Inúmeras e inúmeras vezes eu já citei Nietzsche aqui e em vários outros lugares. Para isso há uma razão; o cara é foda. Digamos que ele é o Chuck Norris da filosofia. Alguém fala alguma coisa e você “Nietzsche!”. Pronto, debate ganho.
Não, brincadeira, não é assim, mas é quase. O bigodudo não gostava de adoradores e deixou isso claro; mas como não querer adoradores depois de deixar um legado tão contundente? Ele é o filósofo do qual mais gosto, mas não concordo totalmente com ele. Ele queria originalidade, não queria? Não posso oferecê-la a ele sem inventar fatos e interpretações que de verdadeiros nada tem; mas posso oferecer a ele uma discordância, um que diga “eu gosto muito dele, sabe, mas não concordo com tudo!”. Então, ofereço-lhes este post para que se lembrem de que não vendi minha alma a ele e, apesar de citá-lo e usar muitas de suas idéias, chegará um ponto em que nos dividiremos.
A idéia de “chegará um ponto”, aliás, é bem clara. Eu trilho o mesmo caminho que ele até chegar a dois pontos em particular em que discordo de suas derivações.
1. Amor Fati / Ressentimento / com tudo?
Segundo a wiki:
Ressentiment is a reassignment of the pain that accompanies a sense of one’s own inferiority/failure onto an external scapegoat. The ego creates the illusion of an enemy, a cause that can be “blamed” for one’s own inferiority/failure. Thus, one was thwarted not by a failure in oneself, but rather by an external “evil”. This issuing of “blame” leads one to desire revenge, or at least believe in the possibility of revenge; this lust for revenge may take many forms, as in the Christian conception of the Last Judgment, or the socialist conception of revolution. In each case, a sense of powerlessness creates the illusion of an enemy; one suddenly conceives oneself to be oppressed rather than merely weak, a phenomenon that spawns externally-directed bitterness (lust for a perceived “revenge”).
Podemos ver que o Amor Fati de Nietzsche se estende até a sociedade. Por exemplo, eu interpreto-o como o amor à realidade da experiência da vida, ou seja, o modo como nos relacionamos com as pessoas, os nossos sentimentos, as nossas sensações. Por exemplo, “fugir”, tentar evitar, ignorar, “pular essa parte”, contornar a mentira não vai adiantar, ela é uma coisa da vida; não apenas a humana (afinal, o camaleão é o animal mais mentiroso ou que melhor consegue mentir…). ignorar o ódio, tentar evitar o amor, tentar contornar o fim natural de uma relação - isso tudo causa a frustração de querer uma vida que não se pode ter - uma vida toda verdadeira, uma vida simples, uma vida de relações harmoniosas, uma vida de amor… Por isso o Amor Fati é necessário. Amar todo e qualquer aspecto da experiência humana.
Entretanto, veja que Nietzsche estende isso (principalmente no Zarathustra) para a sociedade também. Não tente mudar a realidade, toda ela - tanto a da vida quanto a social - isso que ele quer dizer. Ele quer dizer que seria bom que a pessoa não tentasse modificar a realidade, mas sim passasse a amá-la, toda ela, e agisse de acordo com sua vontade independente das influências da sociedade. Tanto é assim que pra ele a Revolução socialista é também um ressentimento - ou seja, as pessoas fracas consideram que a sociedade é culpada pelo próprio fracasso, e dessa forma desejam transformá-la.
Eu meio-que-concordo com ele… A sociedade, a civilização, é uma construção humana, e portanto não faz parte de um conjunto de características imutáveis da nossa percepção. Afinal, a dor é universal e atemporal na passagem dos humanos pela terra, mas as formas de organização humana já foram bem diferentes do que são hoje, o que nos leva a concluir que essa nós podemos mudar para transformar em algo melhor.
Mas o que seria melhor? Com certeza não algo que pretenda transformar a realidade de percepção humana, pois isso seria contraditório. Nós vivemos em uma sociedade de leis e regras morais que visam coibir determinadas atitudes. É uma sociedade que visa reprimir o lado negativo da vida em favor do lado positivo.
Quem seria louco de defender que assassinatos sejam permitidos? Nietzsche disse em Aurora (desculpem, não tenho o livro comigo agora, então a citação não vai ficar exata) que sim, algumas coisas não deveriam ser feitas, mas não pelos mesmos meios com que não são feitas hoje em dia. Uma melhor sociedade seria aquela que permitisse a liberdade total (entenda-se como o máximo que for possível, e põe mais pra longe esse limite que cabem mais coisas sim…) da ação do indivíduo, combinada com uma educação que permita o desenvolvimento intelectual e pessoal do indivíduo. É a vida centrada em quem interessa de novo, a pessoa.
