis aplicar a realidade mítica à realidade cotidiana. Foi necessário Machado de Assis pra mostrar que não, mitos não são reais, pare de fantasiar e entenda o que eles querem dizer!
Se os assaltantes hoje em dia são as forças sobrenaturais do mal que causavam desventuras aos heróis míticos, o que se espera de alguém que vive um assalto? Que combata os assaltantes? Ora, não fui um herói ao deixar que os assaltantes levassem meu celular. Oh, deveria eu ter brigado contra 5 deles, sendo eu tão bom em luta quanto em corte e costura? Sou eu covarde por isso? Ou, sendo eu covarde segundo o existencialismo, vale a pena ser um herói?
Valores morais. Segundo Joseph Campbell, toda a questão do heroísmo representa a mudança de paradigma. O herói deve se transformar, deve passar a ver o mundo de uma forma diferente depois de passar por provações e dificuldades. Engraçado que todo herói fica o que se tem hoje como “bonzinho” no final da trama, ou seja, toda trama heróica classifica moralmente o “doar-se aos outros” como bom.
Mas eu me pergunto, por que a gigantesca maioria das tramas heróicas tem como tema central ou como finalidade o sacrifício aos outros? Simples. Ora, se a mitologia nos acompanha desde tempos muito antigos no “inconsciente coletivo” é de se esperar que os mitos sejam profundamente inspirados pelos nossos desejos e medos. Ora, qual foi a necessidade social básica dos antigos grupos humanos? Proteção, auxílio, o todos-cuidam-de-todos para a sobrevivência de um grupo. É óbvio que a moralidade da época deveria se encaminhar para a idéia de que um deve se sacrificar por todos – deixando de lado seus objetivos pessoais para que o “todo” se dê bem. Ora, é uma idéia simples mas efetiva, usar a arma da moralidade como cabresto para impedir qualquer tipo de rebeldia, não é? Não é? Pois é…
Outra questão sobre encarar a vida heroicamente é a nossa relação com os outros. Os mitos sempre se concentram mais na trama do que no personagem, assim como a prosa romântica (porque, afinal, se trata da humanidade em geral e mesmo assim um autor se concentrando em um personagem se espelharia nele, tentando retratar a realidade ao redor do personagem em função do mesmo). Ou seja, eu sou o herói da minha própria vida, mas quem é o vilão? Quem é o personagem engraçado? Quem é o “guardião do portal” ou coisa do gênero? Quem é o sábio que me introduzirá ao desafio? Por que devo tratar as pessoas ao meu redor desta forma?
Talvez esta atitude respeitosa em relação aos outros seres humanos é justamente o que falta ao mito, e é um excelente ponto para expor meu pensamento individualista. Vê como nossa “primitividade” favorece um pensamento de grupo e não de indivíduo? Pensamos na trama e não no(s) personagem(ns). Dessa forma nos permitimos tratar o outro como um vilão. É fácil assim, não nos colocarmos no lugar dele – como Ibrahim magnificamente sintetizou em seu livro ainda não publicado EQM, vestir uma blindagem contra os outros, achar que todo o resto é idiota e você está certo. Da mesma forma, é fácil tratarmos o outro como um personagem engraçado na nossa trajetória heróica – alguém que está ali para nos ajudar incondicionalmente.
É engraçado ver esta relaçao lendo dois livros, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e depois “Quincas Borba”. No primeiro, o personagem principal vê o tal Quincas meio que dessa forma. O seu Sancho – ele o Quixote. Mas no outro livro, contado da perspectiva de Quincas, o Brás Cubas foi o amigo meio doido da história.
E aí voltamos para uma interpretação mais respeitosa em relação ao mito: ao tratamos cada um como herói, estamos sozinhos. E devemos encarar isso, se há uma jornada a percorrer, estamos sozinhos. O que Sartre quer nos dizer mas ninguém hoje em dia parece dar ouvidos. Estamos so-zi-nhos. No clímax decisivo de todo o mito, o herói deve enfrentar seu nêmesis sozinho. Mas, estranhamente, através dos mitos (e da religião) estamos incentivando os outros a se sacrificar – inconscientemente essa atitude acaba sendo útil não? Ninguém pensa assim conscientemente, mas ao apoiar uma atitude de sacrifício o fazemos porque, afinal, gostamos da idéia de que alguém se sacrifica por nós. Gostamos da idéia de que haverá alguém sempre lá, pra nos amparar, pra nos salvar – pra servir de bode expiatório…
É claro que se pode argumentar: desempenhamos papéis variados, depende sempre do ponto de vista. Mas não temos todo o tempo do mundo nem todo o espaço que o espaço pode oferecer. Muitas vezes pontos de vista conflitem. Eu quero ser o herói, mas outro me quer como sábio, e ainda outro me quer como vilão. O que acontece nessas situações? Difícil dizer ao certo.
Outra coisa interessante na trama heróica é a questão nietzschaeana da “correção da realidade” - o otimismo ou o pessimismo como oriundos da mesma fonte, o desgosto para com a realidade. Quando você entende o pensamento, é como um mito: alguns não percebem a mitologia de Jesus e já vão fazendo religião da coisa toda. Da mesma forma, quando Nietzsche fala de amor fati, os burros (digo burros porque essa é a simbologia que ele mesmo usa) começam a dizer “sim” pra tudo – ou seja, eles não compreendem que não se trata de passividade, de tudo aceitar, de a tudo se acomodar, sem se transformar num agente da realidade (não apenas um espectador). O dizer-sim à realidade de que tanto Nietzsche fala trata-se de uma simbologia para nossa vida interna e o modo como vivemos nossos sentimentos, sempre querendo preservar os bons e ignorar os ruins, ou sempre querendo consertar o modo como vemos o mundo para torná-lo cada vez melhor – quando a receita para ser feliz está justamente em aceitar que coisas ruins acontecem, sentimentos ruins existem e a vida é assim… Que isso pode estar um pouco além do nosso controle.
Eu falei um pouco sobre essa mitologia do herói, mas quero que saibam que esse é apenas um brainstorm. Eu fui jogando as idéias que me apareciam na cabeça, sem saber ao certo se essa é uma conclusão. Deixem suas opiniões aí, por favor; gostaria muuuuito de saber o que vocês pensam sobre o tema.
Tags: Filosofia, herói, mito, mitologia, religião




Droga!
Quando eu publiquei eu fiquei com a sensação de que faltou falar alguma coisa. E faltou mesmo.
Faltou falar que é estranho diferenciar o mito de religião: afinal, quem viveu na época dos mitos acreditava de fato no mito. O único meio pelo qual o mito se diferencia da religião é pela noção de irrealidade do mesmo - ou seja, quando este é antes de mito, arte.
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