No primeiro livro de Nietzsche ele mergulha nos princÃpios da estética. Uma frase que resume um pouco o espÃrito do livro é: “a ciência sob a ótica da arte, a arte sob a ótica da vida”.
Para ele, a existência (de uma maneira geral), não poderia se justificar de outro modo a não ser como um fenômeno estético. Nada de moral, nada de consciência. Ele aponta que tudo o que havia, antes de haver alguma coisa, era um caos pleno, feito de pura energia… Essa plenitude e essa perfeição de tal não-ser era justamente a fonte de sua dor, a fonte de seu lamúrio. Como se a dor estivesse embutida na plenitude - como se a própria perfeição fosse algo inimaginável, ou algo não muito bom pra desejar.
Então, ocorre a libertação do um primordial - através da aparência, da ilusão, do sonho, da imagem, o caos se liberta e se sente feliz. A contemplação dessas imagens individualizadas, essas partes do um primordial existentes, seria justamente a fonte de alegria. O caos é justamente o criador fundamental de tudo pois a criação é um ato artÃstico, o ato de criar imagens para seus sentimentos o liberta. E então ele coloca essas duas naturezas como princÃpios metafÃsicos, ou seja, aquilo que está intrÃnseco à natureza das coisas - o vazio da existência, e a aparência.
Para ele o processo criativo da arte é justamente o processo contÃnuo pelo qual as dores da natureza se libertam na aparência. Ele faz a analogia do sonho e da embriaguez para explicar os dois instintos artÃsticos: apolÃneo e dionisÃaco, respectivamente. Então ele apresenta a figura do homem teórico, o otimista que consiste justamente no uso da razão para entender toda a natureza e ordenar todo esse caos - e essa racionalidade configura uma terrÃvel estreiteza de mente, pois alguns fenômenos racionais como a moral, a ética, o normal, o aceitável, etc, tudo isso descende diretamente dessa função racional que pretende abandonar o pessimismo inerente à vida - e abraçar com um terrÃvel cansaço tudo aquilo que ele pode compreender, e não apenas compreender como também controlar.
Veja aqui que o homem socrático, racional, cientÃfico, é melhor explicado sob a alcunha de teórico: o homem que não apenas vê com otimismo as possibilidades racionais, mas também vê com otimismo o controle, a existência, enfim. Existem várias caracterÃsticas que podem ser aplicadas a esse homem teórico. Mas o grande desapontamento de Nietzsche é justamente o fato de que, com o advento do homem teórico, a tragédia grega, a maior de todas as artes, tenha caÃdo no esquecimento, morta com um grande e terrÃvel baque. E mais…
Para ele, esses instintos artÃsticos do apolÃneo e do dionisÃaco são dois instintos que, por serem metafÃsicos ao mundo real, pertencem à vida, à existência em si, e não apenas ao mundo das artes. A arte na grécia antiga seria justamente a vontade de ter uma vida artÃstica - para os gregos, a arte, o ato criativo, é aquilo que justifica o vazio da existência, e a vida deveria ser vivida como arte - a individuação apolÃnea e ao mesmo tempo o aniquilamento da individualidade, etc - para ele, o homem teórico teria destruÃdo essa vida artÃstica e tenha criado uma vida baseada nessa decadência otimista, uma vida que leva à fugir da vida, com todos os seus instintos, a sua poderosa vontade de poder e tudo o mais. Essa vida séria, digna, que é apenas um modelo social (quem sabe doente?) seria justamente o fim dos poderosos instintos artÃsticos que poderiam guiar uma vida mais plena.
No final, Nietzsche nos diz uma verdade: perdidos no caos conceitual, o homem se delicia com três ilusões distintas: ou se joga na torrente de fogo dionisÃaca, que se lança pela vida sem parar pra respirar, em uma grande correria atrás das emoções, do poder, dos instintos máximos e de tudo o que a vida tem de bom e mau pra oferecer, sem parar pra se preocupar com conseqüências, causas ou funcionamentos…
Ou se baseia no autoconhecimento, na contemplação das imagens, em uma vida calma, tranquila, equilibrada. Baseada na individuação e no respeito, na alegria libertadora das imagens, do sonho. Viver não num sonho grosseiro, mas num sonho bom, numa ilusão necessária para manter tal pessoa longe do abismo do ser dionisÃaco - que mostra toda a dor da existência para o apolÃneo dionisÃaco…
Ou então ainda viver sob a constante da razão, dos princÃpios morais e éticos, de uma constante investigação lógica e de uma atitude constantemente lógica para com tudo. Além de tentar entender tudo sob os dogmas da própria razão envenenada (depois eu escreverei sobre isso), esse entendimento prende a razão em si mesma, numa constante redundância de pensamento, numa lógica circular que ninguém percebe. Entretido pelas próprias falácias, ou também por vezes não. Aqui a razão é descrita mais como o “modo” como se vive do que necessariamente com o uso da razão em “outras potencialidades”, que como eu já disse ali, estou louco pra escrever sobre…
Enfim, essas três ilusões, a dionisÃaca, a apolÃnea e a teórica, é o que em maior ou menor grau influencia os costumes da humanidade, das culturas, em todos os lugares do mundo.
Tags: crÃtica, Filosofia, literaturas, livros



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