Hoje em dia temos toda uma cultura e um método de funcionamento do sistema (com suas escolas, postos de trabalho e tal) voltados para manter um sistema girando. Isso deveria fazer um bem às pessoas, mas causa antes o enriquecimento de uns e o empobrecimento de outros. Causa o sacrifício do presente em função do futuro. Causa a alienação. Causa a frustração pessoal, existencial. Não me venha com Sartre - ou mesmo Nietzsche e seu ressentimento. O que eu entendo por causa é: Um dia estava jogando xadrez com uma amiga no colégio, de tarde. Era recreio e uma roda de crianças de 7-8 anos se aproximou pra assistir. Para minha surpresa, alguns sabiam jogar e muitos conheciam os movimentos das peças. Mas tinha um em especial que ficava berrando, e gritando, e enchendo o saco da Jéssica e etc. Era dessas crianças insuportáveis que se você tivesse como filho iria se suicidar por ter falhado como pai. Aí ele começa a soltar riminhas como “não me chama de viado (ninguém chamou, ele foi preventivo) porque não-sei-o-que-não-sei-o-que, terminava com ‘teu cu é meu’ ou ‘como tua prima’”. Aí a Jéssica perguntou onde ele aprendeu isso. Ele respondeu, com um sorriso banguela “num vídeo. Do computadô”.
Eu não sei se dá pra pensar assim, mas me digam o que vocês acham dos pais dele? Não que eu diria algo como “Cala a boca moleque, não fala isso” etc, mas se eu tiver um filho quero estar perto dele o suficiente pra conversar com ele sobre isso, entende? A impressão que dá com a atitude dele, olha, não sou psicólogo nem nada, mas ele não deve ter pais presentes, amigos, compreensivos, entende? Estou dando só um exemplo e exemplos são falhos, mas aonde quero chegar é: quantos pais não acabam distantes dos seus filhos por trabalharem demais? Você pode dizer “ah, mas eles têm escolha”. Sim, eles têm uma escolha: trabalhar ou não trazer dinheiro suficiente pra dentro de casa. Ou trabalhar demais pra “garantir o futuro”…
Isso é só um exemplo. Nossa vida está cheia de “tudo bem, mas…”. Você pode fazer tal coisa, mas… Aguente as conseqüências. As conseqüências, entretanto, não são naturais, são artificiais. Por exemplo, se eu jogo um ovo pra cima, a conseqüência natural é que ele desça. Se fosse proibido jogar um ovo pra cima, a conseqüência seria eu, sei lá, ser preso ou acabar morrendo. Isso não é uma conseqüência natural. É uma conseqüência que visa enquadrar todos dentro de um mesmo sistema, coibindo ações diferentes do esperado - sendo esperado aquilo que geralmente favorece alguns membros de um grupo. Dizer que o Amor Fati trata-se de aceitar até mesmo as vinganças que os comuns aplicam aos diferentes (olha o ressentimento aí geeente!) é loucura, ou idiotice.
O que eu penso é que a sociedade deveria ser estruturada para a liberdade e para a educação para dar a todos a possibilidade dessa diferença, fazer com que haja, sim, um tipo de “estímulo”, mas o estímulo não seria através das leis mas sim através da cultura. E para qual direção o estímulo? Liberdade e respeito da liberdade alheia. Não apenas ser livre e viver do modo como desejar, mas ter a consciência de que o outro tem o mesmo direito de aproveitar a liberdade e portanto evita-se interferir diretamente* em sua vida.
É claro que meu sonho não é utópico para imaginar que todos sejam assim - muito pelo contrário, imagino algo em torno de 30% exercendo essa plena de liberdade oferecida e estimulada, e os outros 70% vivendo de alguma forma, menor ou maior, à margem disso - mas por vontade própria (como optar pela segurança ao invés da liberdade, por exemplo), porque o estímulo natural da estrutura da sociedade seria o contrário. Está aí, talvez, a raiz da minha discordância com Nit: eu acredito que não, ninguém possui uma “natureza” imutável que lhe defina como “fraco” ou “forte”, enquanto o bigode demonstra esse pensamento de vez em quando, nas entrelinhas.
2. Poder? Dominação?
Não deixe o conteúdo do primeiro tópico esfriar; Nietzsche exaltava a “vontade de poder”, e isso é bem ambíguo. Em um aforismo de Aurora ele chega a dizer (de novo, citação pouco fiel) “o independente é aquele que procurou alguém pra dominar, mas como não achou ninguém preferiu dominar a si mesmo”.
Entretanto, não considero que o poder sobre si mesmo seja só mais uma forma de poder. Considero que seja justamente o poder a ser buscado quando se fala de “vontade de poder”.
Partindo do fim do tópico anterior, considero o direito de todos os seres humanos à liberdade, desde que se assuma as responsabilidades pelo ato. Qual é a relação? Bakunin escreveu que “a liberdade do outro eleva a minha ao infinito”. Quando eu reclamo a minha liberdade, eu tenho o direito de utilizá-la à medida em que tenho consciência dos meus atos, ou seja, agir em liberdade significa aguentar as conseqüências naturais disso. E uma das conseqüências naturais é a libertação do outro também, o afetado pelas minhas ações. Se eu posso fazer tudo, por que também não o outro? Portanto, ao exercer minha liberdade, meu poder, tenho que conceder ao outro também o direito de fazê-lo. Por que não se poderia dar liberdade a um psicopata? Porque ele não pode considerar os outros na equação de suas atitudes. Eu posso; se decido não fazê-lo, o problema é meu e tenho que enfrentar as conseqüências disso.
Uma pessoa que prefere dominar aos outros, e não a si mesmo, expandindo o conhecimento sobre si e as próprias capacidades, o faz justamente porque ao tomar para si o poder do outro você aumenta seu poder… Mas é ilusório. É como usar um terceiro braço, artificial, pelo controle remoto; você pode usá-lo, ele vai aumentar seu poder, suas possibilidades - vai poder fazer coisas que antes não poderia; entretanto, ele não é seu. Esse poder é temporariamente seu, mas ele pode não ser, e se você se acostuma a ser forte com ele não o será sem ele. Ou seja, é uma ilusão se achar forte com ele**.
Pior ainda é um mundo do jogo de poder humano em que algumas pessoas se sujeitam (ou são “sujeitadas”) a outras. Quando A tenta dominar B, faz mais do que revelar sua fraqueza ao precisar do poder de B para ser melhor; ela tira a possibilidade de B de ser livre como ele, e como disse antes, essa é a consciência maior que precisa ser adotada: a de que todos merecem essa liberdade. Ou melhor, de fato, tem que fazer merecer a liberdade: assumindo a responsabilidade.
Ouvimos, ou pelo menos eu ouço, desde a pré-escola o conceito de que “o mundo seria melhor se cada um cuidasse da sua vida”. É claro que há outras implicações éticas dessa idéia, como a omissão, por exemplo, mas isso é uma complicação irrelevante agora. Isso chega perto da idéia individualista que tenho; deixar de querer dominar os outros para dominar a si mesmo.
Ou seja
Concordo com Nietzsche em muitos pontos, mas nesses dois eu discordo. Talvez a origem disso seja a interpretação do homem. Ele disse: “não vim pra melhorar ninguém” (Esse é de Ecce Homo, eu tenho o livro mas dá preguiça de procurar). O que ele quis dizer? Interpretação certa ou errada, pra mim o que ele quis dizer foi que justamente não veio pra tirar o sofrimento do mundo e maximizar a alegria, mas veio apenas para mudar a visão que temos do sofrimento e da alegria. Isso, pra ele e pra mim, é uma melhoria, o que é um pouco confuso se você volta e vê que ele disse que não queria melhorar ninguém. Eu acredito num homem que não está pronto; e isso faz toda a diferença.
*Como assim diretamente? Quer dizer o seguinte… As coisas que fazemos acabam afetando outras pessoas. Infelizmente, muitas às vezes acabamos influenciando negativamente a vida de outras pessoas, mas não de propósito, não diretamente, mas indiretamente. Um dos aspectos que abordei aqui foi esse. A punição com a qual estamos tão familiarizados tem a ver com o ressentimento de Nietzsche porque a pessoa não procura aceitar essa conseqüência natural e continuar a agir; não, ela se vitimiza e procura vingança.
** Todos conhecemos a história dos vilões adolescentes colegiais, que sempre andam em bandos. Temos até o exemplo do Draco Malfoy; durante as primeiras aventuras de Harry Potter, sempre muito bravo com os seus comparsas do lado, mas sozinho deixava de ser tão confiante…